Brasília, quarta-feira, 20 de março de 2002
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PROJETO de lei
Dinheiro da saúde vai para a terceira ponte

Roriz, conhecido como o governador dos pobres, quer remanejar verba destinada ao saneamento para concluir obra que beneficiará os mais ricos

Renato Alves
Da equipe do Correio

Jorge Cardoso 9.3.02
Governo quer mais R$ 40 milhões para terminar a terceira ponte, apontada como uma das principais obras da atual administração
 
Paulo de Araújo 16.10.01

 
Antonio Siqueira 7.6.01
Rollemberg comanda reação oposicionista, mas Gim Argello promete aprovar projeto na sessão de hoje
 
O governador Joaquim Roriz resolveu agir como um Robin Hood — herói inglês conhecido por dar aos pobres o que tirava dos ricos — às avessas. Mandou um projeto de lei para a Câmara Legislativa para tirar R$ 40 milhões destinados às obras de saneamento básico das cidades mais pobres do Distrito Federal para incluir na construção da terceira ponte do Lago Sul, que beneficiará principalmente os moradores mais ricos da capital.

  O projeto, que autoriza o GDF a abrir ao orçamento anual crédito suplementar de R$ 40 milhões — passando o dinheiro da Secretaria de Saúde para a Secretaria de Obras — entrou na pauta de votação da Câmara Legislativa uma hora depois de ser protocolado na Casa. Só não foi votado porque faltou quorum de deputados governistas para aprovar a mudança de destinação de verba, segundo o próprio presidente da Câmara, Gim Argello (PMDB).

  ‘‘Vamos pôr o projeto em votação amanhã (hoje) de qualquer maneira’’, garantiu Gim. No momento em que a proposta do governo foi lida em plenário, no início da noite de ontem, haviam 15 deputados distritais. Para aprovar o projeto, eram necessários 13 votos favoráveis.

  A oposição resolveu impedir a mudança de destinação do dinheiro. O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB) comandou a retirada dos oposicionistas do plenário. Ele convenceu os petistas presentes na Casa — Lúcia Carvalho, Wasny de Roure, Chico Floresta e Paulo Tadeu — a sair do plenário e impediu a votação.

  ‘‘Não sou contra a construção da ponte. A obra começou e tem que acabar. Não sou a favor é de retirar dinheiro de saneamento. Vou propor que a fonte para a conclusão da ponte seja o orçamento do GDF para publicidade, que é altíssimo’’, ressaltou Rollemberg. A quantia prevista pelo governo para os gastos com propaganda neste ano é exatamente o que Roriz pede para a ponte.

Manobra
Os deputados petistas também fizeram questão de dizer que não querem atrapalhar a construção da nova ponte do Lago Sul. No entanto, são contra a manobra do GDF para utilizar o dinheiro previsto para obras de saneamento. ‘‘Não é justo que as pessoas mais pobres, justamente quando estão sofrendo com a calamidade pública de saúde instalada pela dengue, percam benefícios para que os mais ricos sejam favorecidos’’, reclama Paulo Tadeu.

  Para ele, a mudança de última hora no orçamento prova a falta de planejamento do governo. ‘‘É mais uma constatação que o GDF não tem dinheiro garantido para todas as obras que anuncia em suas propagandas milionárias’’, completa Paulo Tadeu.

  Chico Floresta também demonstrou preocupação com a saúde dos moradores das cidades mais afastadas: ‘‘É uma irresponsabilidade muito grande chegar um projeto de última hora e colocá-lo em votação sem que se saiba exatamente o que está deixando de ser feito, principalmente em se tratando de uma área tão delicada como a de saneamento.’’

  Até mesmo alguns deputados governistas defendem o debate sobre a mudança de destinação de verba. Mas admitem que o governo ganhará mais essa batalha na Câmara. ‘‘Não deu tempo de discutir a mensagem enviada pelo governador. Não tenho conhecimento de que tipo de projeto seria atendido com esse dinheiro na área de saneamento, mas deve ser aprovado porque o governo tem 16 deputados em plenário’’, disse João de Deus (PDT). ‘‘Não votamos porque não tinha quorum, não deu tempo de discutir, ler a mensagem, avaliar do que se tratava. Faremos isso amanhã (hoje), com mais calma’’, emendou Wilson Lima (PSD).

  Fontes da Secretaria de Obras revelaram que parte dos R$ 40 milhões que o governo quer destinar à terceira ponte seriam investidos em obras de saneamento nas cidades de Samambaia e São Sebastião, duas das mais pobres do DF — que, juntas, têm 274 mil habitantes.

Colaborou: Ana lúcia Moura


Construção já gastou R$ 98 milhões

  Orçada inicialmente em R$ 78 milhões, a terceira ponte do Lago Sul, batizada de Juscelino Kubitschek, já consumiu R$ 98 milhões, segundo o secretário de Obras, Tadeu Filippelli. Ele disse recentemente não ter idéia de quanto será o preço final da obra, que está 80% pronta. Mas, com os R$ 40 milhões de crédito suplementar que o GDF quer tirar da Secretaria de Saúde, a empreitada chega a, no mínimo, R$ 138 milhões.

  Dono da Via Engenharia — empreiteira que ganhou a licitação para construir a obra em um consórcio com a Usiminas —, o engenheiro José Celso Gontijo estima que a obra deve ficar em torno de R$ 160 milhões. Ele mesmo admite que, com este valor, o governo poderia construir pelo menos três pontes do mesmo tamanho (1.200 metros) caso optasse por um projeto mais simples. O argumento é o mesmo de Filippelli. Segundo os técnicos da Via Engenharia, Usiminas e do GDF, o que mais encarece a ponte é a construção dos três arcos, que lhe darão característica de obra de arte.

  Para se ter uma idéia da quantia gasta nessa obra, o governo do Paraná gastou R$ 155 milhões para construir um conjunto de cinco pontes, acessos e estradas vicinais, batizado de Complexo Porto Camargo, e que tem 15.855 metros de extensão. Inaugurado na semana passada, o conjunto liga as cidades de Icaraíma (PR) e Naviraí (MS) pela BR-187 e é considerado a maior obra pluvial da América Latina.

  O Correio tentou localizar Filippelli e o secretário de Comunicação, Wellington Moraes. Nenhum deles retornou os telefonemas para dar mais detalhes sobre o projeto do governo. (RA)

 
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