O mercado financeiro no Brasil evoluiu. Antes, os ativos negociados nas bolsas de valores, no câmbio e no mercado aberto se orientavam mais pela suspeita do que pelos fundamentos econômicos. Segundo o vice-presidente do Comitê de Banking da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Oswaldo Calixto, a situação mudou junto com a importância dos indicadores econômicos. E hoje, conhecer esses indicadores é fundamental para determinar os ganhos dos aplicadores.
Por ter grande influência dos movimentos especulativos, qualquer fato que possa causar um distúrbio na economia é capaz de refletir na bolsa e abalar as transações. O professor de economia do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), Antônio Carlos Assumpção, observou que muitos dos indicadores econômicos têm relação entre si e por isso os efeitos de cada um sobre o mercado financeiro não devem ser analisados isoladamente. O indicador Conta Corrente, por exemplo, mostra a necessidade de financiamento externo do país. ‘‘O país torna-se mais vulnerável externamente à medida que aumenta o déficit em Conta Corrente, indicando uma necessidade maior de financiamento em moeda estrangeira’’, avaliou. ‘‘Contudo, ao obter o recurso será necessário desvalorizar o câmbio e o Banco Central se vê obrigado a elevar os juros. Se o déficit é menor, por outro lado, talvez não seja necessário ter juros mais altos para captar.’’
Num cenário que a taxa básica (Selic) tem de ser aumentada, o impacto no mercado acionário é perverso. Um movimento bem lucrativo nos últimos dois anos e que deu certo para quem apostou na dança dos números foi a aplicação nos chamados Fundos DI. A partir do momento em que detectou-se a possibilidade de alta da Selic, alguns investidores trocaram a Bolsa pelos ativos pós-fixados. E ganharam muito com isso.
Segundo o gestor de renda fixa da área de Asset Management do Banco Inter American Express, Ricardo Colin, o mercado funciona o tempo todo olhando para as distorções da economia. O aumento no volume de crédito, por exemplo, significa que as empresas estão investindo mais e há perspectivas de crescimento econômico. Portanto, abre-se espaço para um corte na taxa básica de juros (Selic). O Banco Central pode optar pelo caminho inverso se perceber que o aumento do crédito está representando crescimento excessivo do consumo e, por conseqüência, dos índices de inflação.
Oswaldo Calixto, afirma que o mercado de ações é o mais sensível à evolução dos indicadores. Por ter grande influência dos movimentos especulativos, qualquer fato que possa causar um distúrbio na economia é capaz de refletir na Bolsa de Valores. ‘‘Tudo no mercado acionário gira em torno de expectativas quanto aos assuntos mais diversos’’, declarou. Na visão do vice-presidente do Comitê de Banking da Anefac, o comportamento dos ativos de dólar e de juros têm mais coerência que o de Bolsa de Valores. Ao contrário do mercado acionário, cuja maior base para fundamentar preços é feita de especulações e estimativas.
A correta interpretação dos fundamentos pode otimizar ganhos ou evitar grandes perdas. O economista-chefe da Sulamerica Investimentos, Luiz Carlos Costa Rego, considera o dólar o termômetro mais sensível às alterações nos fundamentos da economia. ‘‘O câmbio é o pára-choque de qualquer tumulto que aconteça. Se há um agravamento na economia da Argentina, o dólar sobe no Brasil. Desde o fim do sistema de banda cambial, em 1999, isso acontece com o dólar’’, afirmou.
Uma escalada sem controle da moeda norte-americana compromete as metas de inflação, que por sua vez é controlada através de política monetária, que se traduz em elevação de juros. A elevação dos juros desestimula os negócios na bolsa. ‘‘É um círculo vicioso. Dólar afeta inflação, que afeta os juros, que afetam a Bolsa. Quando o mercado todo se contamina, os investidores correm em busca de proteção, que é feita através do mercado de câmbio. Essa corrida pelo dólar pressiona a cotação da moeda americana, iniciando outro ciclo’’, explicou Costa Rego.
O cenário oposto — crescimento econômico e juros em queda — favorece as aplicações em ações. Se há crescimento econômico, há crescimento das empresas sediadas no país. E se essas empresas estão com resultados melhores, haverá reflexo nas cotações dos papéis na bolsa. No ano passado, os investimentos em ações não foram beneficiados. Para 2002, sem o racionamento de energia elétrica, a previsão é de um PIB maior (somou R$ 1,184 trilhão em 2001), o que pelo menos aponta uma possibilidade de ganhos no mercado de capitais.