Rio — Dizem que Jacob do Bandolim era homem de temperamento difícil. Uma das maiores autoridades do choro, grande pesquisador e referência para o instrumento, o criador do conjunto Época de Ouro devia ter lá seus motivos para implicar com a bossa nova e com Waldir Azevedo. O que poucos sabem é que tinha tremenda admiração por Pedacinhos do Céu, do ‘‘rival’’ Azevedo. E que passava horas gravando em fita de rolo as músicas da bossa nova.
Revirando os arquivos do Museu da Imagem e do Som (MIS), no Rio, os músicos Sérgio Prata, 48 anos, e Pedro Aragão, 24, descobriram preciosidades do instrumentista carioca, morto em 13 de agosto de 1969. Eles recuperaram e remasterizaram toda a discografia do bandolinista, reunindo 336 faixas em 16 CDs doados ao MIS. Agora, se concentram nas 122 fitas caseiras e no caderno de anotações que encontraram no museu.
Além de ‘‘digitalizar’’ o material, que está no MIS há mais de 30 anos, os pesquisadores querem criar site com partituras, fotografias, biografia, músicas e raridades. O trabalho está sendo realizado em grupo — com uma comissão formada, entre outros, por Herminio Bello de Carvalho, Elena Bittencourt (filha de Jacob), Francisco Faria (irmão de Paulinho da Viola), o bandolinista Déo Rian e o filho Bruno Rian.
Chopin e macumba
Gravadas e catalogadas pelo próprio Jacob, as fitas de rolo trazem ensaios com o Época de Ouro, saraus que fazia em casa, rodas de choro em Brasília, festivais de música, programas de rádio e até reuniões do Conselho de Música Popular (criado pelo governo do estado nos anos 60). Uma delas tem só pontos de macumba. Outra só prelúdios de Chopin.
Como não podem ouvir as fitas — estão deterioradas e podem arrebentar —, os pesquisadores se guiam pelo caderno que Jacob deixou, comentando uma por uma. Com os discos recuperados, fizeram pré-seleção de 36 fitas, dando prioridade aos inéditos, programas de rádio, ensaios e rodas de choro.
Bom anfitrião, Jacob Pick Bittencourt promovia memoráveis encontros musicais na casa de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Ali, reunia a nata dos chorões cariocas e recebia os nordestinos que tanto gostava de ouvir. ‘‘Canhoto da Paraíba, Rossini Ferreira, Dona Ceça e Zé do Carmo passaram quatro dias na estrada, vindo de jipe para o Rio’’, conta Sérgio Prata. ‘‘Ficaram duas semanas tocando com Jacob. Ele tinha adoração pelo pessoal do Nordeste.’’
Fitas com saraus
Segundo o pesquisador, o bandolinista se correspondia com eles regularmente, por meio de fitas de rolo. ‘‘Ele não usava carta. Mandava para os amigos de lá as fitas dos saraus que fazia aqui. Tanto que descobri em Pernambuco uma das melhores partes do acervo. Boa parte do que Jacob produziu no Rio nos anos 50 e 60 estava na casa do maestro Marcos César, em Recife.’’
Pesquisador incansável, Jacob tinha em casa mais de 3 mil partituras — inclusive microfilmadas —, pastas com recortes de jornais, escritos e fitas de rolo. Até os discos ele passava para essas fitas. ‘‘Era a técnica mais moderna na época; assim ele preservava e organizava por assunto’’, comenta Prata, que calcula ter em mãos mais de 600 horas de gravação.
Jacob se preocupava muito com a memória do choro. Foi fundo na pesquisa sobre Ernesto Nazareth. Dizem que tinha até partituras do Animal (Alexandre Gonçalves Pinto, chorão que era carteiro e, em 1936, escreveu o livro O Choro — Reminiscências dos Chorões Antigos, importante documento sobre os músicos da velha guarda). Tinha tudo muito organizado, num quarto grande nos fundos de casa. Depois de sua morte, o arquivo foi transferido para o MIS, onde está até hoje, mas todo desmembrado e correndo o risco de virar pó.
‘‘É uma pena porque ele era supermetódico’’, diz Pedro Aragão, bandolinista desde os 15 anos e estudante de regência da UFRJ. ‘‘Todo cara que toca bandolim tem Jacob como figura obrigatória. Ele e Luperce Miranda fizeram a história do instrumento aqui.’’
Cavaquinista do Grupo Sarau, Sérgio Prata junta Jacob com Pixinguinha e Ernesto Nazareth ‘‘na santíssima trindade’’ do choro. E reclama que no Brasil só existem sete segundos de imagem de Jacob do Bandolim. De imagem sem áudio. ‘‘Imagine, Louis Armstrong tem gravações dos anos 30. Os grandes nomes do jazz têm horas e horas de gravações nos anos 30 e 40. Do Jacob, que morreu em 1969, apenas esses sete segundos de imagem, sem som, e pouquíssimos discos em catálogo.’’
Foi por essas e outras que resolveu cuidar do acervo de Jacob do Bandolim. ‘‘No MIS, as pessoas copiavam os 78 rotações em fitas cassete. A maioria estava com sulcos, em final de linha. Uma hora esses 78 rpm quebrariam, e estaríamos perdendo, respeitando as proporções, nosso Louis Armstrong.’’
Entre os depoimentos que mais lhe chamaram a atenção, Prata cita os referentes a Chico Buarque e Edu Lobo. ‘‘Jacob dizia que Edu fazia coisas de que não gostava. Mas só o fato de ter feito Canto Triste dava-lhe o direito de fazer coisas ruins por 50 anos’’, ele ri. ‘‘Em outra fita, de uma roda de choro em Brasília, na casa da professora Neuza França, dizia que alguns compositores teriam longa duração pelo trabalho. Mas Chico Buarque atravessaria os séculos.’’