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No sertão de Canudos
O olhar do fotógrafo Ed Viggiani sobre a região do sertão baiano onde, há pouco mais de um século, Euclides da Cunha começava a escrever sua obra-prima, Os Sertões
Da Redação
Fotos de Ed Viggiani
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Canudos/BA - Durante a seca, é possível ver as ruínas da Igreja Velha de Canudos, que normalmente ficam sob as águas do açude de Cocorobó, como mostra imagem feita em 1996. O local foi palco da guerra de Canudos. O açude do local foi criado anos mais tarde, durante a reconstrução da região em 1969, no período da ditadura militar. Profecias de Antônio Conselheiro diziam que Canudos seria destruída pelo fogo e depois pela água, mas ele não previu que o local reapareceria com a seca.
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Cem anos depois de sua publicação, o livro Os Sertões permanece atual. O fotógrafo Ed Viggiani percorreu, no final dos anos 90, as principais cidades citadas na obra do escritor Euclides da Cunha. Foram quatro viagens de cerca de 15 dias, realizadas durante quatro anos (1995 a 1999) para registrar a vida do sertanejo um século depois de Euclides. A Campanha de Canudos, no sertão baiano, consumiu quatro expedições militares, que tinham como objetivo destruir o arraial onde Antônio Conselheiro tinha reunido muitos deserdados em torno de sua figura profética e declarado que a República, proclamada poucos anos antes, era ilegítima. Entre 1896 e 1897, foram muitas mortes, fome, seca, despreparo militar e crueldade. Tudo foi acompanhado pelo correspondente do Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha, que mais tarde transformaria suas reportagens no clássico Os Sertões. A idéia de fotografar o sertão surgiu quando Ed Viggiani assistiu ao filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, do cineasta Glauber Rocha, rodado na cidade de Monte Santo, na região de Os Sertões. Depois de ler a obra de Euclides da Cunha, ficou ainda mais encantado pelo povo sertanejo e resolveu refazer a trajetória da Guerra de Canudos. Muita coisa mudou em um século, mas a fé, a pobreza e o sofrimento com a seca ainda fazem parte do retrato dessa região.
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O livro
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Monte Santo/BA - Procissão em Monte Santo, na subida do Morro de Santa Cruz, demonstração da fé e da religiosidade do sertanejo. ‘‘Monte Santo é um lugar lendário. Quando, no século 17, as descobertas das minas determinaram a atração do interior sobre o litoral, os aventureiros que ao norte investiam com o sertão demandando as serras da Jacobina... ali estacionavam longo tempo’’, escreveu Euclides da Cunha
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Quando integrou a quarta expedição contra Canudos, Euclides da Cunha tinha como missão fazer reportagens para O Estado de S. Paulo sobre o avanço das tropas comandadas pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, à frente de cinco mil soldados. Os textos de Euclides tinham o objetivo nem tanto de noticiar mas veicular uma unanimidade: o triunfo da República sobre o Império. Tudo isso porque o beato Antônio Conselheiro, um líder messiânico, opunha-se à cobrança de impostos pelos fiscais republicanos e havia fundado um arraial monarquista, Canudos, no sertão baiano. Os Sertões, publicado em 1902 (quatro depois do fim do conflito), tornou-se um clássico. Na primeira parte, Euclides descreve a terra, o clima seco da região, as agruras. Em seguida, o texto se detém sobre o homem sertanejo, descrito como um forte, mas também um desengonçado. Basta um incidente, no entanto, para que ele se torne um ‘‘titã dominador’’: ‘‘a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte’’, registra o autor. Por fim, na terceira parte do livro, o autor relata primeiro a história de Antônio Conselheiro, de como ele se tornou beato pregando no sertão cearense, pernambucano, arrebanhando crédulos até se fixarem todos em Canudos, na Bahia, depois de 20 anos de romaria ininterrupta. Impunha jejuns, provações, martírios. Um boato de que os jagunços do Conselheiro iriam atacar Juazeiro fez o governador enviar uma expedição de 104 homens, chefiados por um tenente. Foi o primeiro fracasso. A essa primeira seguiram-se outras três expedições militares (chefiadas por um major, um comandante e, por fim, um general). Depois de intenso cerco, a população de Canudos (inclusive mulheres, velhos, enfermos, crianças) foi dizimada pelas tropas, em 5 de outubro de 1897. O Conselheiro morreu de desinteria grave e de problemas decorrentes de um ferimento de granada.
