Brasília, domingo, 31 de março de 2002
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Dr. Márcio Lisbôa
dr.lisboa@bol.com.br



Quais seriam as medidas mais importantes para prevenir a formação de indivíduos violentos?


O temperamento violento pode ser herdado ou adquirido. Antigamente, a herança era considerada o fator mais importante. Hoje, são mais valorizados os fatores ambientais. Os suscetíveis são, em sua maioria, crianças com menos de 6 anos. Os psicólogos e os pediatras aceitam que até essa idade elas já tenham estruturado sua personalidade, por já terem passado por vivências suficientes para isso. Assim, as medidas para prevenir comportamentos infratores terão que ser tomadas desde a concepção até o sexto ano de vida. Essas medidas, tomadas antes que se instale qualquer processo mórbido, são chamadas de prevenção primária. São geralmente de caráter educativo, visando a promoção e a prevenção de fatores que possam prejudicar a saúde mental.

A atenção, o carinho, a promoção da auto-estima e da autoconfiança, o estabelecimento de limites sem a utilização de castigos físicos, o exemplo dos pais, o diálogo amistoso e franco são alguns dos comportamentos que vão agir positivamente na formação de uma personalidade sadia. Por outro lado, a falta de atenção, as brigas, a falta de carinho, a incompreensão, os castigos físicos, as mentiras, as chantagens, as promessas não-cumpridas, as agressões, a destruição da auto-imagem e a violência doméstica implantam, na criança pequena, a semente da violência.

Crescendo, bastará que ela seja adubada com desamor, discriminações, desigualdades e drogas para que dê seus frutos — indivíduos delinqüentes ou violentos. Para prevenir a ‘‘fabricação’’ de violentos, tem-se que atuar antes dos 6 anos, ou melhor ainda, antes dos 3. O segredo está aí — cuidar da boa formação da personalidade. Exemplificaremos com algumas ações que julgamos fundamentais, relacionadas à área médica:
1) nenhuma criança deverá nascer se os pais não a quiserem. A criança que não é querida, geralmente, não é amada, e se não é amada não conseguirá amar, o que, a meu ver, é um grande fator de risco. O planejamento familiar — a paternidade responsável — é uma das ações mais importantes na prevenção da violência.
2) No pré-natal devem ser discutidos aspectos relacionados à aceitação do filho e a promoção da amamentação;
3) O recém-nascido, logo após o nascimento, será colocado junto à sua mãe, técnica denominada alojamento conjunto. A visita diária dos pais aos seus filhos internados em unidades de risco será permitida e mesmo estimulada.
4) A amamentação deve ser promovida, pois, permitindo um maior contato entre mãe e filho, contribuirá para a formação do apego;
5) A internação de crianças em hospitais deve ser acompanhada de algum familiar, de preferência a mãe.
6) Nenhuma criança poderá ficar sem mãe, biológica ou substituta. Portanto, o processo de adoção deverá ser agilizado, pois cada dia sem mãe constitui um risco para o futuro emocional da criança. Esse ponto de extrema importância é, infelizmente, pouco conhecido por aqueles que trabalham com a adoção, que demorando em tomar uma decisão, pensando em prevenir uma série de riscos, estão contribuindo para o pior deles — os desvios de comportamento.
7) Promover todas as ações que contribuam para prevenir a privação materna: mãe acompanhante nos hospitais, adoção, colocação familiar, lar substituto.
8) Combater a violência doméstica, retirando as crianças de lares onde elas são maltratadas, negligenciadas, exploradas, humilhadas, e colocá-las em lares ou famílias substitutas.
9) Nas consultas de supervisão do desenvolvimento, os pais devem ser orientados sobre a importância da atenção, da aceitação, da segurança, do lazer, da disciplina, do estabelecimento de limites, na promoção da saúde mental.

Essas são algumas medidas a serem tomadas, quase todas de responsabilidade pediátrica, muitas outras para que uma criança estruture bem sua personalidade. Os infratores que cometem delitos graves só poderão ser recuperados em unidades de cuidados intensivos que denominamos ‘‘UTI social’’, que exigirá gastos bem superiores àqueles que são despendidos nas UTI’s. Necessitam-se de psiquiatras, psicólogos, pedagogos, praxiterapeutas, médicos, artistas, e de muito tempo para se recuperar delinqüentes juvenis.

Nem mesmo nos países desenvolvidos existem recursos disponíveis para isso. A ênfase na importância da prevenção da violência, atuando-se sobre a criança não pode, e não deve, ser entendida como se os adultos bem formados não pudessem se tornar violentos, frente a fatores desencadeantes de forte conteúdo emocional. Nem significa que o combate à violência deva ser descurado.

O Brasil usou R$ 122 bilhões, ou 10% do PIB, em gastos e perdas decorrentes da violência em 2001, um terço a mais do que em 2000 — não incluídos os investimentos que deixaram de ser feitos devido ao clima de violência como, por exemplo, na área do turismo.

E o pior, a violência continua crescendo. Sem dúvida, seria muito mais coerente, barato e eficaz na prevenção da violência se fosse cumprido o que preceitua o artigo 227 da Constituição Federal que diz ‘‘É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-la a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão’’. Em resumo, a violência está aumentando porque as leis que protegem as crianças não vêm sendo cumpridas aqui e no mundo todo.


 
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