Brasília, sábado, 30 de março de 2002
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Furacão Bossi

Ministro italiano mantém-se em evidência às custas de declarações polêmicas. O político é a favor do separatismo no país

Raul Moreira
Especial para o Correio

Roma — Como não bastassem os desmandos do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, um outro italiano, Umberto Bossi, também vem tirando o sono da Europa social-democrata. Ministro das Reformas Internas e líder da Liga Norte, partido xenófobo de ultra-direita que prega a divisão da Itália e a expulsão dos estrangeiros irregulares, Bossi, 61 anos, ao chamar a União Européia de stanilista e fascista, acabou por fragilizar ainda mais a imagem do país no cenário internacional.

  Na recente reunião de chefes de Estado e da União Européia em Barcelona, na Espanha, o ‘‘perigo Bossi’’ não foi tratado abertamente, até porque a pauta era outra. No entanto, nos corredores, como destacaram alguns jornais italianos, o mau-humor pelas declarações do líder da Liga Norte se fez sentir. Mais uma vez, Silvio Berlsusconi foi obrigado a servir de bombeiro. Em conversas reservadas, o premier defendeu junto aos colegas que a posição de Bossi não refletia o pensamento do governo italiano, apesar de se tratar de um ministro de Estado.

  Aliado incômodo de Berlsusconi, que precisou dos votos da Liga Norte para se eleger, Bossi, para manter-se em evidência, normalmente utiliza de expedientes polêmicos. Antes da Europa unida, o inimigo era o Estado centralizador italiano, definido por ele como Roma ladrona. Agora, como faz parte do staff governamental, direcionou os seus ataques aos ‘‘desmandos da ‘super-Europa liberal’’’. ‘‘Nós somos a favor de uma Europa onde os Estados nacionais possam manter as suas respectivas soberanias’’, fez saber no recente congresso da Liga Norte.

  Segundo Bossi, que há muito se bate para implantar um regime federalista na Itália, a sociedade civil deveria se unir contra ‘‘a globalização e as invasões tecnocratas impostas pelos stanilistas da União Européia’’. As palavras de Bossi, apesar de consideradas populistas, acabaram aumentando a preocupação de alguns líderes de centro-esquerda europeus em relação à Itália. Isso porque, além do líder da Liga Norte, os métodos do governo Berlsusconi fazem discutir, principalmente no que se refere à aprovação de algumas leis que claramente favoreceram aos interesses pessoais do magnata premier.

Xenofobia e separatismo
Se Bossi assusta a Europa com as suas declarações separatistas, internamente vem seminando terror entre os imigrantes. Xenófobo, prega a expulsão imediata dos estrangeiros irregulares, que seriam 450 mil, segundo projeções de associações humanitárias. Apoiado pela Aliança Nacional, o ex-partido fascista, luta para aprovar um projeto de lei que limite a presença de extracomunitários na Itália a um contrato de trabalho. A sua idéia é considerada absurda por muitos empreendedores italianos, que precisam da mão-de-obra estrangeira, principalmente na agricultura.

  Há menos de um mês, Bossi também roubou a cena ao afirmar que a marinha italiana deveria abrir fogo contra os navios que transportam clandestinos. ‘‘A Itália mudou e vai fechar a sua fronteira para criminosos e pessoas indesejáveis’’, disse o ministro, que depois foi mais além: ‘‘Fiquem nos seus países, porque aqui é casa nossa’’. Para completar, Bossi já deixou a entender que é contrário ao surgimento de uma sociedade multirracial.

  Bossi, no entanto, é de parecer que a Itália é multiétnica. Defende que os habitantes da região norte são celtas, e não latinos, como afirmam os livros de história. Os celtas são originários da Irlanda e, ao longo dos séculos, imigraram para uma série de regiões da Europa, entre elas França, Itália, Espanha e Portugal. Porte médio e pele clara, não deixaram registros escritos. No início da era cristã, os romanos invadiram e apropriaram-se de suas terras no norte da Itália.

  No congresso da Liga, em Milão, os políticos discursaram tendo ao fundo um gigantesco painel com a pintura de homem louro e musculoso segurando a bandeira da Padânia, como é conhecida a região norte da Itália. ‘‘Viva a polenta e abaixo o cuscuz’’, gritou o ‘‘Senatur’’, um dos muitos apelidos de Bossi no meio político. Os seus adversários, no entanto, o criticaram. ‘‘Certo que existem louros na Itália do norte, mas a população está mais para morena’’, disse um deputado do Partido da Refundação Comunista. Depois, o mesmo parlamentar apelou: ‘‘Parece que o homem dos sonhos de Bossi tem estereótipo homossexual’’.


‘‘A gente do Norte tem a coisa dura’’

  Apesar de repudiar os habitantes do sul da Itália, Umberto Bossi casou-se com uma mediterrânea. Pai de quatro filhos, é considerado um homem de linguagem rude e de pouca cultura para a liderança que ocupa. Para se manter em evidência, é capaz de descer aos mais baixos expedientes. Na metade dos anos noventa, lembrando o ex-presidente Fernando Collor — difícil esquecer o ‘‘aquilo roxo’’ — pronunciou uma frase que virou escândalo: ‘‘A gente do norte tem a coisa dura’’.

  Antes de se tornar um político profissional, trabalhou como técnico em um escritório odontológico e foi cantor de ópera, como o seu chefe Silvio Berlsusconi. Descobriu a vocação para a política quando estudava Medicina, curso que abandonou pela metade.

  Nos anos setenta, nascia o ideal separatista de Bossi. Liderou movimentos de independência em algumas províncias do norte da Itália, tornando-se assim conhecido. No início da década de oitenta, criou a Liga Lombarda e elegeu-se senador. Como lembra um dos seus ideólogos, o médico Umberto Mori, Bossi foi o primeiro político a perceber a insatisfação do norte em relação a Roma. ‘‘Incentivado pela Liga, como nunca, o termo Roma ladrona ganhou a boca do povo, principalmente na região lombardia’’, conta Mori.

  Segundo adversários, a dissimulação é uma das principais características de Bossi. Várias vezes, como aconteceu recentemente em relação ao seu ataque a União Européia (UE), não assumiu suas afirmações, se dizendo malinterpretado. Foi assim, também, quando atacou o Vaticano e o papa João Paulo II. ‘‘Pelo seu jeito fanfarrão, ele acabou minando a força da Liga na região norte’’, diz o analista político Andrea Zucollini.

  Apesar de fazer muito barulho e ocupar o cargo de ministro das Reformas Internas, politicamente a Liga Norte de Bossi está fragilizada. Para se ter uma idéia, em 1994 chegou a possuir 180 parlamentares. Em 1996, o número caiu para 83 representantes, entre deputados e senadores. Hoje, são apenas 50. Apesar disto, conseguiu três ministérios junto ao governo Berlsusconi.

  Mesmo contando com míseros 5% do eleitorado, a Liga Norte é importante para o equilíbrio estratégico do Governo italiano. Isso porque, caso perca o seu apoio, a maioria parlamentar da coalizão de centro-direita ficaria por um fio. Em 1994, ao retirar o seu apoio, a Liga Norte acabou contribuindo para a derrocada do primeiro governo Berlusconi. Escaldado e disposto a sobreviver nos próximos cinco anos, o premier magnata terá pela frente a dura missão de apagar os pequenos e grandes incêndios causados pelo seu incômodo aliado. O problema, como dizem os próprios amigos de Berlusconi, é que dia a água pode acabar. (R.M.)

 
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