Brasília, segunda-feira, 01 de abril de 2002
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X-Tudo/Garagem
Pop para todos

Chegam ao Brasil os primeiros discos da gravadora independente inglesa Poptones, do escocês Alan McGee, nome essencial na história do rock alternativo

Da Redação

Fotos: Divulgação
The Montgolfier Brothers, especialistas em longas e lentas faixas instrumentais
 
Cosmic Rough Riders, bicho-grilos queridinhos
 
January faz rock melancólico na linha do my bloddy valentine
 
Alan MCgee, descobridor do Oasis e dono da gravadora Poptones
 
No dia 18 de setembro de 2000, as atenções da imprensa musical da Inglaterra estavam voltadas para o lançamento do álbum novo de um sujeito que atende pela alcunha de El Vez. Imitador de Elvis Presley, descendente de mexicanos, gay assumido, ex-membro de uma banda punk dos anos 80, o norte-americano Robert Lopez manteve nos anos 90 uma carreira quase invisível, marcada por pequenas — e, dizem, hilariantes — apresentações em pequenas casas noturnas dos Estados Unidos. Apesar de lançar uma média de dois discos por ano, Lopez permanece um ilustre desconhecido até mesmo no país onde grava seus discos. O que explicaria, então, tal falatório em torno de um zé-ninguém?

Simples. É que o astro, no caso, não era Robert Lopez. Era, isso sim, Alan McGee, dono da gravadora que despejava nas lojas Pure Aztec Gold, o álbum de El Vez. Aquele era um dos primeiros produtos da Poptones, devidamente empacotado em embalagem bem bolada e carimbada com o aval de McGee. Até aquele ano, Alan era conhecido como o chefão da Creation Records, a gravadora independente mais importante da Inglaterra. Desde 1984, por lá passaram bandas como Jesus & Mary Chain, My Bloody Valentine, Teenage Fanclub, Super Furry Animals e, finalmente, Oasis. Insatisfeito com os rumos do negócio rentável, McGee largou tudo e partiu novamente para o ataque. Por isso mesmo, muita gente esperava pelo menos o aparecimento no Poptones de um novo Primal Scream, outra banda do antigo selo.

Em um manifesto escrito logo que o selo novo foi lançado, em setembro de 2000, McGee deu as cartas. ‘‘A principal diferença entre o Poptones e o meu antigo selo é que agora a idéia é mais ampla. Queremos bandas diferentes, de vários estilos’’, explicou. O objetivo principal, então, era atirar para todos os lados. Nos seis discos da gravadora que chegam ao Brasil pela Trama (incluindo o trabalho de El Vez), a opção pela diversidade fica patente.

Além do Elvis mexicano, desembarcam aqui em CD os neo-hippies do Cosmic Rough Riders (uma das bandas de maior sucesso do selo até agora), um duo que adora longas faixas instrumentais e lentas (The Montgolfier Brothers), uma banda eletrônica animadinha e pop (Technique), revival do garage rock dos anos 60 (Outrageous Cherry) e rock melancólico, esparso, dolorido (January). Por enquanto, não há sombra de um novo Oasis. Mas essa não era a intenção principal de McGee. ‘‘A idéia dele era apenas lançar coisas novas que ele gostava de ouvir. Não havia muitas pretensões além dessa’’, diz Kid Vinil, gerente internacional da Trama, que negociou a distribuição dos discos no Brasil diretamente com McGee, logo que a Poptones foi criada.

A banda dos irmãos Gallagher foi um dos maiores motivos para o fim da Creation Records. Não por causa das canções do grupo, que McGee adora, mas sim pela dimensão que o Oasis ganhou na Inglaterra e no resto do mundo. O grupo cresceu tanto que McGee ficou preocupado com os rumos comerciais de uma gravadora que foi criada justamente para se debater contra a corrente da programação das emissoras pop de rádio. Situação que ficou clara a partir de 1992, quando 49% da companhia foi vendida para a Sony.

