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Jubileu de Prata
Um quarto de século servindo kibeirutes
Velha guarda do Beirute homenageia Cícero Rodrigues dos Santos, um garçom paraibano que completou
25 anos atendendo aos clientes do bar mais boêmio da cidade. Com direito a bolo de chocolate e guaraná
Freddy Charlson
Da equipe do Correio
| Edson Gês |
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Festa com bolo para Cícero (sentado), que adora o trabalho: ‘‘Gosto daqui, se for para carregar bandeja, vou ficar onde estou’’
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Em tempos difíceis, com filas homéricas nas portas das agências de emprego, buscas intermináveis em classificados de jornais e envio (a torto e a direito) dos tais curriculum vitae pela Internet, um homem tem todo o direito de dar graças a Deus por ter um trabalho fixo. E este homem — tchan, tchan, tchan, tchan! — é o Cícero Rodrigues dos Santos, 52 anos, 25 dos quais vividos em Brasília. Justamente, aliás, o mesmo tempo em que ele está completando como garçom do Beirute, um dos mais tradicionais, boêmios e comentados bares da cidade. É, Cícero está completando o Jubileu de Prata beiruteano. Jubileu, aliás, comemorado na noite de terça-feira com singela festinha no meio do salão, digo, do bar. A festinha — rápida, claro, para não atrapalhar o movimento e os pedidos de cerveja e quibe — teve refrigerante, bolo de chocolate, palmas, aplausos, o canto de parabéns, enfim, tudo aquilo que qualquer festa de aniversário tem. A diferença é que o próprio dono do Beirute, Francisco Marinho, 64, o velho Chico, fez questão de servir bolo e guaraná para o aniversariante. Relembrando os bons tempos, Chico vestiu roupa de garçom, embolsou gorjetas — gaiatamente dadas pelos clientes da velha guarda — e partiu o bolo. ‘‘Como profissional, o Cícero é dez. Como ser humano, é companheiro, solidário, o primeiro a dar apoio a quem precisa.’’ Cícero estava mesmo de bola cheia com patrão, amigos e clientes. Não à toa, afinal o paraibano (de Nova Floresta) caladão e boa-praça é quase tão conhecido quanto o comércio na ponta da 109 Sul que ostenta, impávido e colosso, a placa ‘‘restaurante desde 1966’’. Onze anos, portanto, antes de Cícero chegar da Paraíba, ao Beirute, em 25 de março de 1977. O cabra da peste que vendia bijuterias em feiras veio de ônibus para a ‘‘cidade grande’’. Foi chamado por um amigo, o Francisco Dantas, para ser balconista do bar. Saiu da terrinha animado com a chance de conhecer gente nova e a capital do país. Não se arrependeu. Três anos depois, já perambulava pelas mesas com a bandeja a tiracolo. O salário de ‘‘1.019 e qualquer coisa’’ era tudo de bom. A discrição era — e ainda é — sua marca pessoal, o ‘‘padrão Cícero de qualidade’’. É o que dizia uma veterana de Beirute, a economista Lígia Barros, 43, ao levantar-se da mesa que dividia com Margô Silva, 45, jornalista, para cumprimentar o dono da festa. ‘‘O Cícero é sério na medida certa. Não se mete além do necessário’’, comentou Lígia, já abraçando o garçom que atende as mesas de 1 a 9, das cinco da tarde até o fechamento do boteco, lá pelas três da madruga. Folga? Só às segundas-feiras. O trabalho de atender pedidos, levar copos vazios e trazer garrafas de cerveja rende ao garçom mais respeitado do lugar (mesmo que todos ali sejam respeitabilíssimos senhores) R$ 350,00 — é o que consta na CTPS do sujeito marido de Gilsa e pai de Fábio, Rubens, William e Alana. Com as gorjetas, o salário pode render até R$ 800, R$ 900 por mês. Nada que faça o senhor careca, de sorriso e olhar discretos por trás dos óculos de aros finos dizer ‘‘Oh, meu Deus, mas que salário!’’. Mas o suficiente para criar os filhos e comprar uma casinha no Setor P Sul de Ceilândia. ‘‘Já tá bom demais’’, diz. Tão bom como a agitação por entre as mesas do Beira (e nem precisa ser íntimo para chamar o lugar assim), onde Cícero atende pedidos de poetas, políticos, intelectuais, universitários, artistas, além de, também, muita — mas muita mesmo — gente à toa. Como, por exemplo, desempregados, engraxates e vendedores de livros, revistas, CDs, artesanato, pinturas que, vira-e-mexe dão o ar de sua (deles) graça, ali. (Na noite de terça, quem vendia telas — a R$ 10, cada — no bar era o Paulo Iolovitch.) Apesar disso, Cícero considera o Beirute um ambiente familiar.
‘‘A clientela é doida, mas são malucos inteligentes. Só sei que acho ridículo homem beijar homem’’, conta o garçom, católico fervoroso, que até usa broches de anjos e de Nossa Senhora Aparecida na lapela e trabalha basicamente na área do Beirute conhecida como Gayrute, mais perto da rua. Mesmo assim, só se mete quando os beijos homossexuais ‘‘passam dos limites’’. É quando pede para os casais ‘‘pegarem leve’’. Se os beijinhos forem, digamos, light, Cícero não está nem aí. Já disse: o homem que não quer sair do Beirute — ‘‘Gosto daqui e se for para carregar bandeja vou ficar onde estou’’ — é discreto. Muito discreto.
