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feira dos importados
Pirataria criminosa
Remédios que causam risco à vida, como o Cytotec — que provoca abortos — e o Viagra, para impotência sexual — são vendidos livremente em barracas. A Vigilância Sanitária do DF promete fiscalização rigorosa da venda irregular desses produtos
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
| Fotos: Carlos Vieira |
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O Viagra é hoje o remédio mais vendido do Brasil. Movimenta R$ 120 milhões por ano
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Mulheres que lançam mão do aborto químico para se verem livres de gestações indesejadas e homens que não conseguem ereção suficiente para manter relações sexuais estão recorrendo aos produtos da Feira dos Importados para resolver esses problemas. Nos boxes 285 e 332 do Conjunto B da feira são vendidos sem qualquer cerimônia e em pleno horário comercial os medicamentos Cytotec e Viagra. As duas drogas podem matar quando usadas sem orientação médica.
Na última sexta-feira o Correio conseguiu comprar um comprimido de Cytotec e dois de Viagra nas duas barracas. As vendedoras, que se recuseram a revelar seus nomes verdadeiros mas aceitaram dar entrevistas revelando apenas os apelidos —Cidona e Zezé —, oferecem os medicamentos e ainda dão indicações de uso. Isso é o mais grave.
Cidona é proprietária da barraca 285. Vende Cytotec diariamente a R$ 40 a pílula. ‘‘Tem mulher que leva até dez comprimidos’’, diz. Antes de vender as pílulas proibidas, ela pergunta em que período da gravidez está a gestante. Depois disso, “receita” o tratamento.
Os medicamentos que Cidona vende ficam camuflados na barraca. Centenas de brinquedos igualmente chegados do Paraguai os escondem. Gorda, cabelos curtos e enfeitada por tatuagens tribais, ela assusta.
No dia em que o Correio comprou o Cytotec, Cidona havia vendido dez comprimidos. Arrogante, certa da impunidade, a vendedora de abortivos proibidos dá até instruções de administração dos medicamentos para suas “clientes” ou para os pais de filhos indesejados que a procuram. Na barraca de Cidona o crime do aborto parece uma banalidade.
Segundo ela, as pílulas são importadas do Paraguai. “Mas são verdadeiras”, garante, ciente de que a indústria farmacêutica paraguaia não confere credibilidade. ‘‘Não importa o laboratório que fabrica. O que interessa é o princípio ativo do medicamento. Todo mundo que leva Cytotec da minha barraca volta para comprar mais, dizendo que deu resultado’’, relata.
Na barraca da vendedora que diz se chamar apenas “Zezé”, o Cytotec não entra. ‘‘Esse remédio é muito perigoso’’, justifica. No entanto, a comerciante vende duas variedades de Viagra. Segundo ela, uma é alemã e a outra, paraguaia. Os medicamentos diferem no preço. O europeu custa R$ 40 e o sulamericano, R$ 20. O Correio comprou os dois. ‘‘O alemão é mais forte. O ideal é partir cada comprimido em quatro e tomar cada pedaço meia hora antes da relação ’’, diz Zezé.
Já o Viagra paraguaio vendido, segundo a “doutora” da Feira do Paraguai, deve ser ingerido inteiro uma hora antes da relação sexual. ‘‘É mais fraco e o efeito demora. Para ter um resultado mais eficiente, o ideal é tomar com estômago vazio’’, sugere. Ao vender as duas variedades de Viagra, Zezé não dá a receita médica. ‘‘Só desaconselho esse remédio para quem sofre do coração. Parece que ele mata os cardíacos’’, arrisca, como se todos nós não fôssemos “cardíacos”.
Cidona e Zezé dizem que a maioria das pessoas que procura as barracas para comprar os remédios é formada por jovens. “Os meninos compram Viagra para prolongar a relação sexual ou para não passarem vergonha com as namoradas. Poucos velhos vêm aqui’’, diz Zezé. Cidona revela que algumas mães compram Cytotec para as filhas.
Tranqüilidade
A pós a compra dos medicamentos proibidos, tanto Zezé quanto Cidona foram comunicadas pelo Correio que aquele comércio era ilegal e que se tratava de uma apuração de reportagem. Elas não reagiram. Cidona estava enfeitando a barraca com bandeirinhas do Brasil e, ao ser avisada que seria denunciada, seguiu com o trabalho. ‘‘Várias barracas vendem esses remédios. Pode sair perguntando’’, sugeriu. Zezé pediu apenas para não que não fossem fotografadas.
No box de Zezé, as pílulas de Viagra encontram-se dentro de uma bombonière escondida embaixo do balcão. Segundo ela, o forte do negócio são os cosméticos importados de vários países. ‘‘O Viagra chega por fornecedores que não posso identificar’’, justifica.
