Brasília, sábado, 30 de março de 2002
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Música
Sopro de renovação

Revelação da música instrumental brasiliense, o jovem gaitista Gabriel Grossi toca com o mestre Hermeto Paschoal e prepara a mudança para o Rio de Janeiro, onde dará aulas no Conservatório Brasileiro de Música a partir do ano que vem

Carlos Marcelo
Da equipe do Correio

Ricardo Borba
Grossi e uma das 12 gaitas cromáticas: ‘‘Adoro Brasília, mas a cidade é pequena para se pensar em termos de carreira, não vejo muita perspectiva’’
 
Quando Gabriel Grossi ouviu Hermeto Paschoal pela primeira vez, tomou um susto. Achou ‘‘muito louco demais’’ aquelas músicas gravadas no disco Festa dos Deuses. ‘‘Foi assustador; só aos poucos fui percebendo a beleza da música dele’’, conta o gaitista de 23 anos. Depois da percepção, veio a paixão. Hoje, é Hermeto quem ocupa o topo das referências musicais de Gabriel, uma das maiores revelações da música instrumental brasiliense.

  Discípulo e mestre se encontram amanhã no encerramento de festival ao ar livre realizado em Búzios, litoral do Rio. A idéia do festival é juntar, no mesmo palco, nomes consagrados com músicos (ainda) desconhecidos. ‘‘O Gabriel é um garoto muito bom, com grande potencial’’, acredita o percussionista Fábio Paschoal, filho de Hermeto, produtor do grupo que acompanha o pai e responsável pelo convite ao gaitista brasiliense.

  A admiração de Gabriel pelo trabalho do instrumentista alagoano começou a ser retribuída depois de encontro informal, durante feijoada no Lago Norte. O gaitista tocou algumas músicas para Hermeto, que gostou do que ouviu e o chamou para uma canja em apresentação no Clube do Choro, no ano passado. ‘‘Ele (Hermeto) me incentivou a perder os limites que o instrumento impõe. Me ajudou a entender a gaita como se fosse ao mesmo tempo uma sanfona e uma bateria’’, detalha.

  Gabriel Grossi descobriu a vocação em 1995, quando tocava em gaita de bolso repertório calcado no blues e no rock. Mas se sentia limitado pelo instrumento — e pelos rótulos decorrentes de sua opção. ‘‘Quando se fala em gaitista, as pessoas imaginam um blueseiro que só toca duas notas’’, critica.

Improviso
Em 1997, passou da gaita de bolso para a gaita cromática. ‘‘Fiquei apaixonado pelo instrumento, tão completo quanto o piano’’, compara. A mudança abriu o leque de possibilidades para Gabriel, que pôde deitar e rolar no que mais gosta: o improviso.

  Ele acredita que, na improvisação, é possível seguir duas escolas: uma é o jazz; a outra, Hermeto Paschoal. ‘‘É uma escola única, brasileira.’’ E, quando Gabriel improvisa, como fez recentemente ao tocar com o grupo Curupira no restaurante La Cena (Lago Norte), ele fecha os olhos e é tomado pelo que chama de ‘‘sensação embriagante’’. ‘‘Dependendo do grau de concentração, quando abro os olhos, nem lembro onde estou’’, revela o gaitista.

  ‘‘Improviso é compor na hora. É como se estivesse dando um depoimento, só que em vez de palavras, utilizo as notas’’, conta o estudante de Jornalismo, que se forma no final do ano na Universidade Católica. Mas são poucas as probabilidades de você ler aqui no Correio — ou em outro jornal — reportagem assinada pelo jornalista Gabriel Grossi. Ele quer viver de música e o sonho não está mais tão distante.

  Gabriel foi convidado a dar aulas no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro, a partir do ano que vem. É o primeiro passo concreto para a mudança definitiva em direção à capital fluminense. ‘‘Adoro Brasília, mas a cidade é pequena para se pensar em termos de carreira, não vejo muita perspectiva’’, lamenta.

  Até para conservar os instrumentos em Brasília, Gabriel tem dificuldades. Suas 12 gaitas, avaliadas em R$ 500,00 cada, têm de ser afinadas em São Paulo. ‘‘Metade delas está desafinada’’, constata. Por isso, guarda para os shows uma da marca alemã Hohner, o xodó do músico.

  A mudança em definitivo para o Rio, se não deve agradar muito aos pais (Gabriel é filho único) nem à namorada, vai deixar pelo menos uma pessoa feliz: o vizinho de baixo do apartamento onde mora, no bloco C da 207 Sul. Afinal, os ensaios de Gabriel são realizados no próprio apartamento, às vezes palco improvisado de grandes encontros musicais. ‘‘Teve um dia que veio o Renato (Vasconcelos, pianista e tecladista) e o Hamilton (cavaquinista, do grupo Dois de Ouro). Aí, ele (o vizinho) ligou para reclamar. Nesse dia, eu falei: ‘Hoje você vai me perdoar, mas a gente não vai parar de tocar’’’, relembra.

 
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