‘‘Eu só senti que aquela era minha gravadora de 1984 a 1994. Depois que o Oasis vendeu 2,5 milhões de discos, a Creation foi invadida pelos robôs da Sony’’, contou Alan à revista Eye em março de 2001. A união com a Sony foi acertada um ano depois do melhor momento da Creation. Em 1991, foram lançados pelo selo três álbuns essenciais dos anos 90: Screamadelica, do Primal Scream, Loveless, do My Bloody Valentine, e Bandwagonesque, do Teenage Fanclub.

  A trilha sonora do enterro da Creation foi XTRMNTR, do Primal Scream, último álbum lançado pelo selo. Hoje, McGee tira parte de seu tempo para se preocupar com uma nova promessa do rock: o grupo punk sueco The Hives, que foi colocado pela imprensa britânica na panelinha seleta dos salvadores do rock, ao lado de Strokes e White Stripes. Na cola do hype formado em torno do grupo, a Trama pretende lançar a coletânea Your Favorite New Band até maio.

Se a banda cumprir todas as promessas, pode ser aquilo que faltava para McGee responder aos comentários ácidos de jornalistas ingleses especializados em música sobre o selo. Quando receberam exemplares do CD do Elvis mexicano e de bandas tão obscuras quanto, muitos não conseguiram conter a decepção. Mas é justamente esse gosto por projetos diferentes e inusitados que, defende-se McGee, é o diferencial da Poptones. O nome do selo, aliás, vem de uma música do Public Image Ltd (PiL), banda que John Lydon (ex-Johnny Rotten, do Sex Pistols) formou nos anos 70. O recado é: espere surpresas debochadas de McGee.


Os primeiros filhotes

 

COSMIC ROUGH RIDERS

Enjoy the Melodic Sunshine (2000)
A banda queridinha da Poptones, uma das poucas a conseguir arrancar elogios da crítica musical inglesa e freqüentar paradas de sucesso, foi formada na Escócia e soa como uma versão bicho-grilo do Teenage Fanclub, com ecos de George Harrison, R.E.M., Creedence Clearwater Revival e Beach Boys. Acaba de perder o vocalista, Daniel Wylie, e os vocais ficam agora apenas com o guitarrista Stephen Tyler. O disco que sai no Brasil é uma compilação de músicas tiradas dos dois primeiros álbuns da banda: Deliverance (1999) e Panorama (2000). Faixas como The Gun Isn’t Loaded, The Charm, Melanie e o quase-hit Revolution (in the Summertime?) valem o preço do CD.

OUTRAGEOUS CHERRY

Out There in the Dark (2000)
Presença norte-americana no selo britânico, a banda de Detroit foi formada em 1993. Já que a moda agora é reviver o espírito do rock de garagem dos anos 60 e do punk dos anos 70 (vide Strokes, White Stripes e The Hives), que tal mais um membro para o clube? Tivesse nascido nos anos 60, o Outrageous Cherry seria apenas mais uma banda que decidiu adicionar barulho à psicodelia dos Beatles e Byrds. Mas canções redondas como Georgie Don’t You Know e Togetherness podem ser apreciadas em qualquer época.

JANUARY

I Heard Myself in You (2001)
Para atestar que a seleção da Poptones é um verdadeiro tiroteio de estilos, o January é um dos trunfos melancólicos do selo. As baladas começam lentas, abarrotadas de violões, e terminam barulhentas. Parece que McGee quer que acreditemos que eles são os novos My Bloody Valentine, com traços de Nick Drake e Mojave 3. O disco não chega a confirmar a promessa, mas pelo menos dá amostras do poder de fogo do grupo em faixas como All Time e Falling in.

THE MONTGOLFIER BROTHERS

Seventeen Stars (2000)
Um dos primeiros álbuns lançados pelo selo, Seventeen Stars parece mais um manifesto de que a Poptones tem espaço para projetos nada comerciais. Mistura de easy listening com faixas instrumentais dissonantes à Mogwai, o disco agrada mais quando a dupla formada por Mark Tranmer (do Gnac, que também lança discos pela Poptones) e Roger Quigley fazem canções com letras e refrões. Even If My Mind Can’t Tell You é o ponto alto.

