Brasília, quarta-feira, 03 de abril de 2002
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Comunidades católicas

Jovens abrem mão do convívio familiar e renunciam a prazeres para se dedicarem à missão de fortalecer a fé dos fiéis

Da Redação

Edson Gês
Ana Paula Santana (E) e alguns integrantes da Comunidade Católica Shalom de Brasília
 
Todo dia ela acorda cedo e passa a manhã em silêncio. Apenas reza e estuda a bíblia. O almoço é a hora de confraternizar com os companheiros. À tarde, estudos religiosos e trabalhos de evangelização. Depois, mais orações. A noite é dedicada ao acompanhamento vocacional. Antes de dormir, ela reza as orações completas. Essa é a rotina da cearense Ana Paula Santana, 34 anos, e de seus companheiros da Comunidade Católica Shalom em Brasília.

  Com 20 anos de existência, o grupo — criado em Fortaleza — tem mais de três mil pessoas espalhadas em missões por todo o Brasil. Mas as atividades no Distrito Federal estão apenas começando. A equipe é formada por nove integrantes: sete mulheres — que dividem um apartamento na 404 Norte — e dois homens — que se acomodam na Igreja São José Operário, a paróquia que convidou o grupo. Ana Paula é a responsável pela Shalom no DF e diz que a equipe concentra seu trabalho na evangelização de jovens e está com um grupo de orações para surdos.

  A história de Ana Paula resume bem o estilo de vida das pessoas que deixam tudo para viver em uma comunidade religiosa. Ela nasceu em Fortaleza e entrou para o grupo aos 25 anos, depois que a vocação foi despertada durante um seminário no Espírito Santo. Em missões, primeiro foi para Natal (RN), onde morou por um ano; depois, para Quixadá, no interior cearense. Sobre deixar a família, diz apenas que cortou o vínculo financeiro e fala com a mãe, o pai e os seis irmãos toda semana. ‘‘Sinto saudades, mas decidi seguir a Deus’’, afirma.

  Ana Paula, que hoje está ‘‘fazendo discernimento para ver se faz celibato’’ (voto de castidade que não permite o casamento), diz que teve namorados como qualquer outra pessoa da sua idade. ‘‘Nunca fui uma pessoa triste, mas hoje estou totalmente realizada e nunca estive tão feliz’’, garante.

  As comunidades católicas estão em atividade no Brasil desde a década de 70. A Canção Nova, fundada em 1976, foi a primeira. Com sede em Cachoeira Paulista (SP), o grupo conta hoje com cerca de 300 integrantes espalhados em 15 missões no Brasil e no exterior. Fundada pelo Padre Jonas, eles começaram suas atividades no município paulista de Queluz, no Vale do Paraíba, onde plantavam para comer e só evangelizavam quem estava por perto. Mas a obra foi crescendo e as mensagens de paz e oração passaram a ser transmitidas por redes de rádio e televisão.

  Em Brasília, a Canção Nova chegou em janeiro de 2000. Atualmente, conta com 16 pessoas: dois casais moram em casas separadas; o restante, em uma casa na Asa Sul. Eles acordam e tomam café juntos, intervalo que aproveitam para orar e também estudar a Bíblia. Depois disso, passam o dia cuidando das responsabilidades que têm na emissora de tevê. À noite, se encontram novamente para oração e para os trabalhos nas paróquias Santa Cruz e Bom Jesus, ambas na Asa Sul. ‘‘Funciona como um emprego normal. Temos carteira assinada e tudo mais. No entanto, tudo que ganhamos é repartido entre todos. Ninguém fica com o próprio salário’’, afirma Sílvia Helena, mineira de Juiz de Fora que está na comunidade há dez anos e já esteve em missão no Rio de Janeiro.

