Brasília, terça-feira, 11 de junho de 2002
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O velho e o novo

Fabricio Rocha
etudo@correioweb.com.br

A fina tela de cristal líquido, que se move para qualquer lado graças a um braço articulado, dançava em suas mãos. O mouse transparente, com uma estranha luz vermelha embaixo, parecia algo tão fora de sua realidade que era melhor ficar ali, quietinho, intocável. O teclado, igualmente transparente, com cento-e-poucas teclas brancas meio misteriosas, é bem diferente daquele da sua velha máquina de escrever elétrica da IBM. Um exemplar do novo iMac II da Apple foi o primeiro computador que deixou o Dr. Fernando embasbacado. Chegando perto de ser um sexagenário, suas pouco faladas lembranças de infância remontam a plantações de abacaxi, filmes de faroeste, brincadeiras em cima de árvores. É do tempo do arco e flecha — aliás, virou menino quando ganhou um, recentemente. Mas diante do reluzente computador, soltou: ‘‘Eu queria estar nascendo agora, pra poder entrar nisso aí’’.

  Por mais empolgado que tenha ficado com a máquina, o Dr. Fernando se considera incapaz de aprender a usá-la. Na verdade, há nele um misto de impaciência e falta de necessidade, em termos. Advogado, domina a máquina de escrever como poucos e, quando precisa pegar alguma coisa da Internet, ou de algum serviço que exija computador, basta-lhe encontrar alguém que o faça. As inúmeras vantagens oferecidas por um programa editor de textos e uma impressora não lhe são suficientemente convincentes para fazê-lo esquentar a cabeça para deixar de lado o cotidiano para aprender um monte de coisas novas.

  Daí a sensação de que, se nascesse de novo, poderia ter tempo para aprender a lidar com todo esse mundo cada vez mais digital. Perfeitamente compreensível e, ao mesmo tempo, instigante. Eu vivi, na infância, o começo dessa era: Atari, computador de 8 bits, programação em BASIC, fim da reserva de mercado, a evolução lenta até o estouro da Internet. Tudo já foi bastante tosco e considero minha geração privilegiada, tanto por presenciar o início dessa revolução como por ter adquirido, por causa das dificuldades, conhecimentos teóricos que hoje não são mais necessários para a informática, mas são sempre muito úteis para entender como as coisas funcionam. Mas mesmo nessa minha geração tem muita gente que não tem a menor intimidade com a tecnologia. Um desespero a cada vez que a impressora não imprime, uma janela estranha pipoca na tela, ou o Word muda as letras sozinho, etc.

  Para os que já nasceram na era do videogame e da Internet, isso tudo é natural, cotidiano. Mas é de se considerar que a transição está meio abrupta, se há tanta gente que, como o Dr. Fernando, não se sente nem um pouco à vontade para usar um micro. É verdade que já é bem mais fácil que há dez anos, mas é preciso pensar novas maneiras de se trabalhar com o computador — ou seja, novas interfaces, que permitam algo mais natural. Quem quer bater texto, de forma tão simples como se estivesse numa máquina elétrica, não precisa de um clipe pulando na tela, e sim de simplicidade. Janelas de erro devem ser mais elucidativas e induzir o usuário a pensar antes de clicar em OK. Não bastam ícones coloridos e bonitos; é preciso que eles sejam auto-explicativos. Isso tudo vale para Windows, para Linux e para Mac: todos ainda deixam muito a desejar.

  Enquanto ninguém achar uma solução para a dificuldade ainda existente nos computadores, o mundo digital ainda será inalcançável para muitos, e o Dr. Fernando ainda vai preferir ficar com sua máquina de escrever. E olha que ele até gosta de tecnologia. Ficou surpreso em saber como funciona a tela de cristal líquido, e impressionado com um documentário que viu, dia desses, sobre nanotecnologia. Acompanhou com avidez a corrida espacial à Lua. Chegou a fazer um curso de programação em Assembly e Fortran no tempo dos cartões perfurados e computadores Olivetti e Honeywell. Fez um curso a distância e o colégio técnico de eletrônica, que era o máximo em sua época, e teve um kit da Philips chamado Engenheiro Eletrônico, para montar radinhos, pisca-piscas, etc.

  Do qual herdei várias peças, junto com o seu interesse por tecnologia. Dr. Fernando, meu pai. Nunca é tarde para aprender.

 
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