Brasília, domingo, 26 de maio de 2002
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Novas Tendências
Padarias sofisticadas

Donos de panificadoras do Distrito Federal oferecem café da manhã reforçadoe almoço econômico para atrair mais clientes e ampliar margem de lucro. Investimentos nos produtos são altos, mas o lucro cobre todas as despesas

Luciana Vieira de Sousa
Da equipe do Correio

Carlos Moura
Admilson reformou a padaria Hollywood na Avenida Central do Núcleo Bandeirante: ‘‘Queríamos qualidade, higiene e boa administração para evitar o desperdício’’
 
As padarias já não são mais as mesmas. Ponto tradicional de venda de pão e leite, os estabelecimentos diversificam seus produtos e serviços para atrair mais clientes. Seguindo uma tendência do Sul e Sudeste do país, as padarias brasilienses estão se transformando em misto de confeitarias e restaurantes. O objetivo é aproveitar ao máximo o espaço físico e a estrutura, incluindo maquinário e pessoal.

  Já é possível encontrar algumas padarias que pela manhã cedo oferecem pão (com uma grande variedade), ao meio-dia pratos prontos e, à noite, queijos e salgados como acompanhamento de uma cervejinha. Com o objetivo de incrementar ainda mais a lista de produtos oferecidos, as padarias estão investindo também em serviços como realização de festa, levando inclusive os garçons.

  A inovação tem seus motivos. Os empresários afirmam que as padarias não têm mais condição de sobreviver apenas com a venda do tradicional pão francês. O dono da padaria Hollywood, no Núcleo Bandeirante, Admilson Borba de Oliveira, 43 anos, afirma que o pão hoje é apenas o chamariz do estabelecimento. ‘‘O pão não proporciona volume de caixa’’, diz. Ele assegura ser inviável, por exemplo, fazer pagamento dos salário de funcionários com o lucro do pãozinho. ‘‘O salário de um bom padeiro não fica por menos de R$ 1 mil, e os custos de uma padaria não se restringem a isso’’, contabiliza.

  A padaria Hollywood ilustra a transformação gradual do setor. Até o final do ano passado, ela funcionava na Avenida Central do Núcleo Bandeirante, em um modesto prédio onde vendia pães e produtos de mercearia. Admilson e seu irmão, Adilson, mudaram para outro prédio alugado, compraram novo maquinário e contrataram mais pessoas, investiram em treinamento com a contratação de consultores e padeiros, de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. ‘‘Queríamos qualidade, higiene e boa administração para evitar o desperdício’’, enumera. Resultado da conta: foram utilizados R$ 320 mil. Mas o empresário está satisfeito com as conseqüências do que investiu. Desde janeiro, o faturamento da padaria Hollywood aumentou 60%.

  Além de pão, a panificadora do Núcleo Bandeirante oferece tortas variadas, pastas, massas e frios. Há mesas e cadeiras para quem quer comer ali mesmo o que comprou. O sábado é o dia de maior movimento dessa clientela, com uma média de 200 pessoas no café da manhã.

  Com as vendas acima do esperado, o empresário planeja ir mais além. Oliveira pretende oferecer o bufê completo de café da manhã e almoço econômico, parecido com os sanduíches vendidos pelas redes de fast food. Para colocar o plano em prática, Barbosa espera apenas desocupar a sala ao lado da padaria para ampliar o espaço do estabelecimento.

  O dono da Pão Siciliano, na 103 do Sudoeste, Elson Tadeu Mendes, 54 anos, também está satisfeito com os novos serviços. Há dois meses, ele oferece aos domingos bufê de café da manhã, das 8 às 13 horas. Cada pessoa paga R$ 5 para se servir livremente. Uma média de 120 pessoas freqüenta o local nesse dia, movimento acima das expectativas do empresário, que esperava um público de 40 pessoas. Mendes investiu R$ 6 mil para oferecer o novo serviço, que corresponde a 15% do faturamento da empresa. Depois de conhecer estabelecimentos em São Paulo e Minas Gerais, ele também quer vender pratos prontos para serem consumidos em casa no almoço, como salpicão, frango e lombo assado.


Pressão dos clientes
José Varella
Guilherme e Edna decidiram montar um restaurante junto à padaria por causa dos pedidos dos fregueses
 

  A padaria Maximo Pani, na QI 11 do Lago Sul, nasceu com a proposta de fazer diferença funcionando 24 horas nos sete dias na semana. ‘‘Queríamos oferecer novos serviços e outras opções para nossos clientes’’, conta Edna Garcia Costa Manso, dona do estabelecimento junto com o marido, Guilherme Costa Manso.