EL VEZ

Pure Aztec Gold (2000)
O álbum mais inusitado da primeira fase do Poptones. A fórmula de Robert Lopez beira o absurdo. Ele faz versões de músicas conhecidas, soma a elas letras revoltadas à Rage Against the Machine e combina tudo com pose de comediante de quinta categoria. Um exemplo da bagunça é a cover de It’s Now or Never, que tem inserções de trechos da trilha de O Poderoso Chefão e de Losing My Religion, do R.E.M. Não é para ser levado a sério. A curiosidade é que, nos Estados Unidos, Lopez gravava discos pela mesma gravadora de Detroit que lançou o White Stripes.

TECHNIQUE

Pop Philosophy (2001)
A referência principal está no próprio nome da banda, tirado do título de um disco do New Order. Nas sete faixas do mini-álbum (que vem com dois remixes), o projeto liderado pela flautista Kate Holmes copia passo a passo a estética da influente banda de Bernard Sumner — e, por causa dos vocais femininos, lembra Garbage. Nada muito original, mas o caldo oitentista fica saboroso quando o pop eletrônico (bem radiofônico) encontra a barulheira de guitarras. Pule direto para a faixa sete, Quiet Storm.

MINHA DISCOTECA

OS FAVORITOS DE ALAN McGEE
Perguntado no início de 2001 pelo site Amazon.com sobre os discos que mais gostava de ouvir, o dono da Poptones fez lista com álbuns tão diferentes quanto as bandas de sua gravadora.

  • Electric The Cult (1987)
  • Closer Joy Division (1980)
  • The Piper at the Gates of Dawn Pink Floyd (1967
  • The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars David Bowie (1972)
  • The Chronic Dr. Dre (1992)
  • The Marshall Mathers LP Eminem (2000)
  • Real Life Magazine (1978)
  • Superfly Curtis Mayfield (1972)
  • Ramones Ramones (1976)
  • XTRMNTR Primal Scream (2000)

  • Tudo em família

     

    Legislando em causa própria, Alan McGee tem em seu cast a dupla Technique, liderada por sua mulher, Kate Holmes. ‘‘É ao mesmo tempo bom e ruim ter ele como chefe. É legal porque ele me dá força, mas muitas pessoas fazem comentários maldosos sobre meu talento’’, disse Kate, em entrevista por telefone ao X-Tudo/Garagem. Technique é formado ainda pela vocalista Xan. As duas estão juntas desde 1999 e lançaram o primeiro álbum, Pop Philosophy, no último verão europeu. O CD, que chega ao Brasil no pacote da Trama, traz cinco canções e dois remixes e foi produzido por Stephen Hague, que trabalhou com New Order e também com os Pet Shop Boys. O New Order, aliás, é influência declarada, a começar pelo nome da banda.

    Technique é título do quinto álbum da banda de Manchester, mas não é o favorito da Sra. McGee: Kate prefere Lowlife, que contém hits como The Perfect Kiss e SubCulture. O nome da banda foi escolhido por Kate, que considera Technique uma palavra mais feminina. ‘‘O New Order é uma banda genial. Eles foram capazes de criar um som único e discos atemporais’’, avalia Kate. Pop Philosophy deixa claro o objetivo das moças: encontrar um lugar ao sol no já inchado mundo da música pop.

    Se a idéia era rezar na bíblia do New Order, as garotas passaram longe. Elas estão muito mais para uma mistura de Pet Shop Boys com Spice Girls e pitadas de Garbage. A única exceção é a música Quiet Storm, que traz guitarras pesadas e vocais abafados. ‘‘É nossa homenagem ao Jesus and Mary Chain’’, confessa Kate.   

    O Technique já fazia parte da catálogo da Creation, mas com o conturbado fim da gravadora, acabou ficando na geladeira. Foi somente no ano passado que as duas retomaram o trabalho, que resultou no lançamento do primeiro álbum. A repercussão foi boa na Europa, principalmente na Inglaterra e na Alemanha. A dupla abriu a última turnê européia do Depeche Mode e se apresentou também no Japão.

     
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