Brasília, terça-feira, 21 de maio de 2002
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Delírios de uma noite metaleira

500 testemunhas do Saxon, banda de heavy metal na terceira idade, assistem a show histórico em Brasília e nossos repórteres contam a história

João Luiz Marcondes e Jorge Cardoso (fotos)
Da equipe do Correio


 
O vocalista sexagenário Beef Byford tenta animar a galera
 
A multidão se concentra antes do início da celebração
 
Noite de domingo. Quero fugir de casa. De grandes irmãos e artistas da Casa. Meu cérebro, cansado de fazer nada, não pensa em algo melhor que um cineminha. Mas, antes que me aventure em programa tão cândido, o telefone toca. O dever me chama. Jorge Cardoso — um metaleiro transgênico (que curte de forró a Sepultura) — convoca para o show da, segundo ele, fantástica e excepcional banda Saxon, da qual não conheço nenhuma música. ‘‘Vamos trabalhar’’, intima o fotógrafo. O local do concerto: salão social do Minas Tênis Clube.

  Pronto, heavy metal. Aquela maçaroca sonora tonitruante. Tal qual um guerreiro que parte para a batalha, visto a armadura, digo, minha camisa preta do The Doors com cheiro de naftalina há anos esquecida na gaveta. A intenção é ser bem recebido no enegrecido cenário da pauta. Encontro o Jorge de bermuda, camisa de caveira. Antes de entrar em campo, penso em guerras ainda mais árduas naquela noite. Bruno e Marrone, em Sobradinho. Maria Bethânia, no Teatro Nacional. Yes. Me dei bem.

  Saxon é uma espécie de Iron Maiden que não deu certo. Quer dizer, a galera diz que os caras tocam muito, são geniais, etc e tal. Até acredito. Mas enquanto o Maiden se apresentou outro dia para 250 mil pessoas no Rock in Rio, os saxões estão na domingueira do Minas, para, sendo otimista, umas quinhentas testemunhas. É este o parâmetro de ‘‘não deu certo’’, com respeito aos fãs dos ingleses.
  
Hora da concentração
Chegamos à concentração heavy metal. Está calmo, paramos o carro na porta. A galera se concentra em volta de porta-malas abertos e ouve metal no talo. Um pai, bem penteado, de óculos, vestido de roupa social, deixa o filho de 12 anos, de preto, na porta do evento. A expressão em seu rosto é a de quem está entregando o rebento fresco a um abatedouro de doentes psiquiátricos. Um sujeito vende bebidas no isopor. O item de maior sucesso entre os metaleiros, a R$ 2, é o conhaque Dreher, o néctar das divindades pés-inchados. Curiosa é a embalagem plástica — tipo aquelas bebidas isotônicas de malhador, modernosa, dourada. ‘‘Dá para colocar debaixo da blusa e os seguranças não encrencam porque não é lata ou vidro’’, tira vantagem o comerciante.

  Estamos lá, meio que tentando entrar no clima, que, por sinal, está de derrota total. Pouca gente. 20h. Ingressos a R$ 40. Minas Tênis. A banda de abertura, Heavens Guardian (‘‘O guardião do Paraíso’’), de Goiânia, já está tocando. Não nos arriscamos. Do lado de fora dá para ouvir a garganta que tomou vida própria: ‘‘Uóóóóóóó! Aaaaaaaaaaah! Uuuuuuuuuu!’’. O som vem do esôfago do artista, que parece estar sofrendo uma intervenção cirúrgica debaixo das unhas. Sem anestesia.

