APAZIGUAMENTO
O fato é que a centro-esquerda escolheu o caminho do apaziguamento. E desta forma tem trabalhado em favor do rei da Prússia, quer dizer, para Berlusconi. Não se pode esquecer que Il Cavaliere foi declarado elegível pela Junta Eleitoral e pela Câmara dos Deputados, majoritariamente de centro-esquerda, ainda que uma lei previsse a inelegibilidade de quem possuísse concessões de serviços públicos. Que Berlusconi é o político mais processado de toda a Europa. Que os bancos lhe deram financiamentos quando suas empresas tinham dívidas de mais de 5 bilhões de liras. Que não foram adiante os projetos de lei anticorrupção. Que os homens mais influentes do partido-empresa (Previti e Dell’Utri) se livraram da cadeia graças aos votos determinantes de setores da centro-esquerda. Deixando de lado todas essas questões, perguntemos por que documentos tão inquietantes são sistematicamente censurados.
Para que o leitor entenda: neste livro, o juiz Paulo Borsellino fala em entrevista concedida a dois jornalistas franceses dias antes do atentado de Capaci — que provocou a morte do juiz Giovanni Falcone, em 23 de maio de 1992 — e dois meses antes da emboscada em Via D’Amelio, onde ele próprio foi assassinado.
É uma entrevista inédita que desapareceu durante anos e que sua família encontrou recentemente quase por milagre. Um documento impressionante pela gravidade das acusações que o juiz mártir verte sobre Berlusconi e Dell’Utri com base na relação com Vittorio Mangano, um dos maiores traficantes de droga da Cosa Nostra.
Roberto Morrione, chefe da RAI Internacional, revelou que ofereceu a entrevista a todas as emissoras da RAI, mas nenhuma quis a gravação. Os jornais também ficaram em silêncio, com exceção de uma ou outra notinha quase invisível.
Berlusconi e Dell’Utri tentaram de todo jeito seqüestrar a fita com a entrevista para evitar sua difusão. Os encarregados da transmissão lembraram que tinham enviado a fita a Berlusconi e Dell’Utri para que eles verificassem a sua autenticidade e os convidaram a participarem do programa. Os dois recusaram o convite. Os dois acusados temiam a difusão da entrevista porque ela constitui um libelo de acusação contra eles por parte de um juiz que sacrificou sua vida para combater a Máfia.
Uma outra peça é um relatório assinado por Francesco Giuffrida, funcionário do Banco da Itália, e pelo marechal-chefe da DIA, Giuseppe Ciro, a quem o pool anti-Máfia de Palermo encarregou investigar as 22 empresas de Berslusconi de onde nasceu o Fininvest. É um documento excepcional porque, pela primeira vez, revela alguma coisa sobre tantos buracos negros que salpicam nas origens do império de Il Cavaliere. Não é por acaso que ninguém até então tivesse conseguido entrar nas infinitas caixas chinesas que Berlsuconi foi construindo para ficar rico.
SEM RASTROS
Até agora, as 34 empresas — desde então foram descobertas mais 12 no império de Berlusconi — foram impenetráveis para quem já tentou investigá-las. Quem tentou escrever sobre elas também se viu atingido por denúncias pessoais e teve confiscado das livrarias todos os exemplares de sua obra.
Afinal, o que contam o diligente funcionário do Banco da Itália e o militar da DIA aos juízes do pool anti-Máfia? Que dos 200 milhões de liras que nos anos 70 circularam pelas empresas do grupo não se conhece a procedência nem o destino final de um total de 114 milhões, cifra que em 1997 equivalia a cerca de 500 milhões de liras.
Eles também contam que a capitalização das empresas se realizava de modo a não deixar nenhum rastro. Que o dinheiro seguia caminhos tortuosos. Que os proprietários do império de Berlusconi eram laranjas — aposentados anônimos, doentes crônicos e terminais, empregadas domésticas... Que os documentos das companhias sumiram. Que bancos facilitaram as operações de Il Cavaliere, como o Banco Rasini, conhecido por suas transações de lavagem de dinheiro, cujo administrador foi durante mais de 20 anos o pai de Berlusconi.
Os documentos demonstram que há basicamente duas etapas na ascensão de Il Cavaliere: a primeira começa nos anos 79, transcorre durante os anos de ouro da P2 e termina em 1983, quando Betino Craxi passa a ocupar o palácio Chigi. A segunda compreende os anos do governo do primeiro-ministro Craxi e vai até o escândalo de Tangentopoli. Na primeira etapa, chovem sobre Il Cavaliere bilhões de liras que ninguém sabe de onde vêm. Nos anos do craxismo, a amizade com o líder socialista lhe permite conseguir o boom televisivo em escala nacional, ignorando as normas e leis vigentes até a aprovação da Lei Manimí, feita sob medida para atender a seus interesses.
Berlusconi jogou com seus adversários e conquistou os italianos. Ele sempre soube jogar todas as cartas, inclusive a da Operação Mãos Limpas, em 1994, definindo o juiz responsável, Di Pietro, como ‘‘um magistrado que, com seu trabalho, ganhou o respeito dos italianos’’.
Il Cavaliere achava que Di Pietro tomaria partido dele e seguia falando bem da operação. Mas as coisas mudaram algumas semanas depois: ‘‘Se for absolvido, significa que existe uma Justiça na Itália. Se for condenado, significa que a democracia cedeu seu lugar ao regime contra o qual os homens livres e os partidos que os representam têm direito a reagir de qualquer maneira, de manifestações na rua até a obstrução no Parlamento’’.