Existem certas invenções humanas que de tão simples, correm o risco de passar despercebidas. É o caso da panela revestida com um produto que se popularizou com o nome teflon — embora teflon seja marca e não o produto em si (assim como Gilette se tornou sinônimo de lâmina de barbear). Com ela, demos adeus à dura tarefa de arear panelas. Basta uma esponjinha e pronto, tudo limpo. Mas antes de facilitar a vida doméstica, os engenheiros recorreram a uma tecnologia sofisticada. Adaptaram o produto hoje usado nas panelas a partir de um poderoso revestimento criado para dar durabilidade às naves espaciais.
Esse é apenas um dos mais conhecidos exemplos dos benefícios tirados das viagens para fora do planeta, consideradas por muitos dinheiro jogado no lixo. Desde a década de 50, quando a primeira nave tripulada saiu do planeta, a qualidade de vida por aqui só melhorou. Para comprovar isso, desde 1976 a Agência Espacial Norte Americana (Nasa) lança um relatório anual, chamado Spinoff. Nele, estão as invenções surgidas a partir da fabricação de naves, satélites, roupas para astronautas e simuladores de vôo.
O relatório da Nasa sobre 2001 acaba de ser publicado. Mais de 50 novos produtos estão na lista. Até hoje, já foram cerca de 1,3 mil (leia mais exemplos em quadro nesta página). Entre eles, um potente botijão de oxigênio usado em hospitais para pacientes com problemas respiratórios. Essa contribuição para a medicina veio a partir da construção de robôs destinados a missões em Marte. Para manter os robôs funcionando a milhões de quilômetros da Terra, os cientistas projetaram um equipamento capaz de armazenar oxigênio para usá-lo como combustível.
Outra contribuição da tecnologia espacial para a medicina são os minúsculos tubos que têm a capacidade de entrar nas células. Eles foram criados para monitorar o organismo dos astronautas em missões onde eles ficam expostos a radiação. Além de monitorar as células, os tubos liberam substâncias que a protegem das alterações provocadas pela radioatividade. Agora, o desafio usar essa tecnologia no tratamento de câncer. Uma esperança que cai do céu para salvar milhões de vida em todo o mundo.
Participação brasileira
A tecnologia espacial também tornou a comunicação humana mais fácil e rápida. Sem ela, não teríamos sequer entrado na era digital. Os cabos de fibra ótica que permitem o acesso à Internet, por exemplo, foram criados a partir do motor dos lançadores de satélite. O Brasil é um dos países que dominam essa tecnologia. Algumas indústrias daqui adaptam o material que deu origem à fibra ótica para construção de máquinas leves e resistentes, capazes de encontrar petróleo.
O conhecimento brasileiro nessa área começou a se desenvolver no país na década de 60, quando o governo investiu na criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). O uso dos materiais criados para agüentar as adversidades do espaço tornaram as empresas brasileiras de aviação tão boas quanto as do resto do mundo. Confiante nesse potencial, o governo investe R$ 278 milhões no Programa Nacional de Atividades Espaciais. O objetivo do programa é justamente usar a tecnologia espacial para resolver problemas nacionais.
Um deles é o controle de tráfego aéreo. Engenheiros de várias indústrias pensam formas de usar os satélites fabricados pelo Brasil para monitorar o tráfego de aviões. O monitoramento do trânsito nas ruas também deve ganhar reforços. E logo. O sistema de tráfego e cobrança de pedágio no Rio de Janeiro, por exemplo, foi criado por uma empresa que participou do testes para lançamento de satélites na Base de Alcântara, no Maranhão. ‘‘O software responsável por esse controle será exportado para países como Austrália e Índia’’, conta Walter Bartels, presidente da Associação das Indústrias de Tecnologia Espacial.
Segundo ele, além de gerar novos produtos, leves e duráveis, o esforço brasileiro para construir satélites também facilitou a captação de imagens mais precisas do território brasileiro. Com elas, os engenheiros definem os locais mais apropriados para a instalação de bases de rádio e telefonia celular. As imagens captadas pelos satélites também ajudam a definir as áreas onde o reflorestamento precisa ser feito com urgência.