Brasília, domingo, 09 de junho de 2002
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Dr. Márcio Lisbôa
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Por que as crianças e os adolescentes mentem?


  As crianças são seres tremendamente honestos. Não costumam mentir sem uma razão, embora tenham a capacidade de fazê-lo a partir dos três anos e, aos quatro, praticamente todas mintam. Dos três aos sete, a mentira pode ser considerada como fazendo parte do seu desenvolvimento, e não deve ser motivo de grande preocupação. Entretanto, aquelas com mais de dez anos — os adolescentes —, quando mentem, geralmente o fazem por mecanismos compensatórios ou imitativos, exigindo diagnóstico preciso para que se tomem as medidas corretivas necessárias.
  Por que as crianças mentem? As razões são as mais variadas e talvez sejam melhor entendidas se exemplificadas. Paulinho, 5 anos, diz para a mãe que quebrou um vidro da sala, o que lhe valeu uma tremenda surra. Algum tempo após, descobriram que alguém havia mexido no computador do pai. Paulinho, inquirido, embora culpado, negou que tivesse sido ele. Nada lhe aconteceu. Mentiu por medo de ser punido; como nada aconteceu, aprendeu a se proteger atrás da mentira.
  A mentira para enganar é a mais comum e a mais perigosa, predominando em famílias com pais severos, que castigam as crianças com freqüência. Muitas vezes, para fugir à punição, a criança culpa outras pessoas ou até animais. Quando isso acontecer, os pais deverão agir no momento oportuno, o que significa o mais rapidamente possível, com tranqüilidade e firmeza, em local adequado, evitando a presença de outras pessoas e ouvindo sempre as razões da criança. Devem mostrar o que ela fez de errado, se necessário a repreender e, finalmente, perdoá-la.
  Marianinha ouve os pais mentirem o dia todo: no telefone, com as visitas, com as empregadas, para ela, e até um com o outro. Prometem coisas e não cumprem, dizem que vão levá-la ao parquinho e a levam ao dentista. Marianinha se tornará uma pessoa mentirosa, pelo exemplo ou pela imitação.
  As crianças vivem num mundo próprio, onde a realidade muitas vezes se confunde com a imaginação. Isso faz com que Cláudia misture o real com o imaginário, quando conta o que viu e ouviu, às vezes esquecendo o que é importante e descendo a detalhes freqüentemente inverossímeis. A mãe acha que a menina mente, quando na realidade ela fantasia. Isso é muito comum em crianças e faz parte de seu desenvolvimento. São as chamadas mentiras faz-de-conta. Com o amadurecimento, as crianças ficam mais objetivas e conseguem separar o real do imaginário.
  Será que se pode considerar a fantasia como mentira? Acredito que não, pois mentira é algo que se fala contra o que se pensa, com intenção de enganar, o que não o caso da criança que fantasia. Martinha tem 12 anos e é uma filha muito querida, porém não tem bom rendimento escolar. Chega em casa e diz aos pais que a professora acha que ela é a melhor aluna da classe. Os pais se alegram e querem detalhes. Martinha cai em contradições. Mentiu para se beneficiar, para subir no conceito dos pais.
  As crianças que utilizam a mentira por interesse, assim agem para tentar melhorar sua auto-estima, para justificar suas faltas, para ficar bem com os parentes, e, quando descobertas em flagrante, costumam negar que estejam mentindo.
  Muitas vezes a falta cometida é de caráter moral ou sexual, como masturbação. Ver menininhas(os) peladas(os) pelo buraco da fechadura, espionar pessoas trocando de roupa, dizer palavrões. A mentira decorre da vergonha em confessá-la.
  Julinho, 16 anos, quer ser sempre o centro de atenções. Se necessário, inventa, conscientemente, histórias em que ele é sempre melhor do que os outros. É o herói, conta viagens maravilhosas, feitos escolares e nos esportes, tomando sempre o cuidado de fazê-lo para pessoas crédulas e que não o conheçam bem. Mente para se gabar, por vaidade. Não o ridicularize, pois a auto-estima de Julinho está em baixa e ele precisa de alguém que lhe ajude a aumentar sua autoconfiança.
  Ricardinho, 11 anos, mente por preguiça ou incompetência. Já Luís Felipe tem uma família bem-estruturada. Aprendeu com seus pais que é muito feio delatar. Um de seus melhores amigos cometeu uma falta na escola. O professor, indignado, se dirige a ele e pergunta quem foi? Luís Felipe diz que não sabe e, se necessário, assumirá a culpa, mas não entregará o colega. Mente para salvar o amigo. É a mentira altruísta. Existem crianças que mentem para prejudicar os outros por maldade ou vingança, principalmente contra seus inimigos ou seus algozes.
  Para que a criança não se torne um adulto mentiroso contumaz, teremos que saber por que ela mente e remover as causas, que foram, em sua maioria, aqui relacionadas. Os pais devem dar o exemplo do amor à verdade, a prática da honestidade, e incutir na criança o horror à deslealdade e à mentira. Devemos usar o diálogo, o carinho, a compreensão e, se necessário, repreensões e punições brandas, sem castigos físicos.
  Nunca encurrale a criança! Existem crianças que mentem para receber punições, inclusive castigos físicos, pois essa foi a única forma que encontraram de conseguir alguma atenção da família. Pesquisas mostram que pais que ensinaram princípios, mostraram a importância de valores como a honestidade, verdade, lealdade, para explicar por que não se deve mentir, obtiveram melhores resultados do que aqueles que utilizaram castigos físicos.
 Devemos confiar em nossos filhos, pois a confiança mútua impede o florescimento da mentira. Em casa em que existe respeito, amor, confiança e carinho a mentira é praticamente inexistente. Crianças com auto-estima elevada raramente mentem e, quando o fazem, é em defesa de alguém que lhes é caro. Perdoe sempre seu filho, deixe-o sentir que, embora zangado e decepcionado, você continua a amá-lo. Jamais o rotule de mentiroso! A mentira habitual pode ser sintoma de ansiedade e medo, agravado por medidas repressivas. Nesse caso, o controle poderá exigir o concurso de profissionais competentes.


 
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