Brasília, domingo, 31 de março de 2002
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Márcio Cotrim
 
  Márcio Cotrim

Capital ao alcance de todos

cotrim@correioweb.com.br

  Há confusões comuns. Uma delas - bem alimentada pela mídia - mistura regime político e regime econômico. Uma salada que embaralha socialismo, capitalismo, democracia e ditadura. Em geral, associa-se socialismo a ditadura e capitalismo a democracia.

  A verdade: o regime econômico do socialismo se opõe ao regime econômico do capitalismo, enquanto o regime político da ditadura é o antônimo do regime político da democracia.

  • A epidêmica desinformação, irmã da ignorância e mesmo de interesses escusos, produz manchetes do tipo ‘‘Com o fim do socialismo na Hungria, o país volta à democracia’’. Grande asneira. Ao abandonar o sistema socialista, a Hungria fez, isto sim, a opção pelo capitalismo, nada impedindo que a transição tenha ocorrido sob ditadura ou democracia.

      Há regimes socialistas plenamente democráticos, como os adotados pelos países escandinavos, assim como existem nações que, sob o regime capitalista, implantam infames ditaduras como a Argentina nos negros anos de Videla et caterva.

  • Também muito se fala em esquerda e direita, conceitos nascidos no turbilhão da Revolução Francesa e que ainda hoje definem, geometricamente, a atitude do cidadão na sociedade.

      Esse largo espectro se subdivide em cinco segmentos. Cada um incorpora seus respectivos adeptos com opiniões e tendências perfeitamente identificáveis, senão vejamos.

      A esquerda, em sua totalidade, agrega os inconformados com o status quo. Nela, os defensores do trabalho em face ao capital. Propõem mudanças sociais e proclamam, liricamente, que o coração está à esquerda.

      A extrema esquerda é radical, revolucionária e tem pressa. Como Lênin, declara que ‘‘não se faz omelete sem quebrar ovos’’. Já a esquerda moderada, cautelosa, defende os mesmos valores mas não gosta de fazer jorrar sangue.

      No centro, um ponto neutro. Aí estão os que não são contra nem a favor, muito pelo contrário. Gente sem opinião clara, temerosa de assumir posições. ‘‘Não me comprometa!’’, eis o seu lema favorito.

      Na direita, conservadores e reacionários. Em seu segmento moderado, os que admitem transigir em demandas trabalhistas, até os que renunciam aos anéis para ficar com os dedos. Na extrema direita, os empedernidos, os insensíveis. Não cedem um milímetro, defendem com unhas e dentes, até de armas na mão, o terreno conquistado - muitas vezes, sabe Deus como.

      Dito isso, sem veleidades professorais, apenas para buscar situar corretamente recentes iniciativas brasileiras, falemos da democratização do capital. Dois casos: a venda de ações da Petrobrás (com acento, como manda elementar regra ortográfica) e da Vale do Rio Doce a compradores usando recursos do FGTS. Estrondoso êxito e, cá entre nós, valiosa lição para o governo.

      Eis um ótimo caminho para, dentro do sistema capitalista, transformar milhares de brasileiros em acionistas de empresas vitais para o país, lucrar com elas e, sobretudo, criar uma mentalidade de co-participação. Em inglês, the feeling of belonging.

      Em vez de entregar o patrimônio nacional a estrangeiros que não possuem vestígio de compromisso com o Brasil, melhor deixar o dinheiro aqui e, ainda por cima, incorporar ao mercado números tupiniquins nada desprezíveis. Vamos a eles.

  • Em 2000, 310 mil investidores compraram ações da Petrobrás (com acento, lógico!). Aplicaram 1,25 bilhão que, doze meses depois, quase dobraram de valor.

      Agora, a Vale do Rio Doce seguiu o mesmo caminho e acrescentou 800 mil acionistas à sua carteira! Desta vez, o investimento dos interessados se elevou a mais de 5 bilhões de reais.

      O espetacular resultado já motiva duas novas promoções: a oferta, nas mesmas condições, de ações de Furnas e do Banco do Brasil, ainda no corrente ano.

      Estrada aberta e desimpedida, idéia lançada e consagrada, experiência vitoriosa, o frágil capitalismo brasileiro ganha músculos. Inevitável imaginar coisa parecida com a reforma agrária, que, em termos definitivos e de alcance nacional, vai devagar, quase parando.

      Uma reforma agrária para valer, que chegue aos mais distantes grotões do país e faça surgir milhares, milhões de novos proprietários rurais, embrião de novos empresários, capitalistas, que ocupem nossos incríveis 100 milhões de hectares de terras cujos donos, latifúndios improdutivos, são parasitas que travam o progresso do país.

      Sem sangue, como convém, com amor pelo Brasil, olhos postos no fantástico futuro que nos pode esperar.

  • ‘‘Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor’.’
    (Madre Teresa de Calcutá).

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