Mapeamento genético, clonagem, novos tratamentos contra o câncer. Definitivamente, esta é a era da ciência. Mas no Brasil, país em que a religião é um dos principais elementos da cultura popular, a Medicina, muitas vezes, perde para a fé. Os hospitais e clínicas são trocados por centros espíritas, terreiros de umbanda, templos evangélicos, rituais xamânicos. Na esperança da cura, não são poucas as pessoas que abandonam os tratamentos para entregarem-se às mãos de médiuns, pastores, benzedeiros, mães e pais de santos. Em comum, todas as crenças atribuem o que consideram milagres à intervenção do Criador.
Não há números que indiquem a freqüência dos brasileiros aos tratamentos alternativos. Mas estudiosos reconhecem que esta é uma realidade em todas as regiões do país. ‘‘Os brasileiros têm uma religiosidade profundamente mágica, voltada para as questões do aqui e agora, e não centrada para a salvação da alma. Freqüentemente apelam para a magia em busca de saúde’’, explica o sociólogo Eurico Antônio Gonzalez dos Santos, professor de Sociologia da Religião na Universidade de Brasília (UnB).
A crença de que o melhor médico é Deus fez com que a microempresária católica Marelisa Cunha, 58 anos, desistisse de se submeter a uma sessão de hemodiálise para tratar de problemas renais. Ela chegou a fazer cirurgia em São Paulo, no ano passado, com o objetivo de se preparar para o tratamento. Mas, em agosto, decidiu operar-se espiritualmente com a ialorixá goiana Leila Luzia Nogueira, a Mãe Leila. Marelisa vai marcar consulta com sua nefrologista, mas tem certeza de que foi curada. Não sente mais os sintomas da doença e urina várias vezes ao dia — coisa que, antes, era um verdadeiro sacrifício.
Umbandista há 33 anos, Mãe Leila faz cirurgias espirituais sem auxílio de instrumentos. No Terreiro do Caboclo Serra Negra, na Colônia Agrícola Samambaia, não entram tesouras, agulhas nem canivetes. Tudo é feito com as mãos. Mãe Leila diz que incorpora 16 espíritos. Eles diagnosticam as doenças e, como se fizessem massagens, operam os pacientes. Importante, para a ialorixá, é ter fé. Que nem precisa vir do operado. ‘‘Quando a família ou os amigos acreditam, também dá certo. Mas não sou eu nem os espíritos que fazem as cirurgias: é Deus’’, garante Mãe Leila, que não cobra pelos serviços.
‘‘Ao melhorar o estado de espírito, o humor também melhora. Isso aumenta as condições de cura. Mas, muitas vezes, a pessoa nem tem doença nenhuma, foi diagnosticada incorretamente por médicos ou leigos’’, acredita o sociólogo Eurico. Já para os religiosos, é possível, sim, curar-se por meio da fé. ‘‘Acredito muito no sobrenatural vindo de Deus. Tenho visto várias pessoas curadas, porque tiveram fé. Isso só me faz crer que Deus existe e que o milagre acontece’’, conta Geraldo Alcântara, 37 anos, pastor evangélico da Igreja Sara Nossa Terra.
Às terças e quartas-feiras, os doentes que esperam que Deus ministre o remédio freqüentam cultos na sede da igreja, no Setor Sudoeste, dedicados a milagres e quebra de maldições. Na capela da Sara Nossa Terra, cerca de 60 pessoas — mulheres, homens e muitos jovens — rezam e invocam a presença do Espírito Santo. O pastor convoca os fiéis a orarem juntos, enquanto começa a falar sem parar coisas como ‘‘Poder que cura, poder que restaura...’’. Contagiadas, as pessoas levantam-se, abraçam-se e também fazem seus pedidos em voz alta. É como se estivessem em transe.
O professor Eurico conta que a indução ritual de alteração do estado de consciência é algo tão antigo quanto a história da humanidade. O transe também é usado por xamãs, para alcançar a cura.
O xamanismo não é religião, é uma prática espiritual herdada de ancestrais norte-americanos há pelo menos dez mil anos. Pelo toque de tambores, o som das máscaras e chocalhos, o xamã acredita entrar em contato com espíritos, mentores, forças da natureza e, com isso, ter visões de cura. ‘‘Os xamãs, ao longo dos séculos, sempre tiveram a função social de cuidar da saúde física e espiritual das pessoas’’, explica a psicóloga e xamã Ruth Mukti Grinberg, há 18 anos exercendo a prática espiritual.
O campo da crença também pode ser um terreno fértil para charlatões aproveitarem-se do desespero alheio e exercerem ilegalmente práticas de cura. Porém, nem todos que se dedicam ao curandeirismo podem ser considerados picaretas. ‘‘De fato, existem as pessoas que pensam ter esse poder, esse dom. Mas a crença mágica torna as pessoas muito manipuláveis. O sujeito tem a impressão de que sua vida depende de todos, menos dele’’, acredita o sociólogo Eurico Antônio Gonzalez dos Santos. Além da religiosidade inata do brasileiro, ele atribui a busca da cura por meios alternativos às limitações do Sistema Único de Saúde (SUS) e ao inconformismo do ser humano em aceitar a morte — quando são desenganadas pelos médicos, a saída é buscar ajuda de Deus. Ou dos cristais, das cores, das plantas, dos florais de Bach, as chamadas terapias alternativas. ‘‘Esses procedimentos não são reconhecidos cientificamente pelo Conselho Federal de Medicina, mas os terapeutas entraram com recurso e a questão está sendo julgada. Assim, não há como impedirmos essas práticas’’, explica o infectologista Luís Fernando Salinas, presidente do Conselho Regional de Medicina-DF.