Brasília, domingo, 31 de março de 2002
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Notas


AUDIÊNCIA
O mistério do Ibope

Nos bastidores, especialistas até tentam criar fórmulas. Mas a verdade é que ninguém pode se basear em dados objetivos para prever o sucesso ou o fracasso de uma atração. A combinação de ingredientes que parecem ser garantia de sucesso fulminante muitas vezes pode resultar em desastre

Rodrigo Teixeira
TV Press

Luiza Dantas/Carta Z
Andréa Beltrão e Bete Coelho em As Filhas da Mãe, que terminou antes do previsto, apesar do elenco estelar
 
Uma novela cheia de beldades e atores consagrados, um diretor renomado e um autor de sucesso é sinônimo de Ibope. Certo? Errado. Foi o que mostrou As Filhas da Mãe, que deu lugar a Desejos de Mulher por um inexplicável fracasso de audiência. Uma minissérie cheia de nudez e uma trama original, como O Quinto dos Infernos, aparentemente tem tudo para dar Ibope. Mas chegou a vexaminosos 19 pontos, longe dos mais de 37 de estréia. O popularesco Casa dos Artistas, do SBT, também surpreende por bater o Fantástico, da Globo, após 29 anos de supremacia nas noites de domingo. Carlos Massa, o Ratinho, é outro que quebrou a previsão de um dos maiores conhecedores da tevê brasileira. Quando ele se destacou em 1998, na Record, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, garantiu que o apresentador não iria durar seis meses. Pois já se vão mais de três anos e Ratinho mantém a média de 14 pontos dia após dia. ‘‘O Ibope é um mistério. Nem eu esperava chegar tão longe’’, confessa o apresentador do SBT.

  Segundo Flávio Ferrari, diretor executivo do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope, não existe fórmula mágica para se obter sucesso na tevê. Mas para ele, a audiência de qualquer programa é construída com pelo menos três elementos: quantidade de pessoas que a produção alcança, a fidelidade do público e a permanência com que cada espectador assiste ao programa. ‘‘Para um produto se dar bem na tevê, ele precisa dar certo nestes três quesitos. É quase uma regra’’, afirma Flávio. Para o diretor do Ibope, um fato que se repete sempre é que as continuações de programas, como No Limite, da Globo, e Casa dos Artistas, do SBT, tendem a perder audiência. Isso acontece não só no Brasil, mas no mundo inteiro, e faz parte do ciclo de vida de cada produção. ‘‘Na primeira vez que um produto é apresentado, ele é novo. Na segunda, já perde a característica de novidade e, portanto, não é o mesmo produto’’.

  Colocar a atração sempre dentro de determinado horário também é fundamental para se conseguir Ibope. Para o autor Carlos Lombardi, é este o motivo de O Quinto dos Infernos ter decolado e depois refreado a audiência. Para ele, a minissérie tinha muitos atrativos para o espectador, mas, como o horário de exibição mudou dia após dia, não criou-se o hábito no espectador. ‘‘Televisão é um encontro marcado. Se o espectador não encontra a produção no horário esperado, ele vai embora’’, argumenta o autor.

  O apresentador Raul Gil, que disputa com o global Luciano Huck a audiência das tardes de sábado na Record, é contundente. Para ele, nem toda parcela do público quer ver novidades. Maior audiência da Record, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, o apresentador continua apostando em calouros e brincadeiras, algo que vem fazendo desde os anos 60. ‘‘O público gosta de saber o que vai ver na tela. Por isso, tenho audiência’’.

qualidade e audiência

A idéia de que uma programação de maior qualidade poderia mexer com os números da audiência no Brasil também é questionada por Gabriel Priolli. Diretor do Vitrine, da TV Cultura, e biógrafo de Walter Clark, Gabriel afirma que as classes A e B não procuram, necessariamente, produções de qualidade. ‘‘Na tevê por assinatura, o canal mais visto é a Globo. Ou seja, não é só porque um programa tem qualidade que vai ter audiência’’, pondera. Por isso, na opinião do diretor, inovar é arriscado quando se quer alcançar Ibope.

  Um exemplo de inovação que dá certo está em O Clone. Glória Perez escolheu uma personagem frágil, vivida por Débora Falabella, para desenvolver a questão das drogas. Silvio de Abreu tentou o mesmo tema em Torre de Babel com o personagem de Marcelo Anthony, mas foi rejeitado. Segundo Mauro Alencar, doutorando em teledramaturgia pela USP e consultor da Globo, o espectador não se ligou a um drogado de família rica em Torre, mas em O Clone a também endinheirada Mel é uma das mais queridas do público. ‘‘É a prova de que a maneira de contar uma história é determinante na audiência’’, pondera.


Toque de mestre

Luiza Dantas/Carta Z
Com O Clone, Monjardim supera o sucesso de Terra Nostra, outro de seus trabalhos
 
Jayme Monjardim recebe do assessor um papel de fax. O sorridente rapaz ressalta para o diretor de O Clone: ‘‘É o que você esperava’’. Com o olhar ávido sobre o informe da audiência, sentado modestamente na praça da alimentação do Projac, Jayme demonstra entusiasmo. ‘‘Conseguimos! Bate-mos pela primeira vez os 60 pontos’’, comemora. O Clone é, desde Terra Nostra, a novela de maior audiência sobre os televisores ligados: 62%.

  Em relação à trama de Benedito Ruy Barbo-sa, também dirigida por Monjar-dim, já igualou a média de 44 pontos. Na verdade, a história de Jade e Lucas caiu nas mãos do diretor por acaso. Por isso, o triunfo tem gosto especial para Jayme. ‘‘O Luiz Fernando Carvalho não quis fazer, a Denise Saraceni foi para Estrela-Guia e acabei assumindo. Estava escrito’’, simplifica.

  Mas Jayme teve motivos concretos para aceitar dirigir O Clone. Sentiu-se atraído pelo clima mágico da novela. ‘‘Minha preferência é sempre fazer algo que tenha algum mistério e uma novidade. O cotidiano só pelo cotidiano não faz a minha cabeça, porque as pessoas já vivem uma vida tão cheia de dificuldades...’’

  Aos 46 anos, Jayme é hoje o diretor de núcleo de maior prestígio na Globo. Terra Nostra está equiparando Escrava Isaura em vendagens no exterior. E O Clone pela primeira vez levou a Tele-mundo à liderança nos Estados Unidos, batendo a poderosa Univision. Para Monjardim, o trunfo de O Clone é o ineditismo dos temas. ‘‘Falar do mundo muçulmano é inédito, além de curioso e ao mesmo tempo mágico. Já lidar com a clonagem humana é abrir uma discussão fantástica em cima de um tema não discutido publicamente, mas apenas no meio científico. E tentar dar um caminho para a recuperação de drogados é de uma utilidade incrível.’’

 
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