Brasília, sexta-feira, 14 de junho de 2002
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TELEVISÃO
Casa dos desempregados

Na Argentina em crise, o mais novo sucesso na linha de reality shows é um programa que oferece como prêmio um emprego

De Monica Yanakiew
Especial para o Correio

Buenos Aires — Na Argentina, como no Brasil, milhares de pessoas ligaram seus aparelhos para acompanhar a superprodução de Big Brother I e II. Trancados numa casa — com câmeras ocultas registrando intrigas, discussões acaloradas e encontros sexuais —, 12 jovens de boa aparência conviveram durante 90 dias. O sobrevivente ganhou, além da fama, um prêmio milionário.

  Agora, enquanto esperam pelo Big Brother III, os argentinos estão assistindo a outro reality show — desta vez de uma vida mais real. Chama-se Recursos Humanos, um nome que parece matéria de faculdade e em qualquer país do mundo é sinônimo de chatice.

  Não existem atores famosos como na Casa dos Artistas, aventuras em ilhas desertas como No Limite, ou noitadas românticas como em Amor a Bordo. Os participantes são pessoas como Dario Ruiz, de 40 anos, casado há 17 e pai de quatro filhos.

  Os prêmios tampouco são os habituais, que seduzem um público dos contos de fada da era eletrônica. Ninguém ganha um cruzeiro pelo Caribe, um cheque e um carro ou encontra o amor de sua vida.

  Em Recursos Humanos, os telespectadores votarão por um dos dois finalistas que disputam algo aparentemente tão banal como um emprego, de no mínimo seis meses, com carteira assinada. Quem perder, tem um prêmio de consolação: uma bicicleta, para levar o filho à escola, ou a visita de um amigo, que vive longe e não vê há muitos anos porque não tem dinheiro para pagar uma passagem.

  ‘‘É um reality show feito por desempregados para ajudar desempregados’’, explica Pablo Santos, um dos produtores. Ele ficou sem trabalho em fevereiro do ano passado, quando o canal de televisão América decidiu reduzir gastos e demitiu 50 pessoas — entre elas seu sócio Oscar Obregon.

  Buscaram trabalho, sem muita sorte, e decidiram montar sua própria produtora. A primeira idéia foi adaptar os reality shows, importados da Europa e dos Estados Unidos, à realidade de uma Argentina em crise. Num país em recessão há quatro anos e com um índice de desemprego de 25%, Recursos Humanos foi um sucesso.
  
Trabalho
O show, que estreou no Canal 13 no dia 15 de abril, vai ao ar de segunda a sexta às 19h. No primeiro mês e meio empregou 60 pessoas. E obteve um rating de 9 pontos. Para Santos, foi um sucesso.

  ‘‘O programa de Tinelli, que é o mais visto, tem um rating de 20 pontos’’, explica. ‘‘E nós ainda temos uma desvantagem: estamos competindo com os principais programas de notícias, que nenhum argentino deixa de assistir em época de crise.’’

  Ao contrário de Big Brother I e II e Casa dos Artistas, Recursos Humanos não depende de grandes investimentos. Os produtores oferecem às empresas uma hora de propaganda gratuita em troca de um posto de trabalho. Depois colocam um anúncio nos classificados, em busca de candidatos.

  Uma das empresas que participou do programa chama-se Stopcar e especializa-se na recuperação de veículos roubados. Aos 50 mil clientes, que tem em todo o país, oferece o seguinte serviço: instala um chip no seu carro, que pode ser detectado por satélite. Aos produtores de Recursos Humanos ofereceu um posto de mecânico.

  Outra empresa, especializada na seleção de pessoal, escolheu dez entre todos os candidatos. A empresa optou por dois, deixando a decisão final aos telespectadores: Dario Ruiz e Carlos Sayago, de 33 anos, casado e pai de dois filhos. O primeiro está desempregado há dois anos e o segundo, há um.

  As equipes do Recursos Humanos acompanharam, com suas câmeras, a vida diária dos dois finalistas. Não existem cenas de sexo, confissões de traições ou aventuras em alto mar. Os telespectadores assistem às cenas nada excitantes de Ruiz e Sayago brincando com as crianças, beijando suas mulheres na bochecha, ou consertando eletrodomésticos quebrados.

  Os casais falam de seus problemas, de suas preocupações com o futuro dos filhos e de sua maior ambição no momento: um emprego na Stopcar. O maior momento de suspense é um teste para medir sua capacidade profissional. ‘‘Num veículo de alimentação de 12 volts, qual é a carga máxima que pode receber uma bateria?’’, pergunta o apresentador.

  ‘‘Os resultados do teste não pesam na escolha final, que é dos telespectadores’’, explica Santos. ‘‘Na maioria dos casos, eles votam a favor da pessoa que mais precisa do emprego e a empresa acaba premiando ambos.’’

  Além da empresa que dá o emprego, outras participam com prêmios de consolação, em troca de minutos de propaganda gratuita: Ruiz e Sayago, por exemplo, ganharam bicicletas para levar os filhos à escola. Se tivesse que pagar para ter seu nome mencionado num programa, o fabricante teria que desembolsar muito mais: entre mil e dois mil pesos.

  ‘‘Na Argentina, além de trabalho, o que mais está em falta hoje é dinheiro’’, diz Santos. Em dezembro passado, o governo impôs regras limitando os saques e confiscando os depósitos bancários. Nem os ganhadores do Big Brother I e II conseguiram retirar seus prêmios milionários dos bancos.

  Com uma economia estagnada e regras que mudam a toda hora, são poucas as empresas dispostas a fazer investimentos. ‘‘Nosso programa funciona na base do escambo, apela para a solidariedade e oferece aos argentinos o que mais precisam agora: um emprego fixo’’, diz Santos. ‘‘Esse é o segredo do sucesso de Recursos Humanos.’’

 
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