Diversão
Drive-in, 69 anos
A tradição americana do cinema no carro, que fez aniversário na quinta-feira, já passou por altos e baixos. Hoje está longe do auge dos anos 50 e atrai principalmente quem busca privacidade para encontros amorosos
Igor Karashima
Da equipe do Correio
Em meados de 1932, no número 212 da Thomas Avenue, em New Jersey, Estados Unidos, Richard Hollingshead começou a testar uma idéia mirabolante. Pendurou pedaços de madeira em uma árvore para servir de tela, colocou um rádio atrás e pegou um projetor Kodak 1928. No ano seguinte, depois de aprimorar e patentear sua invenção, ele inaugurou o que mais tarde se tornaria uma febre no mundo todo: o cinema drive-in. Na última quinta-feira, dia 6 de junho, o chamado Drive-In Theatre completou 69 anos.
Um número bastante sugestivo para uma espécie de local que, hoje em dia, é visto como ponto de ‘‘namoro’’, digamos. Pelo menos é o que acontece no Brasil, onde a cultura do drive-in surgiu mais tarde do que nos Estados Unidos — o de Brasília foi inaugurado em 1973 — e de maneira bem diferente. Mas isso é outra história.
Voltando à invenção de Hollingshead, antes da inauguração, ele chegou a testá-la com irrigadores de grama para simular tempo chuvoso. Sua principal preocupação, no entanto, era com os carros que estacionassem nas fileiras de trás. Como fazer com que os carros da frente não atrapalhassem a visão dos outros espectadores? Depois de utilizar blocos de concreto para elevar as rodas da frente dos veículos e de posicioná-los de diversas maneiras diferentes, ele chegou à inclinação e posição ideal para as rampas.
A idéia era brilhante. Nada melhor do que ver um filme em uma grande tela, no conforto do carro. A febre se espalhou. Em dezembro de 1939, já havia mais 17 drive-ins nos Estados Unidos. E a história estava apenas começando. Durante a Segunda Guerra Mundial, apenas seis drive-ins foram construídos, mas depois disso o negócio estourou. Em 1946, havia um total de 155 cinemas do tipo nos Estados Unidos. Dois anos mais tarde, já eram 820. Em 1958, o auge: quase cinco mil.
Os drive-ins dominavam a cultura pop norte-americana. E não era apenas chegar, ver o filme e ir embora. O drive-in era um verdadeiro programão, de família mesmo. Alguns abriam seus portões três horas antes da primeira sessão. Os pais levavam suas crianças para brincar nos parquinhos que, àquela época, já eram praxe nos drive-ins. O grandioso lanche também não podia faltar: hambúrguer, pizza, milk-shake e outros quitutes da deliciosa (e gordurosa) tradição americana eram servidos no balcão ou mesmo no próprio carro.
O carro em si, aliás, talvez tenha sido um dos grandes colaboradores para o sucesso do drive-in. A invenção conseguiu unir duas fortes paixões dos americanos: filmes e automóveis. Na década de 50, em especial, as máquinas eram realmente apaixonantes. Veículos longos, confortáveis, com bancos de couro branco e tudo o mais. De vez em quando, uma pintura mais ousada. Algo como o que se vê hoje nos filmes sobre aquela época.
A presença do drive-in na cultura americana foi tão forte que até a abertura do clássico desenho animado Os Flintstones traz Fred, Barney e outros personagens com seus carros estacionados em frente a uma tela de pedra. Detalhe: na cena, eles estão acompanhados por alguns dinossauros de estimação, igualmente fascinados com uma cena do próprio desenho em exibição.
Nos anos seguintes, veio uma enorme decadência. Na década de 70, muitos parquinhos foram removidos devido ao pequeno número de famílias que freqüentavam os drive-ins. Cada vez mais, o público passou a ser formado por jovens casais em busca de um local seguro para namorar. Até os filmes mudaram. Em cartaz, títulos sugestivos, como Texas Cheerleaders.
Nos anos 80, a década do vídeo-cassete, o drive-in agonizou. A TV a cabo também colaborou para sua queda. Hollywood chegava às casas dos telespectadores; não havia mais por que sair de casa. Entre 1980 e 1990, o número de drive-ins nos Estados Unidos caiu de 3,5 mil para menos de mil, média que se mantém até hoje. O resto do mundo acompanhava a decadência. No Brasil, por exemplo, existem muito menos. ‘‘Não sabemos exatamente quantos, mas são poucos’’, afirma o presidente da Associação Brasileira Cinematográfica, Carlos Alberto Camargo, que tem apenas o número de salas de cinema no país: 1.600.
Motel
Hoje em dia, não há como negar que muitos casais buscam os drive-ins para manter relações sexuais. Em cidades como São Paulo, existem até drive-ins com cabines separadas, tudo bem propício, no melhor estilo motel. O cardápio é baseado em bebidas como cerveja, caipirinha e Martini, dispensando maiores guloseimas. Os gerentes dos estabelecimentos até confirmam que, durante as tardes, muitos empresários casados aproveitam a discrição do lugar para ‘‘pular a cerca’’. Drive-in virou sinônimo de sexo.
E é esse o grande estigma que os cinemas carregam atualmente. A gerente do brasiliense Cine Drive-In, Marta Fagundes, tem 42 anos e trabalha no cinema desde 1976. Ela conta que, realmente, ‘‘o Drive-In também é um local para namorar, mas não é só isso’’.
Segundo Marta, o cinema tem freqüência média de 1,3 mil carros por mês. Os melhores dias são sexta e sábado, que recebem entre 60 e 70 carros por sessão. Ela admite que é um número baixo em relação à capacidade do Drive-In, que acomoda até 500 automóveis. ‘‘Devido à recessão econômica no país inteiro, as pessoas estão economizando em lazer’’, acredita.
Mesmo assim, existe um público fiel. ‘‘Algumas pessoas esperam os filmes saírem dos shoppings e ligam pra cá para saber quando vai entrar aqui’’, conta Marta. Ela explica que as pessoas que vão ver filmes na tela de concreto de 320 metros quadrados do Drive-In buscam conforto, como a possibilidade de fumar e conversar dentro do carro.
Um casal de servidores públicos que preferiu não se identificar conta que freqüenta o Cine Drive-In. ‘‘Gostamos de ver os filmes, mas não dispensamos um namorinho de vez em quando’’, afirma a mulher. O marido, mais direto, confessa logo: ‘‘Em casa, fica difícil por causa dos filhos. Aqui, a gente tem mais privacidade’’.
O glamour americano certamente não existe mais — ou, talvez, nunca tenha existido. Mesmo assim, Marta não desanima. ‘‘Temos público cativo, e sempre há pessoas novas’’, afirma. Um dos grandes problemas é a questão dos lançamentos. ‘‘Nós pedimos os filmes às distribuidoras, mas elas dão preferência aos cinemas dos shoppings’’, revela Marta. Homem-Aranha, por exemplo, foi solicitado antes da estréia nacional, mas não chegou até hoje.
Serviço
Cine Drive-In: Área Especial do Autódromo Nelson Piquet, Centro Desportivo, 273-6255.
Mais informações sobre os drive-ins no site http://www.driveintheater.com
|