Mas o casal não pensava que a panificadora ia ser a mais ousada do Distrito Federal. Quando foi inaugurada, os clientes podiam comer os produtos do estabelecimento em uma das mesas colocadas em frente à loja.

  Depois, os freqüentadores pediram a criação de um bufê de café da manhã. E não era só isso que queriam. Sugeriram um chá da tarde. Em seguida, exigiram refeições. Tantos pedidos resultaram na ampliação da padaria. O casal investiu R$ 100 mil e, em janeiro, abriu o restaurante instalado junto com a padaria. Edna conta que o objetivo da expansão foi de diversificar o seu público.

Inglês
Na época em que existia apenas o espaço da padaria, o estabelecimento era freqüentado basicamente por moradores do Lago Sul e dos condomínios da região. Com a instalação dos bufês, vieram pessoas de outras cidades do Distrito Federal, principalmente do Lago Norte e das asas Sul e Norte. ‘‘A padaria, que não é separada do restaurante, tornou-se um ponto de encontro das pessoas’’, diz Edna.

De fato, o ambiente sofisticado de 180 metros quadrados, que também oferece pratos finos, atrai muitos clientes ilustres. É possível encontrar lá o ministro da Fazenda, Pedro Malan, comprando um pãozinho. Ou o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, almoçando.

  Outro diferencial da Maximo é cardápio em inglês, o que tem atraído muitos diplomatas estrangeiros. Enfim, com tantas opções, o estabelecimento recebe pessoas de todas as faixas etárias. Dos jovens e adolescentes que vão comer um sanduíche de madrugada ao homem que vai tomar drinque; da mulher que vai comprar pão ou tomar um chá da tarde à família que vai jantar.

Expresso
O serviço diferenciado está agradando. O estudante Guilherme de Souza Pinto, 19 anos, é freqüentador da Maximo desde outubro. Ele vai à padaria quando volta de festas e também para tomar um simples café expresso enquanto lê algum livro. ‘‘Gosto de vir aqui porque é um ambiente tranqüilo’’, diz.

  Embora oferecendo tantos serviços e produtos capazes de deixar qualquer um com água na boca, o pão francês continua sendo a estrela da casa. ‘‘Ele é o formador de opinião. Não adianta oferecer uma torta ou um prato maravilhoso se o pãozinho for ruim’’, explica a empresária. Diariamente, são vendidos uma média de 2 mil pães franceses. No total, a panificadora tem uma variedade de 180 pães.(LVS)


Mudar para não quebrar

  O presidente do Sindicato da Indústria da Alimentação de Brasília (Siab), Jaime Alarcão, explica que a diversificação dos produtos e serviços foi uma das alternativas encontradas para aliviar os constantes reajustes de preço da farinha de trigo, corrigidos pela variação cambial. Segundo ele, 70% das farinhas utilizadas na fabricação de pães são importadas.

  Nos últimos cinco anos, 16% das panificadoras fecharam as portas. O mesmo cenário se repetiu no restante do país. Para reverter essa situação, a Associação Brasileira da Indústria da Panificação e Confeitaria (ABIP) e a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) desenvolveram o Programa de Apoio à Panificação (Propan). O programa tem como finalidade oferecer treinamento especializado a empresários e funcionários do setor por meio de cursos de atualização tecnológica. ‘‘Queremos transformar as padarias em ambiente para toda a família, já que é o estabelecimento mais próximo de casa’’, afirma o presidente do Siab, Jaime Alarcão.

  Alarcão acrescenta que as padarias desistiram de tentar competir com os supermercados no que diz respeito à seção de mercearia. ‘‘Queremos oferecer uma maior variedade de pães, roscas, salgados e ampliar a parte de queijos e pastas’’, diz. Também há mais serviços, como café damanhã, chás e festas em geral. Outro ponto destacado pelo presidente é o novo visual oferecido pelos estabelecimentos. Muitos deles, principalmente no Plano Piloto, estão mudando fachadas, trocando de balcões e adquirindo maquinários mais modernos.

  Das 1.100 padarias do Distrito Federal, 50 já estão com esse padrão. A previsão é que neste ano, mais 50 estabelecimentos sofram alterações e se adequem ao novo perfil proposto pelo Propan. (LVS)

 
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