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DENÚNCIA
A obscura fortuna de Berlusconi

Livro traz uma investigação rigorosa e exaustiva sobre o enriquecimento do multimilionário primeiro-ministro da Itália

Elio Veltri e Marco Travaglio
Do El País

Stefano Rellandini/Reuters 28.04.01

 
O Cheiro do Dinheiro. Origem e mistério da fortuna de Silvio Berlusconi é um exaustivo trabalho de investigação sobre a origem e os modos de enriquecer do primeiro-ministro italiano, e ao mesmo tempo uma crítica aos políticos do país que não impediram a aprovação de todas as leis de que Il Cavaliere necessitava para que a maioria dos crimes que lhe atribuíam prescrevessem. Este livro pode ser útil por diversas razões. Apesar de graves, os fatos nele narrados são conhecidos apenas por um grupo restrito de políticos, juízes e autoridades policiais. Os partidos políticos e quase todos os veículos de comunicação italianos mantêm uma espécie de pacto de silêncio que respeitam com empenho. Nos demais países da União Européia, fatos como os que descreveremos provocariam um terremoto político e obrigariam seus responsáveis a abandonar a vida pública. Mas na Itália nada acontece. Sequer se faz uma única e tímida pergunta que seja a Berlusconi nas entrevistas para jornais e emissoras de televisão, sejam públicas ou privadas. Mas o que acontece com os veículos que não pertencem a Berlusconi? E com os partidos de centro-esquerda? Sua postura é ainda mais incompreensível. Quando algum deles é questionado, vem a justificativa de que atacar Berlusconi é fazer o jogo dele, porque a população o julga um perseguido. Pode-se argumentar que essa desculpa não vale quando se trata de fatos dessa gravidade, porque estão em questão assuntos e valores que constituem a base do Estado de direito.



APAZIGUAMENTO

  O fato é que a centro-esquerda escolheu o caminho do apaziguamento. E desta forma tem trabalhado em favor do rei da Prússia, quer dizer, para Berlusconi. Não se pode esquecer que Il Cavaliere foi declarado elegível pela Junta Eleitoral e pela Câmara dos Deputados, majoritariamente de centro-esquerda, ainda que uma lei previsse a inelegibilidade de quem possuísse concessões de serviços públicos. Que Berlusconi é o político mais processado de toda a Europa. Que os bancos lhe deram financiamentos quando suas empresas tinham dívidas de mais de 5 bilhões de liras. Que não foram adiante os projetos de lei anticorrupção. Que os homens mais influentes do partido-empresa (Previti e Dell’Utri) se livraram da cadeia graças aos votos determinantes de setores da centro-esquerda. Deixando de lado todas essas questões, perguntemos por que documentos tão inquietantes são sistematicamente censurados.

  Para que o leitor entenda: neste livro, o juiz Paulo Borsellino fala em entrevista concedida a dois jornalistas franceses dias antes do atentado de Capaci — que provocou a morte do juiz Giovanni Falcone, em 23 de maio de 1992 — e dois meses antes da emboscada em Via D’Amelio, onde ele próprio foi assassinado.

  É uma entrevista inédita que desapareceu durante anos e que sua família encontrou recentemente quase por milagre. Um documento impressionante pela gravidade das acusações que o juiz mártir verte sobre Berlusconi e Dell’Utri com base na relação com Vittorio Mangano, um dos maiores traficantes de droga da Cosa Nostra.

  Roberto Morrione, chefe da RAI Internacional, revelou que ofereceu a entrevista a todas as emissoras da RAI, mas nenhuma quis a gravação. Os jornais também ficaram em silêncio, com exceção de uma ou outra notinha quase invisível.

  Berlusconi e Dell’Utri tentaram de todo jeito seqüestrar a fita com a entrevista para evitar sua difusão. Os encarregados da transmissão lembraram que tinham enviado a fita a Berlusconi e Dell’Utri para que eles verificassem a sua autenticidade e os convidaram a participarem do programa. Os dois recusaram o convite. Os dois acusados temiam a difusão da entrevista porque ela constitui um libelo de acusação contra eles por parte de um juiz que sacrificou sua vida para combater a Máfia.

  Uma outra peça é um relatório assinado por Francesco Giuffrida, funcionário do Banco da Itália, e pelo marechal-chefe da DIA, Giuseppe Ciro, a quem o pool anti-Máfia de Palermo encarregou investigar as 22 empresas de Berslusconi de onde nasceu o Fininvest. É um documento excepcional porque, pela primeira vez, revela alguma coisa sobre tantos buracos negros que salpicam nas origens do império de Il Cavaliere. Não é por acaso que ninguém até então tivesse conseguido entrar nas infinitas caixas chinesas que Berlsuconi foi construindo para ficar rico.

