Brasília, terça-feira, 21 de maio de 2002
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INTERNET
Livros feitos de bytes

Publicações virtuais estão cada vez mais comuns. A Rede mundial é um novo espaço, voltado a pessoas que não conseguem chances no restrito mercado editorial brasileiro

Da Redação

Fotos: Antônio Siqueira
O professor universitário Paulo Nascentes tem poemas, crônicas e um romance na rede, que gostaria de ver impressos: “a internet ainda tem suas limitações”, justifica
 
Oito anos depois da publicação virtual, Alen conseguiu editar seu livro
 
Publicar um livro não é nada fácil para escritores ainda desconhecidos no mundo das letras. Autores afoitos por verem suas obras impressas esbarram no descaso de muitos editores, que nem ao menos lêem o que lhes chega às mãos, ou, quando se dispõem a bancar sozinhos os custos, descobrem que os preços são além da imaginação. Uma tiragem de mil cópias, ideal para quem está começando, com 100 páginas cada uma, por exemplo, dificilmente sai por menos de R$ 3 mil. A falta de oportunidade e de dinheiro está fazendo com que milhares de escritores busquem na Internet a chance de mostrar seus trabalhos gratuitamente ou por um valor bem mais acessível. E muitos abriram as portas do sucesso pela Rede.

  ‘‘A Internet é um veículo muito forte para suprir a necessidade que nós escritores temos de fazer uma ligação com o leitor’’, diz o escritor e estudante de Jornalismo Alen Guimarães. Ele conta que chegou a procurar algumas editoras na tentativa de publicar os textos que tinha reunido, mas, sem obter resposta, optou por colocá-los na Rede. Oito anos após a sua primeira publicação virtual, o estudante conseguiu realizar o sonho. Seus poemas foram lidos pela editora Casa do Novo Autor, e o jovem de 23 anos foi convidado a publicar alguns de seus textos na obra Palavras de Amor, que reuniu mais de 80 autores na Bienal do Livro, em São Paulo.

  Logo depois, veio o segundo convite, da Oficina Editores, para uma nova publicação. A coletânea Oficina 29, com os poemas de Alen e outros, circula inclusive na Europa, traduzida para inglês, francês e italiano. ‘‘Não tenho nem palavras para dizer a euforia que senti. A oportunidade de participar de um livro é um reconhecimento, a valorização do meu trabalho’’, conta o autor.

  Mas nem todos têm a oportunidade de Alen. O professor da faculdade de Letras da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Nascentes confessa que aguarda uma chance para que possa ver impressos alguns de seus poemas e crônicas, que hoje estão espalhados por sites da web, e o livro virtual Sobre Vida, escrito há pouco mais de um ano. ‘‘Apesar de já ser bastante abrangente, a Internet ainda está em expansão e tem algumas limitações’’,
acredita Paulo.

‘‘É uma via-crucis conseguir publicar um livro impresso, e a intenção do nosso site é atender àquele autor que não teve sua obra bancada por uma editora tradicional’’, diz o professor de Informática Nelcides Raymundo, editor do www.evirt.com.br, um entre as centenas de sites gratuitos que abrigam textos e livros de novos escritores. Segundo Nelcides, muitos de seus autores virtuais foram descobertos por editores e assinaram contrato com eles. Para facilitar a comunicação entre autores e editoras, alguns sites, como www.hotbook.com.br, oferecem serviço de assessoria de divulgação para os que disponibilizam seus livros virtuais na página e que pagam R$ 50 por mês pelo serviço. Segundo Roberta Rizzo, coordenadora do Hotbook, isso tem ajudado as editoras a descobrir grandes talentos, com um alto número de downloads.

  O número de escritores adeptos à Internet para a divulgação de seus textos é crescente. Gustavo Dourado, presidente do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, acredita que em todo o país devam existir mais de dez mil escritores virtuais, mas ressalta que não há como obter um registro oficial, pois ainda não existe um órgão que fiscalize isso. Por enquanto, eles estão congregados a diversas páginas de encontro de autores virtuais e a e-groups.

  A Academia Virtual Brasileira de Letras (www.avbl.com.br), fundada há seis meses pela professora de Língua Portuguesa Maria Inês Simões, já reúne 152 integrantes de todo o país, representados por seus poemas, contos ou crônicas. Além de publicar textos, o site funciona como um espaço para intercâmbio de sugestões e idéias, e também para o encontro virtual dos literatos. ‘‘É uma nova época na literatura brasileira, porque a poesia na web, por exemplo, não é só texto; é também o som, as cores, os desenhos’’, explica Maria Inês, que reside em Bauru (SP). E a professora vai além: ‘‘É um novo movimento poético’’, diz. ‘‘Ao abrir oportunidades, a Internet está reavivando a literatura’’, concorda Gustavo Dourado, um dos integrantes da Abvl.

 
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