Brasília, domingo, 24 de março de 2002
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Pisando em arco-íris

A artista plástica Dulce Schunck faz pigmentos com as muitas cores da terra do cerrado e com eles produz suas telas. Em expedições no Distrito Federal e nos seus arredores, descobre matizes do solo da região

Conceição Freitas
Da equipe do Correio

Abram Nelson Pencak
Dulce schunck pesquisa terra no Jardim Céu Azul
 
Divulgação

 
Abram Nelson Pencak

 
Sérgio Amaral

 
A terra que a gente pisa, nesta imensidão de cerrado, é vermelha, sabemos todos. Mas poucos têm idéia do quão coloridos são os minerais arenosos deste que é o segundo maior bioma brasileiro. Areias, terras, argilas e silicatos de alumínio brotam do chão como uma caixa de lápis de cor — tem branco, bege, gelo, verde, amarelo, mostarda, cinza, rosa, preto, terracota e vermelho. E, nesse meio, vários matizes sutilmente diferentes uns dos outros.

  Os incréus podem tirar as dúvidas na exposição Terra Fértil, da artista plástica Dulce Schunck, no Espaço Cultural Renato Russo. Há dez anos, ela descobriu que a terra do cerrado era mais do que vermelha e, desde então, faz expedições pelo Distrito Federal e cercanias atrás de novas cores deste chão.

No Jardim Céu Azul, bairro de Valparaíso, a 37 quilômetros de Brasília, encontrou nem uma nem duas, mas sete cores diferentes, superpostas num único barranco. Em São João da Aliança, a 150 quilômetros de Brasília, achou uma terra rosa. Em Niquelândia, região rica em níquel, encontrou terra verde. Na Serra Dourada, onde está encravada a cidade de Goiás Velho, há mais de 200 cores de areia, informa Dulce.

  Nessas expedições, ela recolhe pequena porção de terra em garrafas pet e vai assim montando sua aquarela particular de pigmentos que irão compor obras de arte. Noutras vezes, recolhe torrões que mais tarde serão socados até reduzirem-se a finos grãos. Depois a terra é umedecida com um pouco d’água e misturada a uma solução industrializada chamada liqüibrilho, espécie de cola usada para dar liga à composição. Está pronta a tinta que vai resultar nas telas de Dulce Schunck. ‘‘Essa é minha forma artística de valorizar as coisas da terra, de trazer à tona coisas que ninguém está vendo. É também um jeito de falar do meio ambiente’’, explica a artista que também é arquiteta e professora de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB).

  Nas pedreiras de Pirenópolis, Dulce Schunck encontrou areias de cores reluzentes, entre o branco e o bege, bem próximas do prateado. Em Alto Paraíso, mais torrões coloridos. Para encontrar esses pigmentos, ela precisa se dispor a vencer estradas de terra, a longas caminhadas e a subir e a descer morros até achar um matiz novo. Aventuras que, por enquanto, estão suspensas: aos 45 anos, Dulce está grávida de doze semanas e, diante disso, planeja aquietar-se nos próximos doze meses.

  Terra e areia não vão faltar. A artista guarda em seu ateliê, no Condomínio Estância Jardim Botânico, um arco-íris de grãos destinados a se transformar em telas, muitas delas lembrando fotografias de galáxias distantes. ‘‘Dulce é uma peregrina da cosmogonia da terra/Uma alquimista das coisas do chão/Ela dá poética e acha luz das estrelas até nas coisas rasas’’, escreveu o poeta e artista plástico Bené Fonteles.

  Esses dez anos de unhas cravadas na terra inspiraram Dulce a desenvolver um projeto de tese de doutorado em Desenvolvimento Sustentável na UnB. Quer pôr nas paredes das casas as cores da terra do cerrado. ‘‘O embate artístico com esses materiais me fez ver, como arquiteta, os ricos e variados pigmentos existentes nas terras e areias mais comuns; me permitiu vislumbrar sua capacidade de transformar superfícies sem acabamento em planos de cores e texturas refinadas’’. Com esse projeto, a arquiteta pretende desenvolver materiais que substituam os tradicionais revestimentos de parede.

  O projeto acadêmico deverá mapear a ocorrência dos minerais coloridos, fazer a análise, processamento, classificação e identificação de terras, areias e argilas. Em seguida, a pesquisa tecnológica vai descobrir se o uso das terras coloridas em revestimento de paredes é factível.

  Para assegurar a pertinência do projeto, Dulce Schunck recua longe no tempo: ‘‘As primeiras cidades foram construídas com terra. Jericó parece ser a mais antiga, tem cerca de 10 mil anos. Pelo menos um terço da humanidade vive hoje em arquiteturas de terra’’. O Brasil também percorreu o mesmo caminho: as técnicas de taipa e adobe usadas na arquitetura indígena, na arquitetura vernacular e na arquitetura colonial de origem portuguesa.

Dulce é uma peregrina
da cosmogonia da terra
Uma alquimista das
coisas do chão
Ela dá poética e acha
luz das estrelas
até nas coisas rasas
Torna raro tudo que
foi pisado e repisado
pela textura do tempo
E nos faz deslumbrar-se
pelas cores e nos encantar-nos
pelas novidades sem fim
desta vida
Suas obras são um micro
passeio pela eternidade
Que sua macrofertilidade-mãe
nos resgate e abençoe sempre...

Bené Fonteles


Serviço
Terra Fértil, exposição de pinturas e instalações de Dulce Schunck, no Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), até 31 de março, diariamente, das 13h às 21h.
 
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