Brasília, quarta-feira, 03 de abril de 2002
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Por Dad Squarisi
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RECADO

‘‘Nivelamos o ensino por baixo, com um português simplificado, de vocabulário cada vez mais pobre e gramática cada vez mais torta.’’
Diogo Mainardi


O todo e as partes


  Agradar a gregos e troianos, eis a filosofia do verbo. Sempre que pode, o malandro joga nos dois times. Há casos complicados, em que os sujeitos exigem que o verbo concorde com eles. Ele, subserviente, cede. ‘‘Para que brigar?’’, pensa o comodista. Afinal, a língua é um sistema de possibilidades.

  Na concordância, então, é um festival de vale-tudo. Ou quase tudo. Há uma regra básica, que não pode ser esquecida. O verbo concorda com o sujeito em pessoa e número. Sujeito no singular, verbo no singular. Sujeito no plural, o verbo vai atrás: O turista morreu no confronto. Os turistas morreram no confronto.

  Quando você estiver diante de um dilema de concordância, essa regra o ajudará a pensar. Grave-a.

  Vamos ao vale-tudo, situações em que o verbo acende uma vela para Deus e uma para o diabo. Depende da pressão do mais forte.

  É o caso do partitivo. Expressões que indicam quantidade (grande número de, pequena quantidade de, a maioria de, a maior de, uma porção de, metade de) seguidas de substantivo plural deixam o verbo à vontade. Ele pode concordar com o núcleo do sujeito (número, quantidade, porção, parte, metade) ou com o complemento. Quer ver?

  • A maioria dos participantes (dançou ou dançaram) em torno da fogueira. (Dançou concorda com maioria, núcleo sujeito. Dançaram, com participantes, complemento.)   
  • Uma porção de panfletos (apareceu ou apareceram) na gaveta do secretário.   
  • A maior parte dos sem-terra (concentrou-se ou concentraram-se) à entrada da fazenda.  
  • Só uma pequena quantidade de policiais (saiu ou saíram) antes das quatro horas.

      É isso. Diante do partitivo, você escolhe. Fica com o núcleo do sujeito ou com o complemento. Acertará sempre.


    O que aqui se faz aqui se paga. A escolha não é inocente. Se você optar pelo singular, dará ênfase ao conjunto, à unidade. Se preferir o plural, estará de olho nas partes.

      Compare:

      Metade das laranjas apodreceu. (O verbo no singular dá o recado. O autor mirou o conjunto.)
      Metade das laranjas apodreceram. (O verbo no plural não disfarça. O falante deu ênfase às laranjinhas, uma por uma.)


    É pra já


      O Gatão de Meia-Idade pertence à família da Radical Chic. Ambos têm uma virtude. Detestam enrolação. A síntese é com eles mesmos. Outro dia, o Gatão recebeu uma carta. Eis o recado:

      ‘‘Prezado Senhor,
      Venho por meio desta lhe dizer que não o amarei mais até que a morte nos separe.’’

      Ele leu o texto. Releu-o. Pensou: ‘‘Mulher que escreve ‘por meio desta’ dá trabalho. As três palavras não têm função. Não servem pra nada’’. Então, decidiu. Esperar a morte? Qual o quê! Separação já!

    GATÃO DE MEIA-IDADE/Angeli


    Adeus, vida


    A Holanda está sempre na vanguarda. Lá, o consumo de droga é liberado. O casamento homossexual é aceito. A prostituição é atração turística. Agora vem outra. O país legalizou a eutanásia.

    A palavra vem de Tânato. A divindade grega personifica a morte. O deus não tem pai. A mãe, a Noite, o concebeu sozinha. Dizem que ele tinha coração de ferro e entranhas de bronze. Ninguém o comovia.

    Tânato tem família grandona. Todos os membros têm relação com a indesejada das gentes. É o caso de tanatologia (tratado sobre a morte), tanatomania (obsessão pela morte), tanatofobia (medão da morte).

    E por aí vai.


    Que bom!


    Eutanásia tem duas partes. Uma: Tânato. A outra: eu. As duas letrinhas querem dizer bom. O prefixo aparece em montões de palavras. Eufonia é uma delas. Significa som bom, agradável. Eugenia, outro. Tem a acepção de melhoramento genético. Evangélio, mais uma. Aí, o eu se disfarçou e ev. Mas mantém o significado. É boa nova.


    Que ruim!


    O contrário de eutanásia? É distanásia. Valha-nos, Deus! Aí, é morte com dor, sofriiiiiiiiiida. O Senhor nos proteja!


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