Nos últimos trinta dias, quatro dos principais executivos da indústria automobilística mundial estiveram, coincidentemente, no Brasil. É uma demonstração inequívoca de que, apesar dos problemas originados da queda do mercado iniciados em 1998, continuamos na rota dos investimentos e no centro de decisões estratégicas. Ferdinand Piech, da Volkswagen, veio para inaugurar a modernização da mais antiga fábrica de automóveis brasileira e a linha de montagem do Polo. Depois, Jean-Martin Folz, da Peugeot-Citroën, esteve em Porto Real, RJ, onde o grupo francês construiu uma planta de motores que consolida sua presença no país.
Mais recentemente, Richard Wagoner, da General Motors, participou da convenção de lançamento para as concessionárias do novo Corsa. E agora, Mauro Pesquero, representando Paolo Cantarella, da Fiat, concluiu uma missão pouco expressiva comercialmente, porém importante: criação de Centros de Mobilidade. A empresa italiana e o Banco Real ABN doaram três simuladores de direção de última geração aos Detrans de São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal. E a fábrica doará, ainda, três automóveis adaptados para que portadores de deficiência — ou limitação física, como preferem alguns — possam realizar provas práticas e receber carteira de habilitação.
Carros modificados formam um mercado de nicho, estimado em no máximo 4 mil unidades/ano, embora existam no Brasil algo como 17 milhões de limitados fisicamente. Apesar disso, os fabricantes vêm procurando atendê-los melhor. A Volkswagen iniciou, semana passada, um programa que envolve 180 concessionárias. A Fiat dispõe de 101 lojas com assistência especializada, mas seu envolvimento é mais amplo, tendo começado em 1996 e na Itália, em 1994.
A idéia dos Centros de Mobilidade está bem difundida na Europa, com 28 instalações. A fábrica mineira propõe começar com três centros que, para se tornarem operacionais, necessitam da pista de testes de habilitação. Brasília terá a primeira. Esse e outros assuntos foram discutidos num seminário, em São Paulo, SP, com a presença do ministro da Justiça e presidente do Contran, Aloysio Ferreira. Ainda falta muito para a sociedade remover obstáculos físicos e admistrativos a favor de quem enfrenta dificuldades de locomoção.
A experiência italiana envolve desde estímulos fiscais diretos na compra de automóveis adaptados, deduções no imposto de renda dos juros pagos e até direito para adquirir um veículo convencional com incentivos e outra pessoa conduzir. O diretor de Inovação Tecnológica da Fiat, em Turim, Alessandro Coda, é um grande exemplo. Ele continua a dirigir, após mais de meio milhão de quilômetros rodados, sem utilizar os braços e sem um único acidente. Coda disse a esta coluna que 24% da população, na Itália; 20%, nos EUA; e 7%, no Brasil têm mais de 60 anos de idade.
Muitas destas pessoas querem permanecer dirigindo, mas progessivamente encontrarão dificuldades físicas semelhantes a quem já as enfrenta por doença ou acidente. Daí a importância crescente dos simuladores dos Centros de Mobilidade. Com ajuda de recursos eletrônicos, óticos, sonoros e mecânicos analisa os dados e imprime um atestado. Torna-se o melhor indicativo das modificações necessárias para guiar com segurança. A causa é nobre.