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A moda está no ar
Das meias de lurex da personagem de Sônia Braga em Dancin’Days às jóias de Jade, as telenovelas ditam tendências e padronizam o consumo Brasil afora
Da Redação
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Letícia Spiller - a Babalu de Quatro por quatro
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| Luiza Dantas/Carta Z |
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Teresa Seiblitz - Vida cigana em Explode coração
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Regina Duarte - a extravagante Porcina de Roque santeiro
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| Acácio Pinheiro 6-3-99 |
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Débora Bloch - ditando moda em Andando nas nuvens
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Giovana Antonelli - onda oriental de O clone
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Não precisa ir muito longe. Em qualquer loja ou feira da cidade são várias as opções de blusas esvoaçantes no melhor estilo Jade ou de bijuterias que imitam a arte das Arábias. Antes da onda oriental ditada pelo mais recente sucesso global, invadiram as lojas nas últimas décadas as camisas masculinas com gola Flamel, as minissaias da Babalu, os tamancões da Sandrinha e vai por aí. Produtos expostos numa vitrine em comum: as telenovelas. Aliás, não é de hoje que os folhetins assumem o papel de incentivadores de moda e do consumo, mas junto com o figurino do ator preferido, os telespectadores chegam a adotar um comportamento para se parecer com seus ídolos.
Para a pesquisadora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a antropóloga Heloísa Buarque de Holanda, as novelas educam os telespectadores para viver na sociedade de consumo. Enquanto o empresário bem sucedido do enredo desfila com seu carro importado, estacionado na sua mansão de três andares, a suburbana que rala o dia todo para sustentar o filho se contenta em pegar o ônibus e desfrutar do conforto na casa humilde. Tudo, claro, com o glamour próprio das novelas. ‘‘As pessoas aprendem que ter acesso a diferentes bens faz parte da distinção social’’, explica Heloísa.
Nada mais natural, portanto, de constatar que são as super-mulheres e homens maravilhosos das novelas os personagens que ditam a moda no mundo dos simples mortais. ‘‘Ao assistir as novelas, as pessoas se familiarizam com os estilos de vidas, formas de agir e sentir dos personagens, e as atitudes desses mesmos personagens têm relação com os produtos que eles utilizam’’, resume a antropóloga.
E haja gente vendo novelas e sendo influenciada pela vitrine televisiva. Segundo o censo de 2000, pelo menos 40 milhões, das 44 milhões de residências do país incluídas na pesquisa, têm um televisor na estante: quase a totalidade dos lares brasileiros.
Mesmo pessoas mais avessas a modismos acabam sendo influenciadas. É o caso da estudante de odontologia Ludmila Saliba, 19 anos, que garante resistir a todo custo às tentações da cultura de massa, mas admite não ter resistido aos apelos de O Clone: ‘‘Ao ver a dança do ventre pela televisão, você percebe o tanto que a dança é sensual e até dá vontade de fazer’’. Dito e feito: retomou as aulas da dança importada do Oriente. Só dispensou mesmo a pulseira-anel de Jade, a perso-nagem de Giovana Antonelli.
De longa data
Há décadas os brasileiros adotaram entre seus hábitos a assimilação de modelitos, gestos, cabelos e mesmo jargões de personagens de novelas. ‘‘São em geral personagens bem sucedidos destilando aos nossos olhos padrões de comportamento que as pessoas tentam perseguir’’, analisa a professora Maria de Lourdes Motter, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Telenovela da Universidade de São Paulo (USP). Em busca de alguma semelhança com a fantasia, vale até adotar as roupas de cetim e as meias brilhantes da personagem de Sônia Braga, na novela Dancin’Days, 24 anos atrás. Ou aderir ao guarda-roupa country — cintos largos, botas finas e calças justas — como na novela O Rei do Gado, de 1997. Ou brincar de vida cigana, inspirada em Explode Coração, quando Teresa Seiblitz desfilava com saias e cores extravagantes.
Quem também não se lembra da bolsa de uma alça só que deixava mais elegante o visual de Débora Bloch, na pele da jornalista de Andando nas Nuvens? A moda surgiu quase quatro anos atrás, mas ainda há quem guarde no armário um dos exemplares do acessório que virou febre entre as moçoilas. A estudante Renata Bernardon, 22 anos, tem uma. Vaidosa, ela assume que gosta de andar nos trinques e muitos de seus modelitos chiques são inspirados nas beldades globais. ‘‘Como a minha mãe tem uma loja de roupas femininas, ela traz muitas peças de outras cidades que são iguais às das novelas. Gosto do modismo. Se for legal, eu uso mesmo’’, admite.
Na vitrine da telenovela, a estudante já elegeu como objetos de consumo os tamancos e minissaias de Letícia Spiller, a ciumenta Babalu, de Quatro por Quatro (1994). Para compor, na vida real, o visual da personagem, a jovem ainda comprou chapinha, descoloriu o cabelo e cortou os fios modelo chanel. Exagero? ‘‘A novela serve mais como modelo para as roupas, mas sempre tendo a escolher aqueles usados pelas mais chiques ou mais bonitas’’, explica Renata. Hoje, ela desfila com batas e cabelos escuros e franjinha, à la malvada Selma (Alessandra Negrini), de Desejos de Mulher.
‘‘Brega isso, né?’’, brinca Renata. Segundo os pesquisadores, nada mais normal do que tentar, mesmo que inconscientemente, imitar um ídolo ou um modelo de admiração. ‘‘Faz parte do ser humano a capacidade de imitar o outro que não vive dentro da mesma realidade, assim como a vaidade. A Globo tem muita credibilidade na classe média, por isso lança um comportamento e ele passa a ser socializado.’’, explica Tânia Montoro, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB).
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Objetos de desejo
Atendendo às fãs que ligavam para a Rede Globo atrás da cor do batom de uma atriz ou da marca do vestido de outra, a emissora decidiu facilitar a vida dessas pessoas e oferecer os produtos de mais sucesso. Desde o ano 2000, a Central Globo de Desenvolvimento Comercial criou a Globoshop para vender peças do figurino ou enfeites dos cenários das novelas. Pelo site globo.com ou pelo Shoptime, o telespectador leva para casa um dos objetos de desejo.
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Modismos através dos tempos
Dancin’Days (1978): Lançou a moda das meias de lurex que faziam par com as sandálias de plástico e as roupas de brilho da personagem de Sônia Braga
Roque Santeiro (1985): Viúva Porcina, interpretada por Regina Duarte, encantou com suas bijuterias espalhafatosas, lenços coloridos e turbantes
Ti-ti-ti: O batom Boka Loka, criado pelo estilista da novela, viraram febre na vida real
Rainha da Sucata (1990): Os laçarotes e a franjinha reta, esticada com gel, de Maria do Carmo foram copiadas pelas mulheres do Brasil afora
Fera Ferida (1993): Edson Celulari esbanjou charme nas camisa sem gola. Os homens gostaram e imitaram a moda do alquimista Flamel
Quatro por Quatro (1994): A bela Letícia Spiller abusou das saias curtas e dos tamancos altíssimos na pele da Babalu
Torre de Babel (1998): Adriana Esteves lançou moda na pele da vilã Sandrinha, que não dispensava o cinto fino de strass e nem o tamanco plataforma. Era só no sapatinho
Andando nas Nuvens (1999): Todo mundo queria uma bolsa de uma alça só, igualzinha a da personagem de Débora Bloch, a jornalista Júlia Montana
Uga-Uga (2000): Os tererês e pulseirinhas da personagem de Mariana Ximenes, a Bionda, viraram jóias e peças de camelôs
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