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O santo nosso de cada dia Apaixonado por calendários, o mineiro Franklin Lopes de Freitas organiza livro sobre todos os padroeiros católicos Rodrigo Hilário Da equipe do Correio
É esquisito. Porém, verdade. Nas tábuas do catolicismo, é assim: praticamente um santo para cada dia do ano. Num país de maioria católica, em que mais de 85% da população dizem amém às ordens do Vaticano, a reverência aos santos é algo tão cotidiano quanto dormir e acordar. Com algumas exceções, do primeiro ao último dia do ano, há sempre um padroeiro para ser adorado. No panteão dos famosos, estão padroeiros como Santo Antônio, São Paulo, São Sebastião, São Jorge, São Benedito, São José, São Pedro, São João Batista, São Bento, Santa Clara, Santa Ana, Santa Helena, Nossa Senhora Aparecida, das Dores, das Graças, do Carmo, da Conceição... Mas a igreja também é pródiga em oferecer aos fiéis opções pouco convencionais de devoção. Tem santo para tudo. E não é exagero afirmar isso. Existem patronos de profissões, protetores de vítimas de doenças, defensores de animais. Em matéria de enfermidades, o esmero do catolicismo foi grande. Há santos para proteger quem sofre de epilepsia, rinite, esterilidade, reumatismo, paralisia infantil, eczemas, febres altas, herpes e até lepra. E tem outros males ainda mais insólitos, como furúnculos (São Clodoaldo), fluxos de sangue (Santa Cassilda) e — quem diria! — lesão por esforço repetitivo, a LER, doença dos novos tempos (São Pantaleão). Na parte dedicada aos patronos e protetores de profissões, mais uma lista extensa. Pasteleiros, costureiras, salsicheiros, donos de bar, produtores de vinagre, vendedores de sapato, vaqueiros, fabricantes de pente, lavadeiras e palhaços têm a quem recorrer no momento de aflição. E ainda vassoureiros, taxistas, parteiras, marmoristas, lixeiros, garçons, empregadas domésticas e prostitutas. Também chama a atenção a existência de santos dos quais nós, brasileiros, nunca ouvimos falar. Em geral, foram santificados por suas boas ações em outros países. Aqui, é improvável que até a mais carola das beatas já tenha debulhado terços e rosários em nome de São Ansgaire, São Focas, Santo Foy de Gascogne, São Guy, Santa Huna, São Neot de Glaston Bury, São Notkaar Balbulus, São Pascoal Baylon, São Prix e São Wolstan, por exemplo. Todas essas curiosidades sobre os santos consagrados a cada dia do calendário e a causas esquisitas resultaram em um livro, escrito pelo microempresário mineiro Franklin Lopes de Freitas, 42 anos. Lançado no fim do ano passado, Os Padroeiros — Guia dos Santos Protetores, primeiro de sete volumes sobre o assunto a ser publicado pelo autor, começou a ser produzido em 1986, quando ele resolveu pesquisar as origens do 1º de abril, o dia da mentira. Durante esse trabalho, Franklin, que assina Nilknarf (seu nome ao contrário), foi descobrindo os santos padroeiros de alguns dias, profissões, doentes. Começou a arquivar essas informações. Até conseguir reunir material suficiente para produzir os sete volumes sobre santos católicos. O próximo a ser publicado será uma enciclopédia sobre os mais de 5,7 mil padroeiros das cidades brasileiras. ‘‘É meu grande hobby. Os livros servem tanto como fonte de informação como para matar a curiosidade e divertir’’, diz Franklin, que doa os livros para estudiosos do assunto e paróquias. Santo para bicho Mas nem a imaculada mãe de Deus escapou de ser consagrada a causas engraçadas. Por exemplo: você sabia que o rio Ipiranga é protegido por Nossa Senhora do Cadeado? E que as parturientes são guardadas por Nossa Senhora da Correia? Sem falar em Nossa Senhora do Leite (defensora dos lactantes), Nossa Senhora da Escada (calamidades públicas) e Nossa Senhora da Cabeça (padecimentos do crânio). E nessa enxurrada de fé, nem os animais estão desamparados. Repare que não estamos falando de São Francisco de Assis. Alguns bichos integram o seleto grupo dos irracionais que têm santos específicos para protegê-los. Como os cavalos, defendidos por Santa Bertila, pombos (São Davi e São Segundo), cães (São Roque e São Vítor de Marselha), cisnes (São Hugo de Lincoln), corvos (São Kevin), leões (São Marcos), gatos (Santa Gertrudes Magna), baleias (São Brandão, o navegador) e salmões (São Kentingern). O bispo auxiliar de Brasília, dom João Evangelista Martins Terra, explica que a canonização só foi implantada na igreja a partir da Idade Média. Antes disso, a santidade era reconhecida pela devoção popular. Exemplo claro são os 12 apóstolos. Pedro, Paulo, Tiago, Mateus, Lucas, Marcos e companhia são santos não canonizados. Por isso, muitos santos foram declarados pela igreja protetores e padroeiros de causas inusitadas, obedecendo a um anseio da crença popular. ‘‘São santos de características regionais, que não têm uma liturgia própria, difundida por todo o mundo’’, diz dom Terra. No entanto, com o perdão da Santa Sé, há padroeiros e protetores de coisas tão esdrúxulas que segurar o riso é tarefa quase impossível. Como não rir ao saber que Santa Luzia é defensora dos talheres, que a mocidade feminina é protegida por Santa Blandínia e que uma oração para São Venâncio evita quedas e tombos? E como conter as gargalhadas ao descobrir que os bêbados arrependidos podem ser confortados por São Matias, em 14 de maio; que Santa Perpétua, em 7 de março, protege tanto as mulheres casadas como as vacas; e que os nordestinos, para se livrarem da seca, terão de pedir uma forcinha para o desconhecido São Swithun de Winchester no dia 2 de julho? A propósito: amanhã, 25 de março, é dia de adorar três santos. Tem a Bem Aventurada Virgem Maria, protetora da maternidade; São Quirino, defensor dos que sofrem possessões; e São Dimas, padroeiro dos agentes funerários, dos que têm medo da morte, e, acredite, do bom ladrão. Amém. |
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