|
|
|
guia@correioweb.com.br
Portas abertas
Templo budista da Asa Sul, Catedral da Assembléia de Deus e Tenda de Oxalá inauguram série sobre locais de culto de religiões diversas no DF
Da Redação
| Nehil Hamilton |
 |
|
| |
Koichi Ishida, 72 anos, não sabe muitas palavras em português. Quando fala algo em japonês e as pessoas não entendem, ele saca um giz branco e anota no quadro-negro a palavra que não foi compreendida. Tal como a estátua de Buda, os incensos e os livros com hinos sagrados, o quadro faz parte do cenário que compõe o Templo Budista Terra Pura. Mesmo que poucos brasilienses se aventurem a conhecer o interior do prédio, sua arquitetura vistosa e tipicamente oriental, em contraste com a quadra comercial logo em frente, chama a atenção de quem passa pela 315/316 Sul.
O monge Koichi, nascido em Hiroshima, é responsável pelo templo há nove meses. Tempo suficiente para descobrir que o brasiliense não é lá muito afeito ao budismo japonês. Apesar de o templo ser tão aberto quanto a filosofia religiosa que abriga, poucos se atrevem a tocar a campainha e entrar no prédio. O ritual de iniciação é simples. Para assistir a algum dos cultos, não é preciso ter pré-requisitos. ‘‘Basta que as pessoas se interessem pelo budismo. As portas estão abertas a todos’’, diz Koichi.
Mas há outro problema. Os poucos que entram no templo esquecem que ele é mantido com as contribuições da comunidade. ‘‘Ninguém colabora. Ninguém mesmo’’, diz Koichi. Em muitas vezes, o templo precisou da ajuda da sede religiosa, que fica em São Paulo. Ou da forcinha de uma organização budista japonesa de Brasília formada por cerca de 90 pessoas, que organiza as quermesses do templo e contribui para o pagamento da conta de luz e de água do local.
Durante a semana, os cultos reúnem de quatro a seis gatos pingados. Aos domingos, a casa fica um pouco mais cheia: de 20 a 40 pessoas. E é só. Talvez pela falta de curiosidade do brasiliense, alguns detalhes do lugar podem parecer até novidade. Como, por exemplo, que o templo é de uma vertente específica do budismo, a escola Jodo Shinshu, uma das mais influentes do Japão. Ou que, diferentemente do budismo tibetano, a Jodo Shinshu não se apóia em muitos rituais de meditação. Tem apenas um mantra e está quase centrada em ataques ao egocentrismo.
A filosofia está afixada no portão principal, em um mural que poucos lêem. Está lá: ‘‘Todas as escolas budistas pregam o não-eu. Não faça de si o ponto focal da sua vida, reprima a confiança no seu ego’’. Koichi até que tenta explicar (‘‘É preciso esquecer o ego, entende?’’), mas, depois de várias frases em português formuladas pela metade, ele resume: ‘‘Você tem que ver um culto para entender. Tem que ver’’, e ponto.
O templo brasiliense existe há 35 anos. Mesmo com o punhado de celebridades da música (Madonna) e do cinema (Richard Gere) que decidiram aderir ao budismo de lá para cá, o movimento no local não se abalou. Continua baixo. As peças douradas do interior do prédio enganam quem pensa que o templo esbanja riqueza. Não são de ouro. ‘‘É tudo madeira pintada’’, afirma Koichi. ‘‘Se fosse ouro, já tínhamos vendido metade para pagar as despesas do templo’’, brinca.
Por causa da falta de contribuições espontâneas de quem visita o local, Koichi decidiu montar uma caixa de madeira especificamente para depósito de doações. ‘‘Em algumas igrejas, é obrigatório contribuir. Aqui, só contribui quem quer’’, explica. Até mesmo os cultos especiais pagos — como batizado e casamento — não têm valor estipulado. ‘‘A pessoa paga o que pode. Pode ser R$ 1 mil, R$ 10 mil...’’, diz Koichi, sempre sorrindo.
