Brasília, terça-feira, 02 de abril de 2002
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Brincadeira de criança

a garotada que mora nas cidades do Df se diverte com bolinhas de gude e tampinhas de cerveja

Da Redação

Fotos: Adauto Cruz
Josiane Oliveira: a menina de 3 anos, moradora de Santa Maria, diverte-se construindo castelos de areia no terreno de uma igreja
 
Mal a chuva dá uma trégua no céu de Santa Maria, as crianças saem de casa e vão direto para a rua. A terra vermelha molhada vira lama espessa e escura que não incomoda os meninos descalços. Aliás, curtição mesmo é pular as poças e os buracos inundados. Brincar em quartos e salas fechadas não tem a menor graça para os que têm pouca ou nenhuma intimidade com computadores, videogames e parafernálias eletrônicas. Os meninos e meninas que moram nas cidades do Distrito Federal e Entorno, e que não tem bonecas ou carrinhos, inventam de tudo para se divertir. As brincadeiras favoritas? Bolinha de gude, elástico e bete. Por apenas dez centavos Magno da Silva garante uma tarde inteira de alegria. Com toda essa grana, o garoto de 12 anos compra três bolinhas de gude e convida os amigos para o desafio: acertar as bilocas em um dos três buracos rasos feito na calçada disforme. Quem der um peteleco na bola do outro, ganha a partida e leva todas as bolinhas para casa. ‘‘O mais emocionante é ganhar mais e mais bilocas. Alguns garotos nem querem jogar comigo porque só perdem’’, gaba-se Magno, eleito pelos colegas como o melhor jogador de Santa Maria. O troféu do vencedor é encher uma garrafa pequena de plástico com as bolas dos adversários. O campeão das ruas de Santa Maria, guarda com orgulho mais de cem. Melhor ainda do que ganhar, para algumas daquelas crianças o que vale é reunir os amigos e passar o dia longe de quatro paredes. ‘‘Dentro de casa não tem nada para fazer, aqui é legal porque todo mundo fica junto’’, garante Mizael Mesquita, 13 anos, que não dá a mínima para as novidades de videogame 


Castelos de areia

O monte de areia ao lado da pequena casa de alveraria, sem reboco e pintura tem destino certo: será usado na construção de uma igreja em Santa Maria. Nas horas vagas, porém, a terra é invadida pelas crianças que moram na casa vizinha de três cômodos. Josiele de Oliveira, 8 anos, passa toda a tarde construindo castelos de areia molhada. Na empreitada, ela ganha a companhia dos irmãos mais novos. Josué, 5 anos, e Josiane, 3, disputam o melhor lugar para a brincadeira.Eles não conhecem os parquinhos incrementados de Brasília, tampouco sabem qual o prazer de ganhar um brinquedo novo. No armário, Josué só guarda um caminhão achado na rua. O carrinho sem rodas é cuidado com carinho. Afinal, é com ele que o menino de pouca conversa carrega a areia que faz os bolinhos. ‘‘Meu sonho é ter uma mesa com cadeira’’. As irmãs também não têm grandes sonhos. Os únicos brinquedos das meninas são uma Barbie barata e um ursinho de pelúcia sujo como a terra vermelha. Que importa? Com tampinhas de amaciante elas se divertem. Dentro dos pequenos artefatos, misturam a água empoçada das ruas com um pouco da areia da igreja. ‘‘Mas minha brincadeira preferida é de boneca, mas só tenho uma. Minha mãe não dá mais porque não tem condições’’, lamenta Josiele. Não é só ela que sonha com bonecas. As irmãs Camila, 9 anos, e Rafaela Morais, 11, também não exibem brinquedos sofisticados na estante. ‘‘Nem ligo de não ter bonecas. A única coisa que queria de verdade era ganhar uma bicicleta’’, garante Rafaela.  Enquanto a bicicleta não chega, ela e a irmã suam pulando elástico na rua com as amigas.