  Antes de adentrarmos o recinto, a segurança faz um pente fino. Alguns metaleiros, com correntes e adereços metálicos e pontiagudos, sofrem para passar dos camaradas de terno de gravata, cabelo bem cortado e walkie talkie-fone de ouvido. ‘‘Pô, faz parte do procedimento’’, resmunga um cabeludo. Outro banger só quer saber de mostrar o ingresso, que tem número de série 666 (da besta apocalíptica). ‘‘Pô, cabuloso’’, fica de cara o amigo. Depois de estufar o peito orgulhoso, ele, enfim revela. ‘‘Não...eer... é que escolhi na hora de comprar.’’ O segurança não quer saber de refresco. Olha a caneta em minha mão com desconfiança. Pega, gira o dispositivo que dá a ponta. Na certa imagina que eu tenha alguma arma atômica estilo 007.
  
Clima épico
Entramos. Jorge encontra Édson, de 41 anos. Camarada de outros eventos podreira. Mais heavy metal que o sujeito, impossível. Veio da Cidade Ocidental, em Goiás, de moto. ‘‘Viria até a pé para ver o Saxon’’, diz, emocionado. Atual motorista de ambulância, ex-piloto de carro de funerária, conta que certa vez, logo ao mudar de emprego, estava lá, tranqüilão, dirigindo, quando o paciente bateu em suas costas: ‘‘Vamos mais rápido’’. Édson quase caiu para trás, confundindo o cara com os antigos clientes da funerária — bem mais silenciosos.

  Apesar de vazio, um clima épico, inebriante toma conta do salão. Chego junto a três espécies fêmeas metaleiras. Elas, as damas (como está escrito na porta do banheiro), são minoria, mas não menos empolgadas. Mônica, uma professora de ensino fundamental, confessa que não é roqueira e sim headbanger (algo como ‘‘chacoalhador de cabeças’’). ‘‘Rock é muito abrangente. Quem ouve Legião Urbana também pode ser roqueiro’’, ensina a moça, trajada e maquiada de preto, com uma cruz balançando no pescoço. ‘‘E você gosta de Legião?’’, pergunto, com inocência, ao que ela me responde com um expressão de nojo.

Depois de algumas explicações sobre o heavy metal way of life, as luzes se apagam. Grande momento. A galera ergue os braços em saudação e delírio. ‘‘Saxon, Saxon, Saxon.’’ Sim, o Saxon, uma lenda do rock pesado, com três décadas de história, no salão social do Minas, para meia dúzia de fanáticos. Inacreditável.

  A fumaça invade. Trovões rugem. Brumas de Avalon. Os cavaleiros do apocalipse sobem ao palco. Cinco coroas com barriga denunciante de uma vida desregrada. Quatro cabeludos e outro, por estar em falta com o adereço metaleiro, usando lenço na cabeça. O som dos caras contagia o público. Não há terreiro de macumba ou exorcismo que seja mais intenso do que sente e vibra essa galera. Minha cabeça, empolgada, declara impeachment aos neurônios e começa a fazer movimentos para a frente e para trás. O vocalista Beef Byford é catarse pura. Parece ter uns 60 anos. Como se o Helmut Kohl, depois de uma megadose de anfetaminas, vestisse uma peruca loura, fitinha na testa, sobretudo e calça de couro colada.

  O cara canta ensandecidamente, faz boquinhas, bota a mão nos colhões. O roquenrol, perdão, heavy metal, sofre com a péssima acústica do salão social, mas os devotos poucos se importam, afinal vivem momento sagrado. Cadê Jorge? O cara esqueceu equipamento de lado e agora dança alucinadamente. ‘‘Do c...’’, balbucia com voz embargada, olhos rasos d’água.

  Depois de duas horas, os fiéis estão arrasados psicologicamente, tamanha a dádiva. Alguns se ajoelham no chão e saúdam os sultões do metal. Outros pagam tributo aos amplificadores, que em determinado momento assemelham-se ao muro das lamentações. Minhas pernas doem, meus ouvidos estão abafados — com um zunido renitente que persistiria até a manhã seguinte. E o fotógrafo? Bem, Jorge não tem mais palavras. Hora de irmos embora.

 
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Terça
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 Ele e nós
 Juscelino e o poder



         
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