Ensinar um cachorro a andar calmamente ao lado do dono, a não latir para os outros, a fazer a guarda da sua casa, a conviver com outros animais e até mesmo corrigir manias já adquiridas que incomodam (como pular nas pessoas ou subir no sofá). Essas são algumas das tarefas que um adestrador de cães realiza com maestria quando mistura sua paixão por animais e sua sensibilidade com as técnicas do treinamento. Um profissional que precisa ser escolhido com muito cuidado. Afinal, ele estará cuidando de seu melhor amigo.
O adestramento básico de um cão de pequeno ou médio porte pouco difere do de um grande. A técnica utilizada pelos bons adestradores é reconhecer, pelas características da raça e pelo histórico do animal, contado pelo dono, a personalidade do cachorro. ‘‘É preciso fazer uma avaliação minuciosa do cachorro. Um bom treinador entende de comportamento animal’’, diz Joverson Pereira, na profissão há 16 anos.
‘‘A gente coloca nas aulas de adestramento o que o dono pede e a gente vê que é possível’’, explica Luís Cláudio Cruz, ex-dono de lanchonete que há quatro anos trocou o negócio pela paixão de adestrar um animal. ‘‘Até mesmo a linguagem utilizada: inglês, português ou alemão’’, continua. Alguns treinadores, como Pereira, não ensinam de maneira alguma um cão a atacar. ‘‘Acho que tira a alegria do animal’’, justifica.
Luís Cláudio, que treina muitos animais nos lagos Sul e Norte, diz que com a onda de violência, os donos pedem para ensinar o ataque. E ele ensina, mas faz o proprietário assinar um termo de compromisso pelos danos que o cão possa causar. E afirma: ‘‘Existem outras maneiras de adestrar um cão para guardar sem fazer ele morder. Por exemplo, fazer ele latir quando alguém passar pela frente da casa’’.
Quanto mais cedo, melhor
De acordo com adestradores e especialistas, o cachorro já deve ser condicionado no momento em que chega em casa. O primeiro passo é não deixar o filhote fazer coisas que, por ser pequeno, parecem lindas, mas que depois incomodam, como morder sapatos, subir no sofá, dormir na sua cama, viver dentro da casa. E também ensiná-lo a não fazer suas sujeiras dentro do apartamento, com uma técnica simples que Luís Cláudio explica — é impossível um adestrador ensinar isso, já que é uma coisa que faz muito mais parte do cotidiano do dono: a cada vez que o cachorro comer, saia com ele até que o animal faça suas necessidades. Nunca deixe a comida por mais de 20 minutos no local. Se ele não comer, retire. O metabolismo do cachorro precisa de horários regulares, para que você também estabeleça horários regulares para sair com ele.
A partir dos cinco meses, o filhote já está pronto para o adestramento básico — aquele que faz o cachorro sentar, deitar, atender ao chamado do dono, andar calmamente na rua e corrigir algumas falhas detectadas pelo dono. Entre três e seis meses, com duas aulas de meia hora por semana, ele estará pronto.
Não há limite de idade para que um cachorro seja treinado. Mas corrigir hábitos adquiridos há muito tempo é mais difícil e demora mais. ‘‘É como se você fosse querer mudar os hábitos de uma pessoa idosa. Ela vai reagir contra isso’’, afirma Joverson.
Carinho e voz firme
As técnicas de adestramento variam. Joverson, por exemplo, recompensa o animal quando fez alguma coisa certa com biscoitinhos e palavras de incentivo. Já Luís Cláudio, que aprendeu adestramento na Alemanha, usa um brinquedo — que vira objeto de estimação do cão — como estímulo e carinho como recompensa. Na hora da repreensão, porém, os dois concordam. Nada de agressão. Palavras usadas em tom grave e ríspido, sem gritar, e um ‘‘tranco’’ na coleira, não para machucar, mas para causar um efeito físico. Depois de treinados, o ‘‘tranco’’ não será mais necessário.
‘‘Um adestramento mal feito pode ser até perigoso, principalmente para cães de guarda’’, preocupa-se Joverson. Luís Cláudio preocupa-se principalmente porque, se um cachorro for adestrado de maneira errada, pode ser muito difícil corrigir os erros depois. ‘‘Em alguns casos, é impossível’’, diz.
A participação do dono é muito importante para o adestramento do cão. ‘‘Quando o cachorro está na frente do proprietário, ele muda. É aí que dá para corrigir os erros’’, garante Luís Cláudio. ‘‘Um bom treinador ensina o cachorro a obedecer o comando e o dono a dar o comando’’ diz Joverson. Mas atenção: assistir às aulas não significa interferir nelas. Nada de ficar tentando treinar o cão após as aulas. Na etapa certa do treinamento, o adestrador ensinará o dono a trabalhar com seu animal.
‘‘Tem proprietário que entrega o cachorro na mão do treinador, não participa de nada e depois reclama que ele não o obedece. É claro que não vai obedecer, porque só aprendeu a aceitar os comandos da voz do adestrador’’, diz Luís Cláudio. ‘‘Falar em tom um pouquinho mais carinhoso já pode mudar o condicionamento do animal’’, finaliza.