Brasília, segunda-feira, 01 de abril de 2002
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A lua por testemunha

Há oito anos, caminhada em homenagem ao satélite acontece no Parque da Cidade. o evento reúne mais de mil participantes

Rodrigo Hilário
Da equipe do Correio

Jefferson Rudy 11-2-01
No começo, a caminhada não chegava a reunir nem 30 pessoas. agora, atrai gente de todo o Distrito Federal
 
Tomar banho de lua não é somente o trecho de uma famosa canção dos anos 60, na qual Cely Campelo ficava branca como a neve. O sentido figurado para receber a luminosidade do luar é também, por assim dizer, filosofia de vida. Ao menos para um grupo de brasilienses, que há oito anos se reúne na chamada Caminhada da Lua. Na primeira lua cheia de cada mês, mais de mil pessoas participam do evento, que percorre as principais trilhas do Parque da Cidade. A atração até já entrou para o calendário extra-oficial de Brasília.

Na última quarta-feira, outra vez a lua estava rechonchuda. E para não mudar o costume, houve caminhada. Só que a andança foi mais que especial: a centésima, desde a primeira, em março de 1994. Mas de onde será que vem o fascínio deles por essa rocha cinzenta de 4,6 bilhões de anos?

Para Maria Eutenir Custódio Braga, coordenadora das caminhadas, vem da mística que envolve o satélite natural da Terra. Ela explica tudo com um breve histórico dos encontros. A iniciativa partiu de um grupo de amigos, que saíam da 416 Norte e percorriam todo o Eixão, até a Rodoviária. De lá, rumavam para a Torre de TV, de onde seguiam para o Parque da Cidade. E depois, faziam todo o percurso inverso, voltando para o final da Asa Norte. Tudo a pé.

Eutenir foi convidada a participar. Mas era longe demais e ela só aceitou percorrer a última parte do trajeto. Como naquela época, coisa de nove anos atrás, a iluminação do então Parque Rogério Pithon Farias era precária, a turma escolhia noites de lua cheia para andar até cansar. Assim, tinham a luz do luar ao seu favor.

Na verdade, esse foi o motivo que inicialmente levou o grupo a caminhar sob a lua cheia. O misticismo em torno dela veio depois. ‘‘Fomos percebendo que os plenilúnios (noites com lua cheia) eram mais bonitos, românticos e iluminados. Era o astral perfeito para as cami-nhadas’’, conta Eutenir.

Com o tempo, o encontro ficou restrito ao Parque da Cidade. No começo, a caminhada não reunia mais de 30 pessoas. Depois, foi juntando mais gente. Atualmente, uma média de mil pessoas vão à caminhada. Uma delas, a dona-de-casa Maria da Penha Aranha Lago, 58 anos, moradora do Cruzeiro, que tem uma história inusitada para contar.

Ela havia aprontado roupa especial para o encontro de 7 de agosto de 1998. Já fazia algum tempo que Penha participava das andanças. Mas aquela noite não seria igual às outras. Primeiro, porque ela iria ao parque vestida de cigana e, depois da caminhada, leria a sorte dos colegas nas cartas do baralho. Segundo, porque não era apenas o misticismo lunar que a esperava.

  

COM A BÊNÇÃO DO SATELITE
No meio da caminhada, Penha notou que alguém a observava de um jeito diferente. Era Nei Baltoré, dois anos mais velho e recém-chegado ao grupo. Os olhares não eram somente de espanto ou curiosidade para a mulher vestida de cigana. Eram de galanteio. E não houve leitura de sorte coisa nenhuma.

  Ali mesmo, marcaram encontro para o dia seguinte. Logo começaram o namoro. E já faz três anos e meio que vivem juntos. ‘‘Não sei explicar direito como tudo aconteceu. Eu já estava separada há quase 20 anos; ele, há oito meses. Não tínhamos expectativa de namorar outra pessoa. Acho que foi obra da lua, a madrinha dos aman-tes’’, brinca Penha.

Nesses oito anos, a caminhada só não se realizou em uma ocasião. Foi quando um temporal, com raios e trovões, despencou sobre a cidade. ‘‘Mas se for uma chuvinha besta, a gente não se intimida. O pessoal leva capa, guarda-chuva e o que mais for preciso. Só não deixa de ir’’, diz Eutenir.

Entre os que enfrentam chuva, mas não deixam de ir à caminhada está o funcionário público Alfredo Julião de Mendonça, 50. Uma vez por mês, ele e a mulher, Anita, 48, vão de carro do Guará, onde moram, até o parque, para encontrar os amigos. ‘‘Fomos a primeira vez há três anos. Um colega que costumava ir com a esposa nos convidou. Fizemos a experiência e acabamos ‘viciados’. Hoje, não há nada que faça a gente desistir. A caminhada faz bem para o corpo e para a mente.’’

Outro fã da lua cheia é o sociólogo Lúcio Batista de Souza, 34. Adepto do esoterismo, o morador da Asa Norte acredita nos poderes da lua contra os maus fluidos. Há cinco anos ele participa da caminhada, que já lhe rendeu muita energia positiva e uma meia-dúzia de amigos. ‘‘Às vezes, nos empolgamos e ficamos até tarde conversando no parque. Se a caminhada for no fim de semana, a gente já pára em algum barzinho do parque para tomar umas cervejas’’, conta.

Para os andarilhos, a característica mais importante das caminhadas da lua é o espírito de solidariedade. ‘‘Somos uma grande comunidade, em que todo mundo se ajuda. É uma oportunidade de conhecer novas pessoas, trocar experiências. No fim, a gente se sente mais leve’’, afirma o comerciante Francisco Viana, 49, morador da Asa Sul e assíduo nas andanças. ‘‘As caminhadas são uma celebração da natureza. Um grande congraçamento de pessoas que buscam vibrações positivas. Somos uma grande família’’, completa Eutenir.

Meia-hora antes do início da caminhada, os participantes puderam preparar o corpo com sessões de tai chi chuan e aulas de correção postural. O percurso de 4,5 quilômetros, que dura de 40 minutos a uma hora, foi animado por apresentações de berimbau e patinação. No fim, houve recreação com atividades esportivas, sessões de lion-gong, recital de poesia, apresentações de capoeira e maculelê, e shows de frevo, coco, ciranda e forró.

Pendurada no céu, a lua gorda de quarta à noite derramou sua claridade sobre os caminhantes. E daí se a Ciência diz que essa pedra sideral não tem luz própria, que se limita a refletir o brilho do sol? Deixa isso para os livros de astronomia. Para os adeptos da caminhada, a lua tem luz e energia suficientes para fazê-los sair de casa e andar até quando lhes der na telha. Simplesmente porque gostam.

 
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