Cabo de vassoura e plástico
Wagson Flávio é o campeão de bete do Recanto das Emas
 

  No Recanto das Emas, para desespero dos motoristas, a diversão é mais radical. Com apenas dois pedaços de pau, duas garrafas plásticas de refrigerante e uma bolinha de tênis os meninos disputam torneios de bete. Wagson Flávio Camargo, 11 anos, é flamenguista de coração e adora jogar futebol, mas, no momento, seu ‘‘esporte’’ favorito é justamente a tal da bete. A brincadeira é disputada em duplas. Faz mais pontos quem arremessar para bem longe a bolinhas dos adversários. ‘‘Eu até tenho um Nintendo e um carrinho de Fórmula 1, mas é muito mais legal brincar na rua. Às vezes, a gente briga porque o outro acha que betou (acertou a bola com o taco)’’, explica Wagson, que aprendeu a tacada certeira com o tio e a mãe. Quando a turma do Recanto fecha a rua para brincar, um monte de crianças se amontoa para entrar no lugar do perdedor e observar todos os detalhes do jogo. Nessa hora, todo mundo vira torcida e juiz. ‘‘Se eu não tivesse aprendido a jogar bete, ficaria sem amigos. Além disso, se fico em casa, tenho que lavar a louça’’, conta o estudante Antônio Neto, 11 anos, que, sem muitas opções, já montou fazendas com pedaços de capim e canos quebrados, no quintal de casa.

Divirta-se você também

 São muitas as brincadeiras que não exigem nada mais do que uma boa dose de criatividade e bom humor. Conheça algumas delas:

Amarelinha
Desenham-se quadrados numerados no chão. A regra é jogar uma pedra em cada uma das casas e pular de um pé só, até chegar a última. Na volta, apanha-se a pedrinha. Os jogadores têm de cumprir todas as etapas sem pisar no desenho.

Pião
Os dois ou mais jogadores participantes devem desenhar um círculo no chão e fazer com que o pião rode sem ultrapassar os limites da linha. Outra modalidade é fazer o pião ‘‘dormir’’ na palma da mão, ou seja, girar num mesmo ponto sem cair.

Quatro cantos
Essa brincadeira tem que ser feia numa sala vazia e com cinco pessoas. Um jogadores é escolhido para ficar no meio como o ‘‘bobo’’. Os outros quatro participantes ocupam cada um dos cantos da sala e trocam de lugar entre si, sem deixar que o ‘‘bobo’’ ocupe o lugar delas. Quem perder vai para o meio.

Dança da cadeira
Coloca-se uma cadeira a menos do que o número de participantes. Enquanto alguém controla o som ou canta uma música, os jogadores dançam em volta das cadeiras. Quando a música parar, todos devem se sentar. Quem ficar em pé perde e leva uma cadeira. Assim vai o jogo até sobrar uma cadeira e dois jogadores.

Gato Mia
Essa brincadeira deve ser realizada em um lugar escuro da casa, onde não se pode enxergar nada.

O pegador é escolhido e deverá ir atrás dos outros na escuridão. Quando encostar em alguém, o participante deverá miar. O pegador deverá, então, descobrir de quem é a voz e caso erre, a partida recomeça.


Giz e livros velhos
Josué de Oliveira cuida com muito carinho do seu único caminhão
 

  Em uma das ruas esburacadas de Samambaia, a pequena igreja construída com pedaços de madeira e cercada com restos de telhas virou escola de ‘‘mentirinha’’ para as amigas Rayrane de França e Jerlane Portela. Quer dizer, quase de mentira. Com 11 anos, as duas estudantes têm planos ambiciosos para a antiga igreja. Querem fazer daquele espaço — que parece que pode desabar a qualquer momento — um lugar para dar aulas para os amigos. ‘‘Algumas crianças menores do que a gente ainda não estudam. Então, queremos ensinar elas (sic) a ler e escrever’’, sonha Rayrane, estudante da quinta série. A turma ainda não está matriculada, mas as professoras da escola de brincadeirinha aproveitam o final de semana para dar aula, aplicar provas e passar exercícios. ‘‘A gente brinca o dia todo e não se cansa, então a gente não pode ficar cansada de brincar de estudar’’, avisa, com sabedoria a estudante de 8 anos, Edina Pereira,  A lousa dessa escola é um pedaço de madeira velha. O giz é doado pela professora ‘‘de verdade’’. Lápis de cor, folhas brancas e livros usados são todos arrecadados na escola pública em que as crianças estudam. ‘‘Se a diretora não der, a gente briga com ela’’, ameaça Rayrane.
 
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