Quem acorda cedo para acompanhar um dos cultos diários (em horário ingrato, 7h30) tem a chance de conhecer muito da cultura religiosa oriental. São lidos hinos, incensos são acesos e há espaço até para festas. A tradição é defendida com unhas e dentes por Koichi. Para explicar o budismo, ele apela para um bordão que também está afixado no portão de entrada do templo: ‘‘Sou uma pessoa feliz graças a Buda’’. Eis a filosofia.
|
TEMPLO BUDISTA TERRA PURA
| Carlos Moura 6.10.98 |
 |
|
| |
ONDE FICA 315/316 Sul
O QUE PREGA O budismo da escola Jodo Shinshu, de origem japonesa
FREQÜENTADORES Cerca de 40 pessoas a cada culto de domingo, entre brasilienses e descendentes de japoneses. O público é, em sua maioria, formado por adolescentes. Durante a semana, o número cai para uma média de cinco pessoas por dia, a maioria idosos
CULTOS Duram uma hora, em média. Às terças, quintas e sábados, são realizados às 7h30. Aos domingos, às 9h. Os cultos são baseados nos hinos de Shinran Shonin (1173-1262), o fundador da escola
OUTRAS CELEBRAÇÕES Os cultos especiais que representam o batismo e o casamento não são obrigatórios, mas podem ser realizados. Basta marcar data no templo. Todos os cultos especiais são pagos, mas não há valor definido para taxa. Quem decide o valor é a própria pessoa que pede o culto. Dentre eles, há o houyo, para lembrar a morte de alguém querido (o equivalente à missa de sétimo dia da Igreja Católica). O batizado é chamado de okamisori. Nesse culto, a pessoa tem o cabelo marcado em três pontos por gilete. Em determinadas datas do ano, é realizada quermesse, festa à base de comida japonesa na quadra de eventos do templo
Calendário de eventos
7 de abril: Festa das flores, em comemoração ao nascimento de Buda. A partir das 9h, culto com distribuição de doces para as crianças 5 de maio: Culto em comemoração ao aniversário do fundador Shinran Shonin, às 14h 6 de junho: Culto em memória aos pioneiros imigrantes japoneses. Às 14h 7 de julho: Culto em memória das vítimas da bomba atômica. Às 14h 8 de agosto: Quermesse
Telefone: 245-2469
|
Inspiração bíblica
O que um prédio em forma de baleia faz em plena 910 Sul? A Catedral das Assembléias de Deus Madureira chama a atenção pela arquitetura peculiar. O templo, construído com base em um sonho, recebe duas mil pessoas a cada mês
Da Redação
A inspiração veio em um sonho. No final da década de 70, o pastor carioca Paulo Leiva Macalão, fundador da Assembléia de Deus Madureira, ouviu uma voz — interpretada como divina — que ordenava a construção de um templo com formato de baleia em Brasília, a nova capital do Brasil. A alusão ao animal veio da passagem bíblica narrada no livro do profeta Jonas, do Antigo Testamento. Segundo a tradição, o profeta foi engolido por uma baleia e levado nas entranhas do animal até Nínive para salvar os habitantes daquela cidade, que viviam na perdição.
Com o mesmo objetivo, o pastor Macalão construiu a Catedral das Assembléias de Deus Madureira, na 910 Sul. Inaugurado em agosto de 1982, o templo só pôde ser construído graças ao fundador de Brasília, Juscelino Kubitscheck. Ele doou o terreno que hoje abriga a sede de quase 100 igrejas da mesma denominação no Distrito Federal e entorno. O pastor só teve de abrir mão de um dos detalhes apresentados no sonho revelador: o lago artificial, que deveria circundar o templo, não foi construído por falta de verba.
Estima-se cerca de 8,3 mil fiéis da Assembléia de Deus Madureira na região. A Catedral tem 1.950 m2 de área e recebe, a cada mês, mais de dois mil visitantes. A capacidade é para até sete mil pessoas. A maioria procura os cultos públicos, celebrados às quintas-feiras e domingos, às 19h30. De acordo com o diretor administrativo do templo, pastor José Dornizete, é nesse dia que a igreja recebe o maior número de pessoas. ‘‘As outras atividades se destinam mais àqueles que querem se aprofundar nas palavras de Deus’’, contou.
O culto é considerado a liturgia mais completa dentro da Assembléia de Deus. A celebração começa com uma oração, seguida pela leitura de trechos da Bíblia. Depois de cânticos de louvor e testemunhos dos fiéis, começa a pregação, quando o pastor dirigente discute um determinado tema ou passagem bíblica com os presentes. O culto termina com outra oração, em favor dos necessitados.
Quem busca orientação pessoal pode optar por orações individuais, feitas de segunda a sábado pela manhã. Nessa celebração, não há pregação doutrinária. Os pastores e obreiros se voltam para atender as necessidades de cada um dos visitantes, que podem falar sobre seus problemas, receber a oração e, dependendo do caso, até uma orientação espiritual de qual caminho seguir.
