Brasília, sábado, 30 de março de 2002
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Mistura não fina

Maria Ida Fontenelle, psicanalista, é membro do Percurso Psicanalítico de Brasília e da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.

Por Maria Ida Fontenelle
mifontenelle@uol.com.br

Fernando Lopes

 
  Qualquer mistura demanda trabalho. Ô coisinha difícil! Até misturinha de bolo. Há algumas, em que os ingredientes, se não bem colocados ou dosados, desanda. A mistura de papéis, demanda arte realmente. Principalmente as mulheres conhecem muito bem o funcionamento do que é misturar e separar papel de mãe, de mulher, de profissional, de amiga e quantos mais forem necessários. Das misturas mais perigosas que conheço, são as que juntam o público e o privado. E das mais patéticas que tenho presenciado foi protagonizada pelo pai insultado de uma não menos insultada governadora candidata a candidata à presidência!

  Me deu uma tristeza e uma pena enormes. Enquanto eu o ouvia discursar, com a fúria de pai protetor aviltado em sua honra, pensava sempre em como teria sido mais digno se ele tivesse ficado calado com sua tristeza, principalmente em vislumbrar que a continuidade do poder para seu clã estava ameaçada. E esta é mesmo uma característica do PAI. É ele quem dá continuidade à família, ao nome, ao sobrenome, em nossa cultura.

  O pai é aquele que, como terceiro elemento é o introdutor da lei para a criança. É ele quem, já na infância de um filho, impede que este mantenha uma relação dual com a mãe. Ele intervêm nessa relação como uma lei que impede o incesto. E, simbolicamente também, ele continua encarnando a imagem dessa lei, do poder supremo para um filho. Vocês devem lembrar-se de quando pequenos ou então de ter acompanhado seus filhos para entender que um pai é a autoridade máxima a que se pode recorrer. Lembram-se das mães que dizem: ‘‘quando seu pai chegar você vai ver! Vou contar pro seu pai!’’. Ou das crianças que brigam com o amiguinho e, sem recursos próprios para sustentar a briga dizem: ‘‘vou chamar meu pai, ou meu pai é forte e pode te bater!’’.

  Na misturada que a governadora do Maranhão fez e na qual seu pai entrou magistralmente, não se sabia o que era da política, o que era familiar, o que tinha a ver com os ódios e os amores. Nada ficou claro. De toda essa patética situação o que mais me chamou a atenção foi o fato do Senador Sarney invocar um poder outro, maior, estrangeiro, para vigiar nossas eleições. Eu ouvi isto assim: ‘‘tem que existir um poder maior do que o meu (dele, Sarney), este que está sendo invocado para dar conta dessa situação tão feia. Não posso, com os meus recursos dar conta disso, vou chamar um pai que seja mais capaz!’’

  Fazendo isto, dando o braço a torcer ou desconfiando da sua própria capacidade, colocou-nos a todos no mesmo barco. Quem autorizou esse senhor a falar em meu nome? Se ele não confia na capacidade dele nem na responsabilidade que tem como homem público para dar conta de ser agente, no nosso país, de uma eleição responsável, é problema dele. Eu, como brasileira, não estou pedindo um poder paterno maior. Tinha vontade, sim, que as leis que temos fossem vividas de maneira mais responsável, mas não é por falta de leis que alguns absurdos acontecem por aqui, é exatamente pela lei impunemente não ser cumprida. Ouvi a filha do Sarney dizendo: ‘‘é uma hipocrisia me criticarem pelo dinheiro achado ser de campanha, porque todos os políticos têm essa prática!’’. Ou seja, ela acha mesmo que lei não é para ser respeitada. Ela não respeita porque ninguém respeita! Por isto ela pode manter 1300.000.00 reais num escritório e isto não ser nenhum crime!

  Não sofremos exatamente de falta de lei. Elas estão aí. Sofremos sim, dessa maneira perversa de nos relacionarmos com ela. E aí, não adianta convocar lei internacional, de outro planeta ou das galáxias ou divinas. Não funcionariam também.

Até a próxima!


Maria Ida Fontenelle, psicanalista, é membro do Percurso Psicanalítico de Brasília e da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.
 
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