Brasília, sexta-feira, 14 de junho de 2002
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Primatas, mas nem tanto

Juliana Cézar Nunes
Da equipe do Correio

Sobreviventes, mas por pouco tempo. É como os antropólogos franceses Yves Coppens e Pascal definem o homem moderno. Mais exatamente, nós. Todos aqueles que vieram antes, chamados de homens primatas, foram extintos. Mas, antes disso, lutaram bravamente pela vida, em condições ambientais bem mais adversas que as atuais, como glaciações e desertificação. Não se trata de espécies melhores ou piores. Nem uma simples escada da evolução para chegar ao homem. Eles eram apenas diferentes. O quanto e como está descrito nos livros Do Surgimento da Vida ao Homem Moderno e O Próprio do Homem, que fazem parte da obra As Origens da Humanidade, escrita pelos franceses.

  A publicação, lançada na França no ano passado, só agora começa a ecoar no Brasil. Ela traz as últimas novidades em descobertas científicas sobre os Homonidae, também conhecidos como homonídeos, linhagem de animais primatas mamíferos que há cerca de 6 milhões de anos começou a desenvolver-se e diferenciar-se geneticamente. A data do início desse processo vem sendo confirmada com a descoberta de fósseis como o encontrado no Quênia, há dois anos. Chamado de Orrorin, ele possui características de homens e chimpanzés. Os pesquisadores não sabem se ele é anterior aos dois. Mas, com as novas evidências, é possível que estejamos cada vez mais próximos do momento em que macacos e homens se diferenciaram.

  Para ajudar nesses estudos, neste ano, pesquisadores de 11 centros de pesquisa de seis países começaram um estudo comparativo do genoma de chimpanzés e homens. Eles já descobriram que 99% dos genes são muito parecidos. As pequenas diferenças foram significativas. E aumentaram à medida que os homens primatas foram se espalhando pelo mundo e enfrentado desafios. ‘‘As variações genéticas que deram origem à maior parte dos Hominadae são resultados de eventos, como a necessidade de viver em locais secos, como as savanas, que podem ter dado origem à bipedia’’, explica Nilda Maria Diniz, professora de Genética e Evolução da Universidade de Brasília (UnB).

  Ela participa de um programa da UnB que ajuda professores de escolas públicas do Distrito Federal a manter-se atualizados sobre as origens do homem. Nas aulas, eles aprendem que o homem não é um sobrevivente porque se adaptou melhor ao ambiente. Mas porque tinha características genéticas guardadas ou alteradas com os anos, naturalmente, que ajudaram nessa adaptação. ‘‘Somos resultado de uma história de vida de bilhões de anos. Mas o homem moderno não foi um objetivo da evolução. E, sim, um resultado de eventos aleatórios.’’

  Os primeiros homens primatas viveram de seis milhões a duzentos mil anos atrás, época do surgimento do Homo sapiens, espécie à qual o homem moderno pertence. Descobertas recentes mostram que as diversas espécies que viveram nesses milhões de anos tinham, sim, capacidade de improvisação. Os Australopthecus, por exemplo, surgiram há 4,2 bilhões de anos e há indícios de que já construíam ferramentas (leia mais no quadro).

  O esqueleto da mulher conhecida como Luzia, de 12 mil anos, encontrado na década de 70 em Minas Gerais, é outra prova de que os homens primitivos ainda vão nos surpreender. ‘‘Ela tem o crânio com morfologia mais parecida com a dos povos africanos. Isso mostra que a migração deles para a América foi mais rápida do que imaginávamos, sem paradas muito prolongadas na Ásia’’, explica Silviene Fabiana de Oliveira, pesquisadora de genética da UnB. ‘‘Existem suspeitas de que alguns homens primitivos que povoaram o mundo dando origem ao homem moderno chegaram a viajar até de barco.’’

  Os Homonidae descendem dos primatas. Eles surgiram há 85 milhões de anos, na família dos mamíferos (há 200 milhões de anos no planeta). ‘‘Em número de indivíduos, eles eram poucos. Mas por causa de alguma particularidades, conseguiram sobreviver em situações adversas, como mudanças no clima e grandes meteoros, que exterminaram os dinossauros da Terra’’, explica a bióloga Nilda Diniz.

  Um dos ancestrais dessa família de sucesso são os prossímios. Eles viviam em florestas ensolaradas e com muitos desafios para a sobrevivência. Aqueles cuja herança genética permitia uma adaptação melhor à natureza sobreviveram e deram origem aos símios e macacos, há 25 milhões de anos na África. Com corpo e cérebro maiores que os primeiros primatas, eles eram bem parecidos com os atuais chimpanzés.