Nas terças-feiras é realizado o Culto de Doutrina, voltado para os já convertidos. O estudo se sustenta em três pilares: regeneração, para impedir que o fiel cometa os mesmos pecados do passado; justificação, para estudar as tradições cristãs; e santificação, para o aperfeiçoamento espiritual. Também são discutidos temas relacionados ao convívio social e à moral.
Outra oportunidade de aprender as diretrizes doutrinárias é freqüentando as Escolas Dominicais. Todos os domingos a comunidade se distribui em grupos definidos por idade, sexo, estado civil e hierarquia dentro da religião para discutir temas da atualidade, tomando como base as teorias bíblicas. As crianças ganham espaço privilegiado dentro dessa atividade. Todos participam da discussão, divididos de acordo com a faixa etária.
A Catedral promove a cada três meses a celebração do batismo dos novos fiéis. Em cada ritual são consagradas, em média, duzentas pessoas. A decisão, de acordo com Dornizete, não depende de teorias que são transmitidas no curso preparatório para o sacramento, mas da vontade e disposição do integrante para adotar o novo estilo de vida. ‘Não adianta seguir todas as aulas e não se sentir preparado para o novo caminho’, explicou.
|
CATEDRAL DAS ASSEMBLÉIAS DE DEUS MADUREIRA
| Ronaldo de Oliveira |
 |
Uma mensagem recebida em sonho pelo pastor carioca Paulo Leiva Macalão inspirou o formato da Catedral da Assembléia de Deus em Brasília, que fica
na 910 sul
|
| |
ONDE FICA 910 Sul, ao lado da Uneb
O QUE PREGA Protestantismo
FREQÜENTADORES São cerca de 300 congregados na Catedral. Mas o templo recebe os fiéis das igrejas filiadas, e esse número chega a 8,3 mil em datas comemorativas
HORÁRIO DE CULTOS PÚBLICOS Quintas-feiras e domingos, às 19h30
OUTRAS ATIVIDADES
Cultos de Doutrina Discutem temas da atualidade e passagensda Bíblia. Mais voltado para os fiéis já batizados, mas é aberta a toda a comunidade. Terças-feiras, às 19h30
Orações Atendimento individual, com aconselhamento feito pelos pastores e obreiros. De segunda a sábado, das 8h às 10h
Escola Dominical Dividida entre turmas de obreiros, integrantes masculinos, senhoras, jovens, adolescentes e crianças. Funciona como um estudo sistemático da Bíblia e também envolve temas da atualidade. Domingos, das 9h às 11h
Culto da Mocidade Organizado e celebrado pelos jovens que freqüentam a Catedral. Realizado no segundo domingo de cada mês, às 19h30
Culto das Senhoras Organizado e celebrado pelas senhoras que fazem parte da casa. Na última quinta-feira de cada mês, às 19h30
Batismo Confirmação dos novos convertidos na religião. Devem seguir estudos prévios, que dão a orientação para viver dentro dos princípios bíblicos. A escolha de quando se batizar é feita pelo novo fiel, mas depende de uma entrevista com o pastor responsável pelo Departamento de Evangelismo da Catedral, ou com o presidente da casa, pastor Eduardo Sampaio. É seguido pela Santa Ceia, que reafirma o compromisso com o culto. É realizado a cada três meses, no primeiro sábado do mês, a partir das 17h. O próximo batismo será no dia 8 de junho, excepcionalmente no segundo sábado do mês
Casamentos A Catedral oferece gratuitamente o espaço para a celebração de casamentos. Mas o espaço não é muito procurado por causa do tamanho. Afinal, o templo tem 1.950 m2 de área, o que inviabiliza os custos com a decoração
Informações: 242-7119
|
Umbanda, refúgio espiritual
Da Redação
Qual a primeira idéia que vem a sua cabeça quando o assunto é umbanda? Se você pensou em galinhas, velas coloridas e atabaques, é melhor revisar seus conceitos. Pelo menos no que diz respeito ao Centro Espírita Tenda de Oxalá, um dos terreiros mais antigos de Brasília, localizado na 603 Norte. Fundado em 1967, o templo está sob os cuidados de Irani Ferreira de Castro há 32 anos. A dirigente, com 66 anos de idade e 51 de umbanda, não gosta de ser chamada de mãe-de-santo, título tradicional das sacerdotisas da religião. ‘‘E santo precisa de mãe?’’, ironiza. Ela é responsável pelas modificações nas regras que diferenciam o terreiro dos demais.
