‘‘Temos a oportunidade de saber o que acontece quando um ciborgue é desplugado’’
Alejandro Jahad
Médico ligado à Universidade de Toronto (Canadá)
Estão vivos no mundo, neste exato momento, dois ciborgues. Meio homens, meio máquinas, cada um a seu modo e com objetivos distintos. Ambos, a cara do planeta nesses tempos de alta tecnologia, comunicação ultra-rápida, muita boa intenção e intolerância de sobra. Essas primeiras tentativas de misturar gente com silício podem ser levadas a sério ou ser encaradas como ciência de quinta, depende do leitor. Aos casos.
Kevin Warwick é inglês, professor-titular de cibernética da Universidade de Reading e já passou por outros centros respeitados como Oxford e Newcastle. Sua pesquisa mistura áreas como robótica, inteligência artificial e neurologia. Desde o último dia 14, um chip de computador foi implantado por baixo de sua pele no braço, próximo ao pulso, e conectado ao sistema nervoso. A operação demorou duas horas. Nunca tinha sido feita antes.
O chip é mínimo, um quarto do tamanho de uma moeda de dez centavos. Na superfície estão várias micro-anteninhas, encaixadas nas fibras nervosas com o objetivo de coletar os impulsos elétricos que saltam de um neurônio a outro. Posteriormente, uma pequena antena será ligada ao chip por fora do corpo, de modo a enviar e receber sinais de um computador.
Que sinais? Não se sabe ao certo, mas o experimento não pára aí. Warwick, 48, é casado com Irena, 53. Tão logo esteja certo de que a operação não resultou nenhum dano a ele, também Irena vai se submeter ao implante. Assim, os sinais recebidos pelo chip de um poderão ser transmitidos ao outro.
Sabe-se que movimentos como o abrir e fechar de mãos poderão ser ‘‘compreendidos’’ pelo computador, embora ainda existam dúvidas de que esse mesmo computador possa enviar o mesmo sinal disparando o chip e provocando a mesma reação sem a interferência do cérebro. Sabe-se, também, que sensações intensas como raiva poderão ser percebidas. Será possível disparar artificialmente o mesmo comando e provocar raiva artificialmente?
Quanto mais sutil a sensação — é o caso, por exemplo, do amor —, mais difícil saber o quanto o computador poderá isolar as informações. Tão delicados são os sinais elétricos que comandam o corpo humano que o maior cuidado tecnológico é evitar ruído nos dados. Há um motivo para o professor Warwick ter escolhido sua mulher para juntar-se ao experimento como cobaia: na melhor das hipóteses, ninguém mais íntima para saber o que ele está sentindo.
Concretamente, há aplicações disso no futuro para quem tem tenha problemas no sistema nervoso central, caso de tetraplégicos.
Olho biônico
Já o caso do também professor Steve Mann, do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Toronto, é completamente diverso. Há 20 anos, ele vem trabalhando em um computador de vestir, uma máquina com a qual divide sua vida. Hoje, fina flor da tecnologia, resume-se a um par de óculos escuros grandes, um modelão meio fora de moda que se liga por um fio a uma espécie de mouse-joystick preso no cinto.
Mann filma tudo a sua volta há 20 anos, de seu ponto de vista. Desde os tempos de estudante no MIT, metade deste período mais ou menos, transmite o resultado para um computador ligado à Internet. Sua relação com a roupa, no entanto, não é a de um cameraman sofisticado. Ele enxerga como um sujeito normal num dos olhos. Transmitida na lente de seus óculos, o que vê com o outro olho é a tela de um computador — ou o que está sendo filmado com aquela qualidade de uma câmera pequena.
O joystick serve para ele mexer com esse olho biônico, focalizar, dar zoom, etc, assim como para navegar na Internet. Ele está online e seu monitor é seu olho. Ou quase. Não é apenas a experiência de ser meio máquina que ele pretende discutir, mas também uma pauta ética, a da privacidade num mundo de câmeras ligadas.
Há dois anos, completou um documentário chamado Shootingback, trocadilho entre ‘‘atirando de volta’’ e ‘‘filmando de volta’’. A idéia é quase filosófica, uma pensata ao redor da definição de privacidade: a capacidade ou estado de estar distante de companhia ou observação.
Cada vez mais os espaços públicos estão permeados por câmeras de vigília, fazendo uma curiosa troca de privacidade por segurança. No documentário, quando Mann entra numa loja de departamentos, ele é proibido pelo gerente de filmar — embora a loja o filme sem pedir permissão.
Em fevereiro, como de praxe, alertou à companhia aérea na qual planejava viajar que vivia com esse equipamento ligado a toda hora — menos durante o sono. Sensível, o maquinário não pode passar pelo aparelho de raios-x. Sempre lhe abriram uma exceção, até porque apresenta documentos de responsabilidade assinados por centros de pesquisa importantes e médicos.
Só que o aumento de segurança após 11 de setembro o pegou pela culatra. Foi maltratado pela guarda, US$ 50 mil em equipamento terminou danificado. E passou mal.
Steve Mann é um ciborgue. Estava acostumado com a câmera ligada a seu olho, o equilíbrio dependente disso. Agora, está passando por testes para saber se houve algum dano permanente por conta da abrupta retirada das máquinas. ‘‘Temos a oportunidade de saber o que acontece quando um ciborgue é desplugado’’, contou ao New York Times o médico Alejandro Jahad, ligado à Universidade de Toronto. ‘‘É um caso fascinante’’.
Fascínio à parte, Mann quer propor agora uma nova luta. Ciborgues vão começar a aparecer com mais freqüência. Será que não têm direitos particulares? Ou é só excentricidade?
|