  Na época, em algumas regiões da África, as florestas estavam sendo substituídas por savanas. Com as mudanças climáticas e geográficas, sofreram aqueles que não possuiam características genéticas que permitiam a sobrevivência em climas mais secos. Por conta disso, os cientistas estão cada vez mais certos que, há seis milhões de anos, as condições ambientais foram fundamentais para dividir a linha evolutiva dos primatas. Do lado ocidental da África, ficaram os animais como o chimpanzé, com características genéticas mais apropriadas para viver em florestas. Principalmente no lado oriental, em meio a savanas e florestas, começaram a se desenvolver os Hominidae, com maior tendência à bipedia.

  A característica era mais apropriada a climas secos, em que é preciso ter as mãos livres para carregar comida de um lugar para outro. Alguns cientistas acreditam que a bipedia também foi uma característica necessária para os Hominidae atravessarem regiões alagadas. Dessa linhagem, os gêneros de animais mais conhecidos são os Ardiptechus, Australoptechus, Paranthropus e Homo. Todos eles enfrentaram por milhares de anos desafios impensáveis para o homem moderno. De glaciações, que congelavam oceanos inteiros, a falta de comida nas savanas. Sem dúvida, eles merecem respeito.


Australopthecus

Os mais completos e antigos vestígios já encontrados de Hominidae foram da espécie Australopthecus afarensis, que viveu há 3,9 milhões de anos. Apelidada de Lucy, ela foi encontrada em Hadar, na África Oriental, em 1994. Era baixa e andava sobre as duas pernas. Tinha uma dieta vegetariana e subia em árvores para dormir. As características e habilidades ajudavam no clima seco da savana. Em geral, os Australopthecus mediam cerca de 1,20m de altura. Há evidências de que eles gostavam de ficar em um local por longos períodos. No desfiladeiro de Olduvai, no norte da Tanzânia, foram encontrados indícios de que os Australopthecus comiam carne. Como a arcada dentária era apropriada para alimentação vegetariana, esses animais teriam fabricado ferramentas. Começava o desenvolvimento das tecnologias.

Homo habilis

Entre os Hominidae, existia um gênero conhecido como Homo. São oito espécies — possíveis variedades genéticas — conhecidas desse gênero. Algumas chegaram a conviver na mesma época. A mais antiga delas, Homo rudolfensis, viveu há 2,4 milhões de anos, no Quênia. No mesmo local e na Tanzânia, foram encontrados fósseis do Homo habilis. Ao lado deles, os pesquisadores acharam ferramentas de pedra. O Homo habilis tinha um cérebro maior e o crânio mais arredondado que o dos Australopthecus, mas também era baixo, com braços compridos e dedos curvos. Os pesquisadores acreditam que eles usavam as ferramentas feitas de pedra para comer frutas com cascas mais duras.

Homo neanderthalensis

Com cérebros ainda maiores, o Homo neanderthalensis surgiu como espécie há 250 mil anos. Os pesquisadores já encontraram indícios de que essa espécie se espalhou da África para a Europa Ocidental, Marrocos, China, Iraque e Irã. Ele foi um dos primeiros Hominidae a enfrentar as variações climáticas bruscas de aquecimento e resfriamento da Terra, que não chegavam a afetar a África. Por alguns anos, ele conviveu com o Homo erectus. Mas a mais difícil das fases para o Homo neanderthalensis aconteceu há cerca de 120 mil anos. Durante a Idade do Gelo, ele precisou agüentar o frio, morar em cavernas, usar o fogo em fogueira cavadas no chão. Vestia peles e fazia ferramentas de pedras bem moldadas. Os cientistas acreditam que eles já enterravam seus mortos e faziam rituais.

Homo sapiens

A origem da espécie Homo sapiens — há cerca de 200 mil anos — divide a opinião de cientistas. O homem moderno, Homo sapiens sapiens, faz parte de uma linha com características genéticas que levavam o crânio a ser mais leve, os rostos menores e os membros mais retos. Foram encontrados fósseis no Oriente Médio e nos Bálcãs, com idades entre 50 mil e 40 mil anos. Com a última glaciação — há 10 mil anos —, além de brigas por alimento e disputas políticas, eles se espalharam pelo mundo. Principalmente através do Estreito de Bhering, um dos caminhos com áreas congeladas. Nesse período, viveram em contato com grande animais, como os mamutes, que provavelmente ajudaram a exterminar. Os cientistas acreditam que a capacidade do homem destruir o ambiente antecipará as ações da natureza. A sua extinção não será por seleção natural.
 
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