Brasília, domingo, 31 de março de 2002
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Semana Santa
Vocação para Cristo

Ao longo dos mais de 50 anos da encenação da Paixão de Jesus, atores da cidade-teatro de Nova Jerusalém, em Pernambuco, disputam com unhas e dentes o papel principal

Naiobe Quelem
Da equipe do Correio

Nova Jerusalém (PE) — A simplicidade e os ensinamentos de Jesus parecem não ter sido assimilados por grande parte dos atores que interpretaram Cristo em Nova Jerusalém (PE). Na cidade-teatro — construída, especialmente para a encenação da Paixão de Cristo, no município de Brejo da Madre de Deus, agreste de Pernambuco —, a disputa para interpretar Jesus se transformou em fato curioso. O que deveria ser um exercício de humildade por várias vezes desafiou vaidades e foi capaz de envolver personagens em desavenças ou submetê-los a sacrifícios. O primeiro a interpretar Jesus foi Luiz Mendonça, filho de Epaminondas Mendonça e Sebastiana Mendonça — precursores da Paixão de Cristo em Brejo da Madre de Deus. Único da família ligado ao teatro, Luiz ficou responsável pela redação do texto e interpretação do principal papel do espetáculo, que seria realizado nas ruas da cidade. Mais precisamente em Fazenda Nova, distrito de Brejo da Madre de Deus, a 180km de Recife.Luiz interpretou Jesus no Drama do Calvário, como era chamada a Paixão de Cristo, durante 12 anos. No final de 1962, a coordenação geral do espetáculo decidiu interromper as apresentações até a construção de um espaço que tivesse infra-estrutura capaz de receber a encenação. O novo espaço, que para alguns não passava de um sonho, viria a ser transformar na atual Nova Jerusalém. A cidade-teatro só teve condições de receber o primeiro espetáculo da Paixão de Cristo em 1968. Na época, a direção do espetáculo de Clênio Wanderley que, desde o início dos ensaios, queria que outro ator fizesse o papel de Jesus. Pretensão fracassada. Diva Pacheco, filha caçula de Epaminondas, exigiu que o primeiro Cristo de Nova Jerusalém fosse o seu irmão, Luiz Mendonça. Ela alegava que isso poderia ser considerado como uma espécie de justo tributo ao seu pioneirismo no espetáculo. Uma vez que seu marido, Plínio Pacheco, foi o idealizador da réplica de Jerusalém.

CINQÜENTA E UM ANOS DE PAIXÃO
A idéia de realizar o Drama do Calvário (como era conhecida a Paixão de Cristo), em 1951, pouco teve a ver com a religiosidade. Apesar de católico, Epaminondas Mendonça também era comerciante e dono de um hotel e viu na realização do espetáculo uma forma de atrair turistas para região. As primeiras cenas do Drama foram apresentadas nas ruas e nas calçadas de uma vila da cidade, chamada Fazenda Nova. Na época, a encenação era um espetáculo da família Mendonça, amigos e moradores de Fazenda Nova. Com o tempo, o espetáculo cresceu em profissionalismo e público.

  Surgiu, então, a necessidade de um espaço maior. A idéia de construir uma réplica da cidade de Jerusalém partiu de Plínio Pacheco, genro de Epaminondas e que a assumiu a coordenação do espetáculo em 1961. O plano só se concretizou em 1968, quando foi realizada a primeira Paixão de Cristo em Nova Jerusalém — cidade-teatro de 70 mil metros quadrados de área, cercada por uma muralha de pedra com 70 torres de sete metros. Nesses 34 anos de apresentações ininterruptas, mais de dois milhões de espectadores do Brasil e do mundo assistiram ao espetáculo.