Tão discreto que se vê alguém consumir drogas no seu ambiente de trabalho faz que não está nem aí. Ora, afinal garçom é surdo, cego e mudo. ‘‘E o melhor é a convivência. A gente tem que aprender o que o cliente gosta. Fico atento e levo o pedido antes do cliente olhar o cardápio. Crio amizades’’, dá a dica Cícero, paraibano que ficou esperto depois de anos como camelô. ‘‘É por isso que é bom de papo. Tanto é que se destacou como balconista e o promovi a garçom’’, lembra Chico, o cearense dono do Beirute.
Um dos responsáveis pela homenagem, o jornalista Luiz José Magalhães Joca, 52, concorda com o mestre. ‘‘No Beirute dá todo tipo de bicho e de gente. E ele trata bem a todos. Não atravessa conversa, não faz intriga. É uma espécie de psicólogo’’, diz o veterano Joca, que toma umas no Beira desde 1978 e que conhece Cícero há 24 anos. Tempo suficiente para o garçom aprender as manhas. ‘‘O pior da vida de garçom é levar calote. Você vira as costas e o cliente sai numa boa, como se estivesse chegando. A gente percebe quando a mesa dá calote e fica de olho.’’ Quando acontece o calote, o Beira não cobra do garçom, mas que dá um aperto, ah, isso dá.
Outras manhas? Lógico que Cícero aprendeu. Ele até pode dar dicas para quem quiser seu caminho. ‘‘O negócio é saber atender os fregueses’’, simplifica. Coisas como chegar, cumprimentar, dar o cardápio mesmo com as mãos ocupadas, ficar atento para não deixar ninguém esperar, não reclamar se o cliente não der 10%, trocar a bebida e a comida se alguém reclamar. O resto é ter a simpatia e a discrição de quem há 25 anos trocou a vida de camelô pela de garçom. Acha pouco? Pergunte, então, para o Cícero. A resposta será, certamente, um sorriso discreto, digno de um homem feliz com a vida que escolheu.
Histórias do Cícero
Peladões ‘‘Uma vez, acho que lá por 1990, um homem e duas mulheres passaram correndo, pelados, por entre as mesas. Estavam com um saco na cabeça e entraram no bar pelos fundos. Todos se assustaram, ficaram curiosos. Os mais gaiatos bateram palmas. Eu via, mas não acreditava. Os malucos saíram correndo pela quadra. Achei engraçado e descobri que faziam propaganda de uma peça de teatro.’’
Três formas de amar ‘‘Há duas semanas, dois gringos chegaram ao bar. Depois, chegou a namorada de um deles. Um dos gringos xingou a namorada do outro de ‘merda’, na língua dele. Ela jogou um copo de cerveja e meteu o tamanco na cabeça dele. O rapaz correu para o banheiro. Foi lavar o sangue. Corri e peguei um celular na mesa. Achava que era do rapaz. A moça disse: ‘É meu’. Devolvi e ela jogou o aparelho na rua. O casal pagou a conta e saiu. O outro ficou escondido.’’
Faroeste no beira ‘‘Parecia um filme de bangue-bangue. Mas aconteceu em 1992. Eu servia clientes quando ouvimos barulho de freadas. Dois carros da polícia seguiam um rapaz. A polícia pegou-o em frente ao Beirute. Ele deu um cavalo de pau e escapou. Um policial pulou no pescoço dele e ficou pendurado na janela do carro, com as pernas para fora, até cair. Daí, o rapaz acelerou e fugiu. Todos saíram do bar para ver a confusão.’’
Os insaciáveis ‘‘Há dois anos, um casal de rapazes não parava de se beijar. Vendo que muita gente estava incomodada, afinal o Beirute não é um bar gay, pedi para pegarem leve. Fui uma, duas, três vezes. Disse que seria obrigado a trazer a conta se não se comportassem. Pareciam homem e mulher. Como não paravam de se beijar, levei a conta. Não ficaram com raiva. Se levantaram, pagaram, saíram e foram se beijar em outro lugar.’’
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35 anos de vida
O bar e restaurante Beirute, na comercial da 109 Sul, foi inaugurado, com o nome de Abraão, em 16 de abril de 1966 pelos libaneses Youssef Kaawai e Youssef Maiakoovi. Funcionava na W-3. Depois migrou para o atual endereço. Em 1971, os irmãos Marinho, os garçons cearenses Bartolomeu, Aloísio e Francisco, compraram o lugar. Em 16 de maio de 1999, Bartolomeu morreu, vítima de câncer no pulmão. O bar é marcado pela irreverência e clientela típica de esquerda e adepta do tradicional kibeirute — quibe assado e recheado com queijo —, marca da casa. Além de gente que mexe com teatro e agitos culturais na cidade. Outra característica do Beira é o vaivém de camelôs por entre as mesas, que vendem de tudo e não são atropelados pelos garçons da casa. Coisas do Beira, onde, atualmente, são consumidos entre 800 e mil quibes nos dias de maior movimento.
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