Brasília, domingo, 24 de março de 2002
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Receitas De Um Pediatra




Será que alguém duvida de que os planos contra a violência não têm dado resultado?

‘‘Ninguém sabe mais onde a gente vai parar em São Paulo. Se não houver uma resposta a essa onda de violência no estado, cairemos no desgoverno total’’ — José Genoíno, deputado federal (Correio Braziliense, 20.1.2002)


Apesar de medidas que vêm sendo tomadas há quase 100 anos contra a violência, a população vive momentos de angústia, medo, terror e pânico, crescentes. As pessoas tentam defender seus lares construindo grades, muros, instalando portões eletrônicos, alarmes, câmeras de televisão, contratando seguranças, criando cães, comprando armas.

  Em certos locais, existe um toque oficioso de recolher, após o qual ninguém mais sai de casa. As pessoas deixaram de sair sozinhas, principalmente à noite. Evitam caminhar em determinadas áreas, classificadas de risco pela polícia. Viajar à noite e dar caronas na estrada, nem pensar. Se furar um pneu à noite, não tente trocá-lo, pois são grandes as chances de ser assaltado ou morto. Parar em semáforos à noite, ou de dia, em certas capitais, passou a ser perigoso.

  Ao entrar em casa, verifique se não está sendo seguido; muitos são os rendidos, assaltados ou mortos por terem um portão eletrônico que custa a abrir. Os roubos de carros têm crescido assustadoramente, e as chances de recuperá-los não passa de 50%, na melhor das hipóteses. Tirar dinheiro em caixa eletrônico à noite, ou mesmo de dia, é de alto risco. Cuidado com seu cartão de crédito; pode ser roubado ou clonado, o que dá no mesmo pois seu prejuízo será igual.

  Os carteiros e os postos de gasolina vêm sendo assaltados com freqüência crescente. Se você tiver dólares ou jóias, venda-os; os assaltantes já chegam nas casas, apartamentos e hotéis gritando: ‘‘Onde estão os dólares e as jóias?’’. Cofre em casa é o maior chamariz para os ladrões. Se você é mesmo rico, além de todos os outros riscos, corre o maior de todos: o de ser seqüestrado. Contrate seguranças, blinde seu carro, prefira usar o helicóptero e mande seus filhos para o exterior, como muitos estão fazendo; se você for remediado, não esqueça de que não está livre de ser seqüestrado pois, para boa parte dos seqüestradores, a situação sócio-econômica da vítima não mais importa.

  Mulheres, não andem sozinhas, principalmente à noite, em lugares ermo, pois os estupros têm aumentado assustadoramente. Em alguns locais, os homicídios constituem a causa mais freqüente de morte de adolescentes. Em São Paulo, ocorreram mais de 100 chacinas em 2000, que aumentaram em 2001. Os marginais atacam dentro das escolas. Os alunos se armam e detetores de metais são utilizados para impedir a entrada de armas. As gangues de jovens têm aumentado de forma impressionante, aterrorizando a população; no Distrito Federal, capital do país, foram identificadas mais de uma centena delas, cuja localização é conhecida pela polícia.

  Traficantes estão empregando crianças e ensinando-os a vender e usar drogas. A população das favelas obedece mais ao governo paralelo dos traficantes do que o legal. Se morre um deles, o comércio fecha. Visitas a alguns morros do Rio só com permissão do tráfico. Pela mídia, pode-se constatar o crescente envolvimento em atividades criminosas de magistrados, delegados, policiais civis e militares, até carcereiros — que montam verdadeiras lojinhas dentro dos presídios, onde os preços são superfaturados.

   Nos chamados centros de recuperação, sem nada o que fazer, os adolescentes tentam fugas e rebeliões. A maioria deles irá morrer nas ruas ou presos. Nas penitenciárias, as fugas, rebeliões e assassinatos fazem parte do dia-a-dia. Com a superlotação dos presídios, milhares de delinqüentes continuam soltos.

  A situação vem piorando, apesar de tudo que tem sido feito, pois as medidas preconizadas não são dirigidas para diminuir a formação de delinqüentes e sim para combater a violência resultante de suas atividades. Como a formação de bandidos vem aumentando consideravelmente, logicamente, as ações criminosas acompanham esse crescimento. Infelizmente, essa lógica não vem sendo compreendida pelas autoridades e nem pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que alardeou mais um plano curativo, cujos resultados serão iguais aos dos outros — pífios.

  Que Deus nos ajude a convencer as autoridades que a grande maioria dos marginais é fabricada nos primeiros anos de vida. É aí que as ações preventivas devem ser desenvolvidas.


 
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