SEM RASTROS

  Até agora, as 34 empresas — desde então foram descobertas mais 12 no império de Berlusconi — foram impenetráveis para quem já tentou investigá-las. Quem tentou escrever sobre elas também se viu atingido por denúncias pessoais e teve confiscado das livrarias todos os exemplares de sua obra.

  Afinal, o que contam o diligente funcionário do Banco da Itália e o militar da DIA aos juízes do pool anti-Máfia? Que dos 200 milhões de liras que nos anos 70 circularam pelas empresas do grupo não se conhece a procedência nem o destino final de um total de 114 milhões, cifra que em 1997 equivalia a cerca de 500 milhões de liras.

  Eles também contam que a capitalização das empresas se realizava de modo a não deixar nenhum rastro. Que o dinheiro seguia caminhos tortuosos. Que os proprietários do império de Berlusconi eram laranjas — aposentados anônimos, doentes crônicos e terminais, empregadas domésticas... Que os documentos das companhias sumiram. Que bancos facilitaram as operações de Il Cavaliere, como o Banco Rasini, conhecido por suas transações de lavagem de dinheiro, cujo administrador foi durante mais de 20 anos o pai de Berlusconi.

  Os documentos demonstram que há basicamente duas etapas na ascensão de Il Cavaliere: a primeira começa nos anos 79, transcorre durante os anos de ouro da P2 e termina em 1983, quando Betino Craxi passa a ocupar o palácio Chigi. A segunda compreende os anos do governo do primeiro-ministro Craxi e vai até o escândalo de Tangentopoli. Na primeira etapa, chovem sobre Il Cavaliere bilhões de liras que ninguém sabe de onde vêm. Nos anos do craxismo, a amizade com o líder socialista lhe permite conseguir o boom televisivo em escala nacional, ignorando as normas e leis vigentes até a aprovação da Lei Manimí, feita sob medida para atender a seus interesses.

  Berlusconi jogou com seus adversários e conquistou os italianos. Ele sempre soube jogar todas as cartas, inclusive a da Operação Mãos Limpas, em 1994, definindo o juiz responsável, Di Pietro, como ‘‘um magistrado que, com seu trabalho, ganhou o respeito dos italianos’’.

  Il Cavaliere achava que Di Pietro tomaria partido dele e seguia falando bem da operação. Mas as coisas mudaram algumas semanas depois: ‘‘Se for absolvido, significa que existe uma Justiça na Itália. Se for condenado, significa que a democracia cedeu seu lugar ao regime contra o qual os homens livres e os partidos que os representam têm direito a reagir de qualquer maneira, de manifestações na rua até a obstrução no Parlamento’’.



MENSAGEM DEVASTADORA

  A centro-esquerda começa a diferenciar de maneira bizantina as investigações judiciais da luta política, enviando à população uma mensagem devastadora: os políticos, como os cidadãos comuns, são inocentes até a decisão final da Justiça. Portanto, se pode ser inquilino do palácio Chigi e do Quirinal com uma condenação por corrupção.

  A Il Cavaliere bastaram dois anos desde a viyótia do Olivo para que todas as situações de voltassem em seu favor: liquidou a Bicameral depois de ter se servido dela; convenceu a metade dos italianos de que era perseguido pelos juízes por questões políticas; teve apoio no Parlamento quando se descobriu uma escuta em sua casa, o que atentava contra a Constituição; cancelou suas dívidas e começou a acumular lucros até se tornar o homem mais rico da Itália, com um patrimônio estimado em 30 bilhões de liras; conseguiu a aprovação de todas as leis de que necessitava para que os crimes pelos quais era acusado prescrevessem; transformou a Forza Italia no maior partido político do país; controlou Fini e Bossi, que agora lhe obedecem cegamente.

  Il Cavaliere convenceu políticos, intelectuais e a população em geral de que, definitivamente, a Itália não é um país diferente dos outros e que a corrupção não passa de uma invenção de um punhado de juízes sedentos de poder.

  Quem se atreve a questionar a legalidade da Câmara é vilipendiado e insultado; os deputados perseguidos ou condenados por qualquer crime — corrupção incluída — são declarados imunes , portanto, não podem ser julgados; as ordens de prisão de Previti, Dell’Utri, Cito e Giudice não passam de perseguição e são devolvidas a quem as emitiu.

  Pouco importa que as resoluções da União Européia (UE) afirmem que a corrupção ‘‘mina o funcionamento do sistema democrático’’ e que peçam a criação de uma lista negra das pessoas físicas ou jurídicas condenadas de forma definitiva por corrupção envolvendo dinheiro da UE. Pouco importa que o Parlamento de Estrasburgo convide os eurodeputados a organizar investigações de conhecimento público sobre o desenvolvimento e as conseqüências da corrupção. Na Itália, tudo se mantém em silêncio. Tudo passa como a água sobre o cristal, sem deixar marcas.

 
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