Brasília, segunda-feira, 03 de junho de 2002
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Língua solta

 
  Língua solta

A conversa

Eles disseram
‘‘As línguas falam. O fogo alumia. Para converter almas, não bastam palavras. São necessárias palavras e luz.’’ Padre Vieira


Por Dad Squarisi

  A história é antiga. Vem desde a escola primária. Naquele tempo, o professor falava nas pessoas do discurso. Explicava, dava exemplos. Mas a meninada não estava nem aí. Só pensava nos namorinhos que pintavam no recreio.

  Resultado: os anos passaram. Novos assuntos surgiram. E as pessoas do discurso ficaram pra trás. Mas causam estragos. Por causa delas, muitos tropeçam no emprego dos demonstrativos este, esse, aquele.

  Você joga nesse time? Antes de responder, faça o teste. Primeiro, leia o poema de Manuel Bandeira. Depois, preste atenção às afirmações. Se forem certas, escreva V, de verdadeiro. Se erradas, F, de falso. Por fim, marque a seqüência nota mil.
  
Irene no céu

  Irene preta
  Irene boa
  Irene sempre de bom humor.
  
  Imagino Irene entrando no céu:
  — Licença, meu Branco?
  E São Pedro, bonachão:
  — Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

  
  ( ) No 1º diálogo, Irene é a 1ªpessoa; São Pedro, a 2ª; o pedido de licença, a 3ª.
  ( ) No 1º diálogo, Irene é a 2ªpessoa; São Pedro, a 1ª; o narrador, a 3ª.
  ( ) No 2º diálogo, São Pedro é a 1ªpessoa; Irene, a 2ª; a concessão da licença, a 3ª.
  ( ) No 2º diálogo, São Pedro é a 2ªpessoa; Irene, a 1ª; a 3ªpessoa não aparece.
  ( ) No diálogo, há revezamento das pessoas. A primeira passa a ser segunda. A segunda vira primeira.
  
  a. V, F, V, F, V
  b. F, V, F, V, V
  c. V, F, V, F, F
  d. F, V, F, V, F
  
  Marcou a letra a? Pra lá de certo. Você foi bom aluno. Conhece os mistérios das pessoas do discurso.

  Marcou outra letra? Nada feito. Na escola, você gostava de uma paquerinha. Não estava nem aí pras aulas. Agora, é hora de correr atrás do tempo perdido. Respire fundo. Arregace as mangas. E mãos à obra.
  
Pessoas do discurso

  Sabe o que significa ‘discurso’ quando falamos em pessoas do discurso? A palavra pomposa quer dizer ‘conversa’. As pessoas do discurso são os participantes de uma conversa.

***



  No bate-papo, aparecem três figuras:
  1. Alguém fala. É a 1ªpessoa. Se singular, vem representada pelo pronome pessoal eu. Se plural, nós.
  2. Quem fala fala com alguém. O alguém é a 2ª pessoa. Se singular, vem representada pelos pronomes tu, você, Vossa Senhoria, Vossa Excelência e tantos outros. Se plural, vós, vocês, Vossas Senhorias, Vossas Excelências. E por aí vai.
  3. Quem fala fala com alguém sobre determinado assunto. O assunto é a 3ªpessoa. A gente pode falar sobre uma pessoa, um animal, uma coisa. Vale tudo. Ele, ela, Sua Senhoria, Sua Excelência e tantos outros são pronomes de 3ªpessoa.

Irene no céu

  No 1º diálogo do poema, quem fala? É Irene. Ela é a primeirona. Com quem ela fala? Com São Pedro. É a segundona. De que eles falam? Do pedido de licença. É a terceirona.
  No 2º diálogo, a situação se inverte. São Pedro fala. Irene escuta. O assunto? A autorização para entrar no céu.
  
Mãos à obra

  Leia o diálogo:
  Paulo — Você vai ao cinema?
  Maria — Vou.
  
  Na conversa:
  a. Paulo é a 1ªpessoa; Maria, a 2ª; a ida ao cinema, a 3ª.
  b. Maria é a 1ªpessoa; Paulo, a 2ª; a ida ao cinema, a 3ª.

***


  A resposta? Só na segunda.

***


  Na segunda passada, você aprendeu que a vírgula faz a diferença. Nas orações adjetivas, o sinalzinho separa as explicativas. Nas restritivas, ele não tem vez. Qual a opção nota dez?
  a. Minha mãe, que mora em São Paulo, trabalha no Banco do Brasil.
  b. Minha mãe que mora em São Paulo trabalha no Banco do Brasil.
  Marcou a letra a? Pra lá de certo. Eu só tenho uma mãe. A oração ‘que mora em São Paulo’ é explicativa.
  Preferiu a letra b? Bobeou. A frase diz que eu tenho mais de uma mãe. Mentira!
 
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