A repórter viajou a convite do governo de Pernambuco

Jesus guloso
Diário de Pernambuco

 

  Carlos Reis assumiu o papel em 1969 a convite do novo diretor do espetáculo, José Pimentel. Apesar de ter posado de Jesus para a revista Cruzeiro, em 1965 (enquanto Luiz fugia da perseguição política), o ator garante ter ficado surpreso com o convite. Principalmente, porque estava gordo. Pesava mais de 100 quilos. Para interpretar o papel teve que perder mais de 25 quilos e também usar peruca, pois já não havia tempo para deixar seu cabelo crescer.Ao final de nove anos interpretando Jesus, Carlos abandonou o papel. ‘‘Não aguentava mais viver em constante dieta. Além disso, precisava me dedicar a minha profissão de agrônomo e já estava me sentindo velho demais para fazer o papel de Cristo’’, recorda.

Jesus global
Ricardo Borba 05.04.98
 

 Movida pela necessidade de atrair um público maior, a Sociedade Teatral de Nova Jerusalém inseriu artistas globais no espetáculo. Carlos Reis assumiu a direção e convidou o ator Fábio Assunção para interpretar Jesus nas temporadas de 1997 e 1998.Herson Capri foi Jesus em 1999. Graças ao papel, ele descobriu um câncer no pulmão em tempo de retirá-lo. O ator teve o diagnóstico ao fazer os exames preparatórios para uma lipoaspiração — com a qual esperava melhorar a composição do personagem. A cirurgia foi realizada em fevereiro. A recuperação, surpreendente, permitiu que o ator interpretasse Jesus Cristo um mês depois da cirurgia.

Jesus comunista
Alcione Ferreira/Diário de Pernambuco

 

  Luiz Mendonça retornou do Rio de Janeiro — onde estava escondido desde o golpe militar de 1964, devido à sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Este seria o último ano que Luiz interpretaria Jesus. ‘‘Ele teve seu desempenho bastante perturbado por algumas exigências totalmente descabidas do diretor. Ele poderia ter feito o papel sem usar peruca. Mas Clênio exigiu os cabelos longos e foi feita uma peruca, de última hora, que deu grande artificialismo ao rosto do ator’’, conta o atual diretor da Paixão de Cristo, Carlos Reis.

Jesus pernambucano
Dorival Elze/Diário de Pernambuco 26.11.98

 

  A possibilidade de Herson Capri não se recuperar da cirurgia chamou a atenção da direção do espetáculo para um ator da cidade, Marcelo Valente, 28 anos, que já participava da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém. Marcelo, que começou a interpretar Cristo em 2000, deixa o papel no final desta temporada. ‘‘Quando assumi o papel disse que interpretaria Jesus por três anos. Esse foi o tempo que Cristo pregou’’, afirma. Marcelo diz que vai deixar o papel para que outro ator tenha a oportunidade de aprender tanto quanto ele. ‘‘A figura de Cristo transcende a do personagem. Ninguém fica imune ao interpretar esse papel e aprende muito. Acho injusto ficar por muito tempo nesse papel’’, explica.

Jesus vaidoso
Ricardo Borba 05.04.98

 

  Com a saída de Carlos Reis, José Pimentel, que ainda dirigia o espetáculo, assumiu o papel de Jesus. Durante 19 anos, ele exerceu as duas funções: a de diretor e de ator principal. Para permanecer no papel, desentendeu-se com Carlos Reis e parte da produção do espetáculo, que queria indicar um outro ator para interpretar Cristo. José Pimentel também enfrentou as duras críticas da imprensa, que criticava sua atuação e o considerava ‘‘baixinho’’ e velho demais para fazer o papel.Mesmo tendo deixado o cabelo crescer, estilo Nazareno, Pimentel garante ter assumido o papel por pura falta de opção. ‘‘Não nutria a vontade de ser Jesus. Resolvi assumir o papel porque não via ninguém mais qualificado para fazê-lo’’, afirma. Pimentel permaneceu a frente do espetáculo — na direção e como ator principal — até o final de 1996. ‘‘Saí porque queriam substituir os atores principais por atores famosos. Estava defendendo um mercado de trabalho local’’, diz. Ao sair de cena em Nova Jerusalém, Pimentel, hoje aos 67 anos, montou o seu próprio espetáculo da Paixão de Cristo, realizada, desde 1997, em Recife e que deu origem a um dos principais roteiros da Semana Santa no país — Pernambuco das Paixões.
 
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