Brasília, terça-feira, 16 de julho de 2002
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Mulheres sem vergonha

Elas são freqüentadoras assíduas das sex shops e formam 65% do público comprador de artigos eróticos no Brasil

Da Redação

Ricardo Borba

 
Elas olham o produto, procuram por outras cores, modelos e tamanhos, perguntam preço. A cena, que poderia se passar em uma loja de roupas, sapatos ou supermercados, é cada vez mais comum em sex shops. As mulheres estão deixando o preconceito de lado e procurando artigos que podem ajudá-las a encontrar mais facilmente o prazer sexual. Elas já são maioria absoluta do mercado brasileiro de produtos eróticos e estão quebrando o estigma da mulher submissa entre quatro paredes.
  
A primeira compra que Denise, 26 anos, fez em uma sex shop, há dois anos, foi um conjunto de calcinha e sutiã. A idéia era fazer uma surpresa para o namorado, que adorou. Foi a senha para que a moça se tornasse uma freqüentadora assídua de lojas de artigos eróticos. ‘‘Acaba viciando. É tão parte da minha vida hoje que parece que estou indo ao supermercado’’, brinca a jornalista.
  
Ela guarda um ‘‘arsenal’’ de artigos em casa, fora os presentes que deu para o namorado (o último foi uma provocante fantasia de Zorro). ‘‘A mulher precisa ser criativa e estar aberta a inovações na relação, como uma forma de segurar o homem’’, acredita, ‘‘até mesmo porque se eu não fizer, vem outra e faz’’.
  
Casada há 12 anos, a protética Ana Cristina Leal, 32, confessa que freqüenta lojas de artigos eróticos há cinco. De livros com passo-a-passo a gel aromatizado e vibrador, ela e o marido já experimentaram quase tudo. ‘‘A iniciativa para comprar os produtos partiu dos dois. Buscávamos uma forma de sair da rotina’’, justifica.
  
Desde que começaram a buscar novidades no sexo em lojas especializadas, a intimidade entre eles aumentou, e atualmente o casal sente muito mais liberdade para discutir as relações sexuais. ‘‘Muitas vezes ele vai sozinho a uma sex shop e traz um presente para mim’’, conta.
  
Denise e Ana Cristina enquadram-se perfeitamente no perfil da típica consumidora de artigos sexuais desenhado em uma recente pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (Abeme). Ela tem entre 25 e 45 anos e pertence à classe média ou alta. A pesquisa, feita em lojas de todo o País e na Feira Erótica de São Paulo (a última aconteceu há duas semanas), constatou ainda que o público feminino corresponde a 65% do total de compradores desse tipo de produto.
  
‘‘Concluímos que o que os homens brasileiros mais buscam é o entretenimento e a diversão. Em compensação, as brasileiras compram mais produtos. São elas que buscam as novidades para revitalizar as relações’’, explica Augusto Serrano, porta-voz da Abeme e da Erotika Fair.
  
Mesmo quem não tem namorado ou marido aproveita a gama de artigos disponíveis no mercado para buscar, sozinhas, o prazer sexual. ‘‘É claro que não substitui 100%, mas é melhor do que ficar com esses 50% que existem por aí’’, brinca a comerciante Marta, 47, referindo-se ao vibrador que tem em casa. Divorciada há mais de dez anos, ela comenta que quando descobriu que os artigos eróticos poderiam ‘‘resolver o problema’’ passou a indicar para as amigas. E o que antes era um tabu passou a fazer parte do cotidiano das descasadas.
  
‘‘Acho que as mulheres têm que buscar uma maneira de realizar-se. É algo necessário na vida da mulher moderna’’, defende a comerciante.
  
Muitos dos artigos também começaram a entrar no jogo da paquera. Marta lembra que certa vez mandou uma cueca sexy para um homem em que estava interessada. ‘‘Ele gostou bastante’’, ri.
  
Para o professor da UnB José Jorge de Carvalho, estudioso das áreas de fetichismo e consumo, a pesquisa da Abeme não reflete, necessariamente, que as mulheres estão mais livres para buscar o próprio prazer. ‘‘É uma pesquisa de mercado, mas duas coisas devem ser levadas em consideração’’, frisa o especialista: ‘‘Os homens têm mais vergonha de freqüentar sex shops, e essas mulheres podem estar indo até lá no lugar deles. Além disso, elas podem estar sob influência das atuais revistas femininas, que incitam esse consumo exagerado’’.
  
Sem acreditar totalmente na autenticidade da intenção das mulheres que freqüentam lojas de artigos eróticos, José Jorge afirma que muitas apenas querem se adequar ao padrão masculino de mulher moderna. ‘‘A indústria pornográfica sempre coloca a mulher em uma posição subserviente. A sociedade ainda é muito machista’’, acredita.
  
A pedido de alguns dos entrevistados, os nomes na reportagem são fictícios


Mercado quente em Brasília

Trabalhando no mercado de venda de artigos do gênero há dois anos e meio, Ana Cláudia Fraga, dona da loja Magia do Amor (116 Norte), concorda com as estatísticas da Abeme. Ela afirma que 85% de seus clientes são mulheres e casais. ‘‘No Dia dos Namorados, praticamente todas as cestas eróticas que vendemos (com camisinhas de sabor, cremes, chocolates em forma de genitais) foram mandadas por mulheres’’, diz Ana Cláudia. Ela aponta como artigos mais vendidos as lingeries e os pênis, com e sem vibrador, explicando que ‘‘muitas que não têm parceiro compram vibradores porque não querem ficar ansiosas para arrumar um homem’’. Também fazem sucesso entre o público feminino massageadores clitorianos, calcinhas vibratórias (com controle remoto), fantasias eróticas — de enfermeira, colegial, odalisca — e livros que dão dicas sobre como excitar os homens. Mas nada que beire o sadomasoquismo — algemas e chicotes são pouco procurados. ‘‘São todas muito bem resolvidas, sabem o que querem’’, diz Mercedes Gonçalves, dona da Via Sex (Conic), sobre suas clientes, responsáveis por quase 70% das vendas da loja. A maioria, já com parceiro, busca algo para inovar o relacionamento. ‘‘Normalmente as mulheres têm a mente mais aberta e estão sempre procurando manter a relação’’, afirma o gerente Elias Kassab, da Sex Shop (211 Norte). Em sua loja, as fitas de vídeo e livros sobre masturbação e strip-tease são os tops de venda.
 
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