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Caminhos de fé e sobrevivência
Trechos/ Os Sertões
| Fotos: Ed Viggiani |
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Jeremoabo/BA - A cidade de Jeremoabo, localizada na região de Canudos, foi uma das principais rotas de fuga dos sertanejos liderados pelo beato Antônio Conselheiro, acuados pelo Exército
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A Terra
‘‘Assim é que as secas aparecem sempre entre duas datas fixadas há muito pela prática dos sertanejos, de 12 de dezembro a 19 de março. Fora de tais limites não há um exemplo único de extinção de secas. Se os atravessam, prolongam-se fatalmente por todo o decorrer do ano, até que se reabra outra vez aquela quadra. Sendo assim e lembrando-o que é precisamente dentro deste intervalo que a longa faixa das calmas equatoriais, no seu lento oscilar em torno do Equador, paira no zênite daqueles estados, levando a borda até aos extremos da Bahia, não poderemos considerá-la, para o caso, com a função de uma montanha ideal que, correndo de leste a oeste e corrigindo momentaneamente lastimável disposição orográfica, se anteponha à monção e lhe provoque a parada, a ascensão das correntes, o resfriamento subseqüente e a condensação imediata nos aguaceiros diluvianos que tombam então, de súbito, sobre os sertões?’’
O homem
‘‘O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e sinuoso, aparente a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. (...)’’
A luta
‘‘Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.’’ ‘‘Era uma fuzilaria tenaz, impetuosa, mortífera, formidável, jogando em terra pelotões inteiros e feita por um único homem. Os soldados, estonteados, atiravam ao acaso, na direção provável dos tiros do maldito: uma saraivada de balas passava rugindo pela galhada do umbuzeiro; o atirador sinistro e nunca percebido abaixava apenas a cabeça e passada a onda de balas, continuava, de cócoras, no fundo da trincheira, a tarefa espantosa.’’
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Maçaracá/BA
Aos 107 anos, Antônio de Isabel ainda lembra de quando era criança ter visto Antônio Conselheiro vestido com sua bata azul, passando pela cidade. Ele tem recordações também da presença do cangaceiro Lampião na região. Na sua opinião, eram ambos ‘‘cabras valentes’’.
Adaptação para o teatro
O livro Os Sertões deve virar peça de teatro este ano em São Paulo. O diretor José Celso Martinez Corrêa quer produzir um espetáculo baseado na obra de Euclides da Cunha. Para contar a história da campanha de Canudos, ele pretende contratar membros do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e atores da periferia de São Paulo. O diretor fará dieta para emagrecer e deixará barba e cabelos compridos para fazer o papel do Conselheiro. José Celso planeja levar o espetáculo à cidade de Canudos, com um elenco de cerca de 50 pessoas.
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Canudos/BA
A Estrada do Cambaio é famosa no livro Os Sertões, porque foi o local onde os conselheiristas armaram uma emboscada contra a segunda expedição militar do governo republicano. Como o povo da região conhecia bem as armadilhas da vegetação do local, a tropa voltou dizimada para a cidade de Monte Santo, sob vaias dos sertanejos. Ao todo foram quatro expedições militares contra Canudos no período de novembro de 1896 a outubro de 1897.
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Esplanada/BA
O Cemitério Timbó foi construído por Antônio Conselheiro na cidade de Esplanada, na Bahia. Por volta de 1860, o cearense Antônio Vicente Mendes Maciel iniciou uma longa peregrinação pelo Sertão. Durante três décadas, pregou a palavra de Deus, construiu Igrejas e reformou cemitérios. Apesar de enfrentar a oposição da Igreja Católica e das elites, conquistou grande
prestígio entre a população sertaneja. Antônio Conselheiro rebelou-se contra a República, proclamada em 1889.
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Canudos/BA
O bode é uma das principais fontes de alimento do sertanejo. O sertanejo aproveita todas as partes do animal (na foto, um bode tem seu couro retirado). ‘‘A seca não o apavora. É um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos’’, diz Euclides da Cunha.
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Monte Santo/BA
Mulheres da cidade de Monte Santo participam das festividades da Semana Semana, marcada por romarias e procissões. A fé e a religiosidade são marcantes no sertão do Nordeste, em especial na região em que viveu o beato Antônio Conselheiro.
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