Logo após vender os dois comprimidos, ela entrega um cartão pessoal. Nele, há algumas dicas para as pessoas serem felizes: ‘‘Falem, mas não gritem. Peçam, não exijam. Sejam honestos. Mostrem respeito. Compartilhem sorrisos. Agradeçam. Dêem-se as mãos.’’
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Procura é sempre intensa
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O Cytotec é um remédio para úlcera, mas pode provocar abortos, com risco de vida à mulher
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Vender Cytotec na Feira dos Importados é uma afronta à Vigilância Sanitária. Trata-se de uma das drogas mais poderosas quando se fala em aborto. O alto risco desse remédio fez o governo retirá-lo da praça em 1998. Atualmente, o medicamento é repassado pelos laboratórios diretamente para os hospitais.
O Cytotec só é receitado para úlceras estomacais. Desde que se descobriu que seu princípio ativo (misoprostol) é um eficiente abortivo, o remédio passou a ser vendido com freqüência pelas farmáciasdesde a primeira metade da década de 90.
No estômago, o Cytotec funciona como um eficiente antiácido. Inserido na vagina, a pílula faz uma verdadeira devassa nos órgãos reprodutores da mulher. Primeiro,produz uma contração uterina leve, que aumenta de intensidade com o tempo. À medida que a pílula vai se dissolvendo, a mucosa vaginal absorve as substâncias químicas. As contrações aumentam até que ocorre um deslocamento na placenta do embrião, que é expulso do organismo num turbilhão de sangue.
O médico ginecologista Adelino Amaral explica que nunca o feto é expulso totalmente. E é justamente os restos que ficam no útero que trazem complicações para a paciente. ‘‘Essa intervenção geralmente causa hemorragia intensa e é necessário fazer uma curetagem para retirar os restos do feto’’, diz o médico, que atende a cada 15 dias pelo menos três mulheres com hemorragia no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) por causa de abortos. O Cytotec é tão eficiente como abortivo que alguns médicos o usam em pequenas doses na hora de fazer partos difíceis.
No caso do Viagra, a história é bem diferente. O medicamento entrou no mercado brasileiro em 1998 e a expectativa era tão grande que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) baixou uma norma determinando que ele só poderia ser vendido com retenção de receita. Em 2000, o laboratório que fabrica o Viagra apresentou um estudo ao governo provando que ele poderia ser vendido sem retenção de receita. A Câmara Técnica de Medicamento da Anvisa deferiu o pedido e, hoje, o Viagra pode ser adquirido pelas farmácia sem qualquer prescrição médica, tal qual um Cataflam.
Quando só era vendido com retenção de receita, o Viagra era o 14º medicamento mais vendido do Brasil, segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM). Com a liberação, a droga usada contra a impotência sexual passou a ser a mais vendida no país, movimentando mais de R$ 120 milhões em 2000.(UC)
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Fiscalização promete ser rigorosa
A Vigilância Sanitária prometeu para esta semana uma fiscalização rigorosa na Feira dos Importados para apreender qualquer remédio que esteja sendo comercializado nos boxes. A fiscalização será acompanhada pela polícia e as barracas das vendedoras que só se identificaram como Cidona e Zezé serão as primeiras a receberem visitas de policiais.
De acordo com o diretor da Vigilância Sanitária do Distrito Federal, Laércio Inácio Cardoso, vender medicamento em local impróprio dá multa que varia de R$ 2 mil a R$ 200 mil (Lei Federal 5.991). ‘‘Isso é caso de polícia’’, disse, surpreso. No caso do Viagra e do Cytotec, Cardoso alertou que é preciso descobrir a origem desses medicamentos para atestar se eles são verdadeiros ou não.
O presidente em exercício do Conselho Regional de Farmácia (CRF), Daniel Boff, alerta que já houve vários casos de morte por uso indevido de Viagra. ‘‘As pessoas que sofrem do coração podem morrer se tomar esse remédio’’, alerta.
No caso do Cytotec, Boff se mostrou surpreso com a informação de que o medicamento é comercializado na Feira dos Importados. ‘‘Trata-se de um remédio tão perigoso que o governo proibiu a venda até em farmácias’’, alerta.
Vários comerciantes do Conjunto B da Feira dos Importados sabem que as barracas de Cidona e Zezé vendem remédios proibidos. Basta perguntar onde há Viagra e os feirantes apontam para a direção dos boxes das duas comerciantes.
Há cerca de 2 mil barracas na Feira dos Importados e diariamente circulam pelo local 12 mil pessoas. (UC)
A frase
‘‘O Cytotec é um remédio tão perigoso que o governo proibiu a venda até em farmácias’’
Daniel Boff
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