Brasília, sexta-feira, 05 de abril de 2002
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Cães e homens
Mais que amizade, um passo na evolução

Sydney — ‘‘Acreditamos que os primeiros truques tenham sido ensinados aos cães mais de 100 mil anos atrás, o que, de certa forma, impulsionou a humanidade rumo a uma etapa importante para o desenvolvimento da cultura e da sociedade’’. A afirmação foi feita por um grupo de estudiosos australianos, na semana passada. ‘‘Acreditamos que muitos elementos contribuíram para o desenvolvimento da anatomia e do comportamento do homem moderno. E, sem exageros, a relação dos nossos ancestrais com lobos selvagens foi um fator-chave para isso’’, diz Paul Tacon, principal cientista do Australian Museum. Tacon e o bio-arqueólogo Colin Pardoe publicaram essa teoria no jornal Nature Australia.

  No centro dos estudos, os ancestrais do melhor amigo do homem auxiliaram os humanos a sobreviver. Essa tese tem sido fortalecida por evidências arqueológicas e genéticas, que indicam que essa parceria começou de 100 mil a 130 mil anos atrás — muito mais do que se convencionou historicamente.

  Tacon afirma, inclusive, que o sentimento de territorialismo, fortemente arraigado no homem moderno, não é uma característica encontrada em outros primatas. Entretanto, lobos e cães sempre defenderam seus territórios de forma feroz. Essa qualidade pode ter sido transmitida aos homens, depois de gerações de convivência com esses animais.

  Os primeiros rabiscos nas pedras ou mesmo os desenhos das mãos deixados nas paredes das cavernas podem ter sido as primeiras marcas de território deixadas pelos homens — mais ou menos um equivalente ao que os cães fazem com a urina.

  Até mesmo o fraco desenvolvimento do olfato humano pode estar relacionado à domesticação dos lobos. Com os canídeos por perto, passamos a não precisar tanto desse sentido. Como alternativa para os cheiros de urina, tivemos que desenvolver formas mais marcantes e duráveis de mostrar a quem pertenciam os territórios. ‘‘Isso pode ter contribuído para o desenvolvimento de todo tipo de artes visuais e figurativas, a cerca de 40 mil anos’’, afirma Tacon.

  Até mesmo na hora de comer os lobos foram importantes para o homem. As caçadas aos grandes animais teriam sido muito mais difíceis se não fossem pelos amigos de quatro patas. Graças a eles, a humanidade teria sido capaz de sobreviver em um ambiente completamente hostil e de ocupar regiões desérticas e geladas, como o Ártico.

Amizade
O ponto mais significante revelado pela pesquisa afirma que aprender a conviver e, mais tarde, domesticar animais tenha nos ensinado também a desenvolver o relacionamento com outros humanos. Os primatas são naturalmente bons nas relações entre mães e bebês, mas não são tão bons assim em se relacionarem com pares do mesmo sexo. Tacon e Pardoe argumentam que a associação entre humanos e cães tenha facilitado o desenvolvimento de sentimentos como a amizade, por exemplo.

  ‘‘Na escala evolutiva, isso nos deu uma tremenda vantagem na hora da guerra pela sobrevivência. Isso auxiliou na troca de conhecimentos entre os grupos de pessoas, a troca de cultura e, claro, de material genético’’, define Tacon. ‘‘Por meio da cooperação, alcançamos um incrível desenvolvimento... chegamos à lua, por exemplo’’.

  Até recentemente, pensava-se que os homens haviam domesticado os lobos há cerca de 14 mil anos. Mas ossos desses animais foram encontrados próximos a restos humanos há mais de 400 mil anos na Grã-Bretanha, 300 mil na China e há mais de 150 mil anos na França. Hoje já não se acredita que isso se deve ao fato de nossos amigos terem servido como refeição aos nossos ancestrais.

  Tacon diz que sua teoria ajuda a resolver alguns vazios no entendimento do desenvolvimento humano. ‘‘Estamos olhando para o passado a partir de uma nova perspectiva’’, garante. ‘‘Se pudermos trazer outras novas formas de interpretação sobre o passado, temos mais chance de nos aproximarmos do que realmente era a vida de nosso ancestrais’’.


A frase
‘‘Na escala evolutiva, isso nos deu uma tremenda vantagem na hora da guerra pela sobrevivência. Isso auxiliou na troca de conhecimentos entre os grupos de pessoas, a troca de cultura e, claro, de material genético’’
Paul Tacon
Principal cientista do Australian Museum

 
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