Brasília, sexta-feira, 05 de abril de 2002
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A guerra das gravatas

Coisas da monarquia. Conservadores britânicos compram briga com a BBC porque um dos principais apresentadores da estatal não usou luto para anunciar a morte da rainha-mãe

Fotos: Fiona Hanson/AP e Zuleika de Souza (gravata)
A rainha Elizabeth no velório da mãe, com o marido (E): roupas e gravatas pretas
 

 
Londres — Já faz quase uma semana que Elizabeth Bowes-Lion morreu, aos 101 anos, e os conservadores e monarquistas britânicos ainda estão em polvorosa. Eles subiram nas tamancas com o que consideram a forma ‘‘desrespeitosa’’ com que a rede estatal BBC cobriu a morte da mãe de Elizabeth II e tiveram como porta-voz o Daily Mail, o mais patriótico dos tablóides ingleses.

  Foi aparentemente um simples cochilo protocolar na cobertura da morte da rainha-mãe, sábado passado, dia 30 de março, que acabou gerando numa furiosa confrontação de dois gigantes da midia — o Mail (2,3 milhões de exemplares diários) e a BBC, a maior rede de rádio e tv do mundo.

  Quando por volta das 16 horas do sábado passado o apresentador de notícias Peter Sissons — que estava de plantão — anunciou a morte da rainha-mãe pela BBC1, ele não usava, como dita o protocolo, uma gravata preta, em sinal de luto. A sua gravata era cor vinho, enquanto todos os repórteres colocados na rua e nos recintos da realeza para cobrir as reações e oferecer detalhes do passamento da veneranda soberana estavam sobriamente vestidos, ostentando a gravata requerida pelo protocolo. Por que Sissons se apresentou de forma diferente?

  Ele seguiu instruções superiores — dizem as versões que circularam — para não trocar de roupa, nem de cores em algum intervalo da programação. A ordem teria vindo de cima. Se foi assim, por que a BBC, que sempre se pautou pelo apego ao protocolo e respeito às instituições decidiu contrariar a rotina?

  Em notícias e em editoriais, o Mail — tablóide conservador lido por uma camada da população devota da monarquia e das mais arraigadas tradições do país — castigou a BBC com todos os adjetivos depreciativos do vocabulário, negando-lhe o direito de ser tratada como a voz do país. Disse também que a atitude de Sissons, que em seguida teria feito perguntas imprudentes a uma sobrinha da rainha-mãe que estava ao lado dela, no último suspiro, foi o alvo maior das críticas.

  A sobrinha, Margaret Rhodes, falava sobre o Castelo de Windsor, onde morreu a velha senhora e, aparentemente, Sissons teria se interessado por detalhes íntimos demais e até descabidos. Perguntou, por exemplo, sobre as pessoas que estavam com a rainha-mãe no momento em que partiu para sua viagem ao outro mundo... É claro que a nobre Margaret se recusou a responder. A família real está indignada.

  A imprensa conservadora publicou que a postura de Sissons teria irritado o príncipe Charles, que se sentia profundamente ofendido pela postura da BBC. Diversos outros jornais ressaltaram que, por essa razão, o herdeiro da coroa, em acordo com a sua mãe, ignorou os pedidos da rede estatal de usar seus microfones para fazer as primeiras declarações em público sobre a morte de sua avó. Para piorar as coisas, Charles convidou as concorrentes ITN e Sky Television para irem até sua residência rural, em Highgrove, a oeste de Londres.

  O Daily Mail acolheu todas as opiniões de censura ao comportamento da BBC. Comentaristas de peso, como Steve Glover, autor de livros sobre mídia, açoitaram a organização, dizendo que o problema vem do alto, mas o responsável pela orientação editorial da cobertura, Mark Damazer, defendeu o trabalho feito por Sissons e pelos repórteres, no seu entender excelente.

  Com tanto falatório, a BBC se viu forçada a publicar uma nota em que esclarece que não foi feito nenhum pedido formal para que repórteres e apresentadores usassem gravatas pretas. Foi apenas sugerido que tomassem uma postura sóbria para o anúncio do falecimento. Explicou ainda que no próximo dia 9, data dos funerais, seus apresentadores deverão usar gravatas pretas. A BBC nega que se sinta castigada pelo fato de o príncipe Charles não ter usado seus microfones para sua mensagem de condolências.

  O ataque dos tablóides à BBC pode estar sendo influenciado pelas boas relações que Charles tem mantido com os jornalistas, em sua campanha para melhorar sua imagem pessoal e, com isso, tornar mais Camilla Parker-Bowles menos indigesta para o país. Charles vai colhendo os frutos dessa campanha, com o aumento de sua popularidade junto aos corações britânicos.

  Um novo e grande teste virá nesta sexta, durante a cobertura do traslado do corpo da rainha-mãe para o Westminster Hall, onde ficará até a próxima terça-feira, quando será enterrado. Desta vez, Sissons não estará a cargo da tarefa e isto não significa que a BBC cedeu à pressão. Acontece que ele não é âncora — é um apresentador de telejornais. Mas ninguém tem duvida de que o pesar do luto estará na face, na roupa e nas palavras dos repórteres, evitando, assim, novas críticas.

Monarquia em xeque?
A morte da rainha-mãe causou de fato imenso pesar, mas, ao mesmo tempo, causou uma reação de crítica, nas cartas que a BBC recebeu e colocou no ar, lidas por seus locutores. Alguns dos telespectadores classificaram as reações de exageradas, se comparadas ao sofrimento de afegãos e palestinos. E no mesmo Daily Mail tão cáustico com a BBC, o escritor A. N. Wilson, um colaborador regular do jornal, aventou a possibilidade de que a monarquia agora privada da influência sólida e gigantesca da rainha-mãe se veja agora sob o risco de sucumbir.

  Este, aliás, é um velho argumento. Quando a Princesa Diana morreu, falou-se no fim da monarquia, porque já não havia mais o magnetismo pessoal que Lady Di trouxe para a realeza. Sabe-se agora que a rainha-mãe, que tanto a ajudou a integrar-se aos afazeres da monarquia, passou a desprezá-la, depois da entrevista à televisão (um canal da BBC) em que admitiu ter traído o marido, Charles, após a separação informal. As histórias estão aparecendo e continuarão a aparecer, embora a roupa suja da realeza seja sempre lavada em casa.

  Sem o mesmo clima emocional criado pela morte de Diana, o país continua de luto. Na quarta-feira passada, a Câmara dos Comuns foi convocada do seu recesso atual para uma sessão em homenagem à rainha-mãe, na qual todos os presentes usavam gravatas de luto e roupas escuras. O primeiro-ministro Tony Blair foi o primeiro dos muitos oradores que se alongaram nos louvores à ela, mas ele se recusou a ampliar a pauta para discutir o agravamento da crise do Oriente Médio. Este distanciamento de um problema tão aflitivo reafirmou a força da monarquia. Não houve muxoxos, não houve censuras abertas. Os deputados tinham exclusivamente a rainha-mãe no seu mundo de preocupações.

 
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