O salão que abriga as reuniões públicas é simples, sem imagens. O altar é ornamentado com plantas e, em vez de atabaques, o terreiro tem um órgão e um aparelho de som, que tocam desde temas de novelas até hinos evangélicos. De acordo com a dirigente, a música promove a concentração dos visitantes e médiuns. ‘‘Isso é importante para que possamos chegar no coração das pessoas’’, justifica.
O terreiro conta ainda com um espaço ao ar livre, que vira uma extensão do salão quando o número de visitantes é alto, e com um barracão construído com a mesma madeira usada na primeira sede. No local são feitos os trabalhos mais elaborados e são atendidas as pessoas que não querem ser identificadas. Especialmente os políticos. Revelar o nome dos atendidos, para a dirigente, vai contra a ética da religião.
Todas as segundas-feiras, às 20h30, há reuniões públicas. As fichas para consulta são distribuídas gratuitamente a partir das 18h, e a quantidade varia conforme o número de médiuns presentes naquele dia. Em média, são 150 atendimentos. Para os passes, não há limitação: todos são atendidos. A casa recebe cerca de 250 visitantes a cada sessão.
A Tenda de Oxalá também oferece passes terapêuticos e cromoterapia, nas quartas-feiras. No mesmo dia, a partir das 20h, há palestras de evangelização, com base no Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Na última sexta-feira do mês é realizada uma sessão diferente, voltada para trabalhos de limpeza espiritual. Na ocasião, as consultas são dadas pelos exus e pomba-giras. ‘‘Mas é muito diferente do que se vê por aí. Não fazemos o mal e não permitimos que as entidades cometam excessos’’, esclarece Irani.
Quando assumiu a liderança da casa, a dirigente dispensou todos os médiuns e formou o próprio grupo de trabalho. Daí, os trabalhos pesados foram abandonados da rotina do terreiro. Depois da reformulação, os novos médiuns precisam passar por provas para serem admitidos na corrente. Hoje, a casa conta com cerca de 150 pessoas, que se revezam nas sessões. ‘‘Para estar comigo tem de concordar com o que acredito ser verdadeiro’’, explica.
Para participar do grupo de médiuns, a pessoa deve ser indicada por alguma das entidades da casa. O candidato passa a freqüentar as reuniões de desenvolvimento, durante sete semanas. A prova final é uma entrevista com o espírito que dirige os trabalhos, o Caboclo Tupinambá — recebido por Irani. A escolha, segundo ela, não depende da formação intelectual ou nível econômico. Irani garante que, entre os integrantes do terreiro, podem ser encontrados de empregadas domésticas a funcionários do alto escalão do governo federal. ‘‘Precisamos de pessoas de bom coração, que queiram ajudar os outros e, principalmente, que estejam preparados para isso’’, completou.
|
CENTRO ESPÍRITA TENDA DE OXALÁ
| Ronaldo de Oliveira |
 |
Há 32 anos Irani Ferreira dirige o Centro Espírita Tenda de Oxalá
|
| |
ONDE FICA 603 Norte (Av. L2), no mesmo lote do asilo Casa do Vovô
O QUE PREGA Umbanda
FREQÜENTADORES São cerca de 150 médiuns na corrente. A casa recebe em cada sessão uma média de 250 visitantes
REUNIÕES PÚBLICAS Há sessões todas as segundas-feiras, a partir das 20h30. Na primeira segunda-feira de cada mês, o atendimento é feito pelos espíritos de caboclos. Nas demais, a consulta é com os pretos-velhos. As senhas para consultas com as entidades começam a ser distribuídas às 18h. Para tomar passe, não é preciso chegar com antecedência. Na última sexta-feira de cada mês, os exus e as pomba-giras prestam atendimento — especialmente de limpeza espiritual
OUTRAS ATIVIDADES
Cromoterapia e passes terapêuticos Visam auxiliar os processos de cura — mas, segundo a dirigente, não substituem o tratamento médico. Só são aplicados com recomendação de algum espírito da casa. Realizados nas quartas-feiras, às 20h30
Palestras de Evangelização Procuram dar esclarecimento aos participantes sobre os conceitos morais e religiosos da umbanda. Usam, como referência, o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Nas quartas-feiras, às 20h
Desenvolvimento mediúnico Restrito aos escolhidos para participar da corrente. Devem participar de sete sessões, vestidos com roupas brancas. Depois, passam por uma triagem com o dirigente espiritual da casa, o Caboclo Tupinambá, que decide se o candidato vai ingressar nos trabalhos. As sessões acontecem paralelamente aos passes terapêuticos, nas quartas-feiras, às 20h30.
Informações: 223-6610
|
|
|
|