Brasília, segunda-feira, 08 de abril de 2002
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Dinheiro
Dicas de investimento


MERCADO
Conheça o mundo dos indicadores
Quem souber interpretar o vaivém da Selic, a flutuação do meio circulante ou as oscilações do dólar tem grandes chances de sucesso

Da Redação
Com Jornal do Commercio

O mercado financeiro no Brasil evoluiu. Antes, os ativos negociados nas bolsas de valores, no câmbio e no mercado aberto se orientavam mais pela suspeita do que pelos fundamentos econômicos. Segundo o vice-presidente do Comitê de Banking da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Oswaldo Calixto, a situação mudou junto com a importância dos indicadores econômicos. E hoje, conhecer esses indicadores é fundamental para determinar os ganhos dos aplicadores.

  Por ter grande influência dos movimentos especulativos, qualquer fato que possa causar um distúrbio na economia é capaz de refletir na bolsa e abalar as transações. O professor de economia do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), Antônio Carlos Assumpção, observou que muitos dos indicadores econômicos têm relação entre si e por isso os efeitos de cada um sobre o mercado financeiro não devem ser analisados isoladamente. O indicador Conta Corrente, por exemplo, mostra a necessidade de financiamento externo do país. ‘‘O país torna-se mais vulnerável externamente à medida que aumenta o déficit em Conta Corrente, indicando uma necessidade maior de financiamento em moeda estrangeira’’, avaliou. ‘‘Contudo, ao obter o recurso será necessário desvalorizar o câmbio e o Banco Central se vê obrigado a elevar os juros. Se o déficit é menor, por outro lado, talvez não seja necessário ter juros mais altos para captar.’’

  Num cenário que a taxa básica (Selic) tem de ser aumentada, o impacto no mercado acionário é perverso. Um movimento bem lucrativo nos últimos dois anos e que deu certo para quem apostou na dança dos números foi a aplicação nos chamados Fundos DI. A partir do momento em que detectou-se a possibilidade de alta da Selic, alguns investidores trocaram a Bolsa pelos ativos pós-fixados. E ganharam muito com isso.

  Segundo o gestor de renda fixa da área de Asset Management do Banco Inter American Express, Ricardo Colin, o mercado funciona o tempo todo olhando para as distorções da economia. O aumento no volume de crédito, por exemplo, significa que as empresas estão investindo mais e há perspectivas de crescimento econômico. Portanto, abre-se espaço para um corte na taxa básica de juros (Selic). O Banco Central pode optar pelo caminho inverso se perceber que o aumento do crédito está representando crescimento excessivo do consumo e, por conseqüência, dos índices de inflação.

  Oswaldo Calixto, afirma que o mercado de ações é o mais sensível à evolução dos indicadores. Por ter grande influência dos movimentos especulativos, qualquer fato que possa causar um distúrbio na economia é capaz de refletir na Bolsa de Valores. ‘‘Tudo no mercado acionário gira em torno de expectativas quanto aos assuntos mais diversos’’, declarou. Na visão do vice-presidente do Comitê de Banking da Anefac, o comportamento dos ativos de dólar e de juros têm mais coerência que o de Bolsa de Valores. Ao contrário do mercado acionário, cuja maior base para fundamentar preços é feita de especulações e estimativas.

  A correta interpretação dos fundamentos pode otimizar ganhos ou evitar grandes perdas. O economista-chefe da Sulamerica Investimentos, Luiz Carlos Costa Rego, considera o dólar o termômetro mais sensível às alterações nos fundamentos da economia. ‘‘O câmbio é o pára-choque de qualquer tumulto que aconteça. Se há um agravamento na economia da Argentina, o dólar sobe no Brasil. Desde o fim do sistema de banda cambial, em 1999, isso acontece com o dólar’’, afirmou.

  Uma escalada sem controle da moeda norte-americana compromete as metas de inflação, que por sua vez é controlada através de política monetária, que se traduz em elevação de juros. A elevação dos juros desestimula os negócios na bolsa. ‘‘É um círculo vicioso. Dólar afeta inflação, que afeta os juros, que afetam a Bolsa. Quando o mercado todo se contamina, os investidores correm em busca de proteção, que é feita através do mercado de câmbio. Essa corrida pelo dólar pressiona a cotação da moeda americana, iniciando outro ciclo’’, explicou Costa Rego.

  O cenário oposto — crescimento econômico e juros em queda — favorece as aplicações em ações. Se há crescimento econômico, há crescimento das empresas sediadas no país. E se essas empresas estão com resultados melhores, haverá reflexo nas cotações dos papéis na bolsa. No ano passado, os investimentos em ações não foram beneficiados. Para 2002, sem o racionamento de energia elétrica, a previsão é de um PIB maior (somou R$ 1,184 trilhão em 2001), o que pelo menos aponta uma possibilidade de ganhos no mercado de capitais.


Glossário básico

  • Conta corrente: Termo usado para indicar as transações comerciais entre dois países, com respectivos créditos e débitos, ou entre um país e os demais.

  • Investimento Externo Direto: O capital estrangeiro é aplicado na criação de novas empresas ou na participação acionária em empresas já existentes. O investimento é indireto quando assume a forma de empréstimos e financiamentos a longo prazo.

  • Produto Interno Bruto: Valor agregado de todos os bens produzidos e serviços prestados no país, independente da nacionalidade dos proprietários das unidades produtoras desses bens ou serviços. É medido a preços de mercado e pode ser calculado sob o aspecto da produção, da renda e dos gastos.

  • Balança comercial: Balanço de pagamentos de um país, formado pelo conjunto de todas as importações e exportações. Quando se exporta mais, obtém-se superávit e o país se torna credor do estrangeiro. Caso contrário, obtém-se déficit. Os principais fatores que influenciam a balança comercial são a evolução de preços e volumes do produto negociado.

  • Reservas cambiais: Acúmulo de divisas que um país dispõem para saldar eventuais déficits de seus balanços de pagamentos. Também é usada para lastrear a estabilidade cambial.

  • Selic: Considerada a taxa básica dos juros porque, a partir dela, os bancos definem os juros que pagarão sobre as aplicações financeiras e o quanto cobrarão em empréstimos a pessoas e empresas.

  • Meio circulante: Volume de dinheiro em circulação no sistema econômico de um país, como parte integrante dos meios de pagamento.

  • Dívida externa: Somatório dos débitos de um país, garantidos por seu governo, resultantes de empréstimos e financiamentos contraídos com residentes no exterior. Os débitos podem ter origem no próprio governo, em empresas estatais ou empresas privadas. No último caso, acontece com o aval do governo.

  • Dívida interna: Total dos débitos assumidos pelo governo junto às pessoas físicas e jurídicas residentes no próprio país. Sempre que as despesas do governo superam a receita, há necessidade de dinheiro para cobrir o déficit. A autoridade econômica tem três soluções: emissão de papel-moeda, aumento da carga tributária e lançamento de títulos.

  • Inflação: Processo de aumento geral e persistente dos preços por forças de elevação excessiva da demanda e/ou dos custos dos fatores de produção paralelamente à depreciação do valor da moeda e redução do seu poder aquisitivo.

  • Volume de crédito: Corresponde à soma de todos os empréstimos, financiamentos e repasses realizados em uma economia no período de um ano.

  • Resultado fiscal: Conseqüência da diferença entre as receitas e as despesas fiscais. Ou seja, se a receita é maior que a despesa o resultado é de superávit. Se a receita é menor, haverá déficit.
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