  Brasília também tem sua comunidade católica. É a Vida Nova, fundada em 1995 pelo carismático Padre Giovani Carlos, 33 anos, que foi jogador de basquete e tocou em bandas de rock antes de ingressar no seminário. ‘‘Nos poucos tempos livres que me restam, arrisco umas arremessadas’’, brinca. O grupo Vida Nova é formado basicamente por jovens e faz a evangelização por meio de visitas às famílias e dá atendimento em grupos de orações. Os 22 integrantes (cinco homens e 17 mulheres) moram em uma chácara no Recanto das Emas, mas passam boa parte do dia na casa de missão, que funciona em Taguatinga Norte.

  O fundador diz que a rotina do grupo divide-se em trabalhos de formação humana e teológica. Há também as orações da manhã, os projetos de evangelização à tarde e missa e curso bíblico à noite. ‘‘Completamos o trabalho com um programa ao vivo no domingo à noite pela rádio católica Nova Aliança’’, conta padre Giovani.

  Elaine Silva Sanches, 26 anos, é uma das ‘‘formadoras’’ do Vida Nova — instrui os novos participantes e dá cursos vocacionais. Em 1996, a garota magra e bonita — com estilo de modelo — abandonou um namoro de seis meses e deixou a casa em Taguatinga Norte para integrar-se à comunidade. ‘‘Fiz parte da primeira equipe. Minha família não gostou muito no início, mas hoje está acostumada’’, diz Elaine, que não deixou de lado a vaidade — sempre que pode, usa batom e uma leve maquiagem. ‘‘Na Vida Nova, ainda estamos em um processo de formação de identidade’’, explica. Ela diz que, fora do grupo, sente falta apenas da independência financeira da época em que era professora da Fundação Educacional.

  Paula Cristina Tadeu, 26 anos, é a melhor amiga de Elaine. As duas não se conheciam, mas tinham em comum a idade, a profissão (professora) e o fato de morarem em Taguatinga. A afinidade foi inevitável. Hoje, as duas são formadoras na Vida Nova e estudam Teologia. ‘‘Fomos mandadas pela comunidade para dar continuidade aos trabalhos. O difícil é conciliar a vida comunitária e os estudos na faculdade’’, afirma Paula, que sempre foi católica praticante e, desde os 14 anos, é catequista. Ela não nega que muitos desistiram, mesmo depois de um tempo no grupo. ‘‘Eles querem ver como é. Felizmente, hoje as pessoas estão mais conscientes’’, acredita Paula, que está no grupo desde 1998.

  Entrar para as comunidades não é uma tarefa das mais simples. As pessoas devem estar dispostas a passar por um rigoroso discernimento vocacional. Cada comunidade avalia se a pessoa é preparada segundo o seu estilo, mas ninguém se integra definitivamente ao grupo com menos de seis meses de acompanhamento. ‘‘Temos que saber se essas pessoas realmente estão preparadas e dispostas a integrar o grupo’’, esclarece o padre Giovani. Quando o assunto é estado de vida, as comunidades, na maioria das vezes, são dividas em três: os celibatários (que optam pelo não-casamento), os solteiros (que podem se casar) e os sacerdotes (padres e freiras).

  Para custear todas as atividades, as comunidades dependem do que chamam de ‘‘providência divina’’. ‘‘Vivemos da boa vontade das pessoas, de doações, etc. E sempre conseguimos honrar nossos compromissos; Deus sempre manda’’, revela Ana Paula, da Shalom. 

COMO COMEÇOU

  A maioria das comunidades católicas brasileiras é ligada à Renovação Carismática — movimento nascido em Pittsburg (EUA) em 1967, e que, a grosso modo, baseia suas atividades nos ‘‘dons do Espírito Santo, sem deixar de lado os dogmas católicos’’. A decisão de revitalizar a evangelização católica — e evitar a evasão de fiéis — por meio dessas comunidades foi escrita numa carta do Papa Paulo VI. O documento, publicado no dia 8 de dezembro de 1974, foi uma resolução do Sínodo (encontro de bispos do mundo inteiro para discutir problemas universais da Igreja), realizado em Roma no mesmo ano. As primeiras comunidades católicas surgiram na Europa logo no início de 1975. No Brasil, a primeira foi a Canção Nova, fundada em 12 de fevereiro de 1976.

 
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