Brasília, terça-feira, 02 de abril de 2002
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Fabricio Rocha
etudo@correioweb.com.br

Receita do traficante

Fato curioso, e nem um pouco agradável, aconteceu esses dias. Depois de uns quatro anos de uso, encontro-me obrigado a abandonar em breve o meu e-mail pessoal, do Yahoo!. Imagino que alguns vários usuários do Yahoo! Mail estão na mesma situação. O site anunciou que vai passar a cobrar pelo acesso do e-mail por POP3, que permite o uso de programas para e-mail como o Eudora, o Outlook Express e o Netscape Mail, que eu uso. Poder receber e-mails por um programa desses é muito melhor e mais rápido do que lê-los online, mas se for preciso pagar para isso, acho melhor procurar outro servidor gratuito.

Vá lá que o Yahoo! é dono do serviço e pode fazer o que bem entender com ele. E vá lá que a crise da Internet desde o ano passado acabou com o dinheiro fácil que qualquer site conseguia. Mas o internauta fiel, que há anos abre o navegador e a primeira coisa que vê é o Yahoo!, pode se sentir traído. E os serviços do Yahoo!, em geral, têm passado por uma constante queda de qualidade. Os Yahoo! Groups, formados depois que o site comprou o velho eGroups, pioraram muito. Você clica no link para ver uma mensagem e antes dela aparece um anúncio, com um link para você continuar e ver enfim a tal mensagem. Algumas mensagens recusam-se a aparecer porque o ‘‘grupo excedeu o limite diário de downloads’’ — isso não existia na época do eGroups. Você abre uma página hospedada pelo Yahoo! Geocities, e pipoca uma janela de anúncio. E a cobrança pelos serviços de e-mail POP3 e mail forwarding, que passa os e-mails recebidos para outro endereço automaticamente, torna-se preocupante se pensarmos nele mais criticamente.

Segundo informações, o Hotmail, líder dos webmails, também vai passar a cobrar pelos mesmos serviços. Acontece que a mesma crise da Internet, que pode ter obrigado os sites a caçarem níqueis descaradamente, também foi responsável pela criação de mono e oligopólios da Internet. Os provedores, que antes eram pequenos e aos milhares, hoje quase não existem mais diante de Terra, UOL e AOL. Sites de busca, até existem vários, mas poucos são realmente usados por muitos. E nesse mundo onde só os fortes sobrevivem, há milhões e milhões de internautas que têm no Yahoo! e no Hotmail sua mais ativa forma de comunicação.

Ambos cresceram e se desenvolveram oferecendo seus serviços gratuitamente. Agora, passam a cobrar por uma parte deles; e como muitas pessoas não querem ou não podem mudar de endereço eletrônico, e existem muito poucas opções, serão obrigadas a pagar. É a receita do traficante: dar droga de graça até criar um viciado, e então obrigá-lo a comprar. É o que fazem determinadas empresas de software, que deixam a pirataria correr solta e de repente fecham o cerco para cobrar pelos programas. Não é nada impossível que daqui a algum tempo o Yahoo! e o Hotmail comecem a cobrar mesmo pelo serviço de webmail, ou simplesmente pelo acesso ao site. Enquanto os usuários de computadores e de Internet não aprenderem que é preciso estar sempre atento e receptivo a outros programas e serviços que não os líderes, estaremos todos ao belprazer da ganância dos homens.


 
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