Brasília, domingo, 21 de julho de 2002
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Saúde atrás das grades




 


Oito ou oitenta

Marcelo Torres
Sudoeste

 Maniqueísmo é a doutrina segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por duas forças opostas, dois princípios antagônicos: Deus x Diabo, o bem versus o mal. É como se tudo estivesse dividido entre dois extremos: verdade/mentira, vício/virtude, honestidade/desonestidade, esquerda/ direita. Ninguém, nenhum ser humano é só verdade, virtude, honestidade — nem é só mentira, vício, desonestidade. Todos nós somos produto de uma mistura, de um conjunto de coisas ditas boas e más (embora algumas características predominem sobre outras).

  Glauber Rocha não criou ‘bandidos’ nem ‘mocinhos’ em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Paulo Honório, anti-herói do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, disse: ‘‘Fiz coisas boas que me deram prejuízo; fiz coisas más que me trouxeram lucro. Eu não sei mais o que é bom nem o que é ruim’’.

  Não se pode olhar para alguém e dizer: ‘‘Fulano é um anjo em pessoa’’, nem ‘‘Beltrano é um demônio em forma de gente’’. No mundo, não há quem seja tão mau que nunca tenha praticado o bem — e não pode haver um anjinho que nunca tenha cometido um pecado. Somos todos anjos e demônios. Além do mais, a vida, o mundo e as pessoas possuem mais valores relativos que absolutos — pois tudo depende do referencial, da forma como se olha para as coisas. Os passageiros de dois veículos em mesma velocidade, quando se olham, estão ‘‘parados’’ uns em relação aos outros — o mundo em volta é que está girando para eles. Um copo com água até a metade para um otimista pode estar ‘‘meio cheio’’; para um pessimista, pode estar ‘‘meio vazio’’. Duas supostas ‘verdades’ (ou ‘mentiras’?) que se contradizem, que se excluem entre si. Pode-se dizer que a ‘verdade’ é uma versão bem contada — e aceita — num tempo e num espaço.

  Mas a verdade é que não existe verdade. E a vida não é só oito ou oitenta. Pensemos nisso antes de julgarmos as supostas ‘verdades’ e ‘mentiras’ do homem — que só usa 10% de sua cabeça animal, como disse um filósofo maluco-beleza, uma metamorfose ambulante que nasceu ‘há 10 mil anos atrás’.



A fome

Lúcio Flávio V. Lima
Asa Sul

  Terceiro Milênio. Século XXI. O homem foi à Lua; naves espaciais tripuladas permanecem meses em órbita; o Projeto Genoma, cujo objetivo é vasculhar as células humanas na tentativa de identificar todos os seus genes, um por um, já mapeou 12,3% deles e espera-se completar o levantamento total até 2003; a clonagem de animais está em pleno desenvolvimento e a humana clandestinamente em experiência, sem compromisso com os aspectos ético-religiosos. É a ciência e a tecnologia que avançam celeremente. Infelizmente, porém, todo esse complexo beneficia apenas 1/6 da humanidade.

  De fato, a fome e as doenças ceifam vidas preciosas ao redor do mundo, dizimando populações inteiras na África e na América Latina. De acordo com estudos da ONU (Organização das Nações Unidas) 800 milhões de pessoas passam fome ou não podem se alimentar devidamente. A Cúpula Mundial da Alimentação, que reuniu em Roma líderes e representantes de mais de 180 países, em junho último, resultou em fracasso.

  Antes da reunião, Andrew MacMillan, diretor de Operações da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, a FAO, disse à Folha de S. Paulo: ‘‘Há muita comida no mundo e meios para produzir ainda mais. Se quiserem chamar a fome de doença, tudo bem, a questão é encará-la. (...) Já fui criticado por dizer que o fato de a fome existir se deve basicamente à incompetência ou à negligência. Nós sabemos muito bem o que fazer, só falta vontade política’’.

  Pois é. Os desinformados e, principalmente, os de má-fé, culpam a Igreja Católica, no Brasil, porque se posiciona contra o controle da natalidade (ela é favorável ao planejamento familiar), uma vez que, entendem, eliminados os comensais estaria resolvido o problema da fome. Ao contrário, por que não aumentar a mesa? Enquanto a globalização financeira, com todo o cortejo de miséria que encerra, é um sucesso, não se cogita da globalização da solidariedade. Trata-se, como se conclui, da exacerbação do egoísmo.

  As multinacionais dos transgênicos, cujo objetivo único é o lucro, propagandeiam que esses organismos geneticamente modificados seriam a solução para o problema da fome no mundo. Ora, é uma falácia. Aos famintos, faltam recursos para a compra dos alimentos indispensáveis a uma vida digna, de preferência não-transgênicos, cujos efeitos sobre o organismo humano ainda é uma incógnita.


Desmantelaram o Exército

Ruy Telles
Brasília

 Quando o exterior cobiça a Amazônia; quando os bandidos assumem o comando nas grandes cidades; quando a população está pressionada; quando a vida passou a não ter valor, é chegada a hora de destruir o último relicário de respeito que resta neste país: as Forças Armadas. O que o governo começou a fazer, em doses homeopáticas, é inconcebível.

  Tanto o presidente quanto a maioria de seus auxiliares trazem no subconsciente o ranço para com os militares, por terem sido cassados ou expatriados (nunca deveriam ter voltado) e aproveitam quando estão no poder para eliminar seus desafetos.

  Um general deixou de assumir um cargo porque quando jovem tenente foi atender a um preso político, como médico que era e é. Um ex-assaltante de banco é nomeado ministro da Justiça; um corrupto de carteirinha havia sido nomeado ministro da Defesa, para citar só dois, pois o espaço é pequeno para enumerar todos.

  ‘‘Um governo cuja tropa passa fome não pode dormir tranqüilo’’ (Maquiavel). E o que dizer de um governo que dentro de pouco tempo nem tropa terá mais? O Brasil é um continente cobiçado pelos países do chamado Primeiro Mundo, em função de suas riquezas naturais e por sua extensão territorial. Durante 30 anos estive no Exército e sempre acreditei que a função do militar era a de dar guarida às instituições, inclusive à figura do presidente da República, fosse ele quem fosse, mas chegou a hora de acharmos que a subordinação passou a ser subserviência.

  Não podemos e não devemos aceitar passivamente essa medidas que estão acabando com o amor próprio dos militares, que já tinham muito pouco de que se orgulhar. O desmantelamento das Forças Armadas é um perigo iminente para nossa soberania e principalmente para manter o respeito que, apesar de tudo, ainda existe para com a reserva moral da nação.

  Não estou me pronunciando em causa própria, pois já cumpri grande parte de minha missão para com a pátria, mas estou pensando em meus filhos e netos, a quem quero deixar uma nação forte, e uma nação só será forte se suas forças armadas o forem. Estou liderando, sob a tutela da Confederação Nacional da Família Militar (Confamil) , o I Fórum Democrático Nacionalista, que será realizado nos dias 23, 24 e 25 de agosto, com a participação de mais de 1.000 militares — de general a soldado — de todo o país, a fim de debatermos a situação das Forças Armadas (se elas ainda existirem) e do país.

  Somos a favor da democracia, mas de uma democracia séria, não desta que destina verbas aos bancos e aos corruptos em detrimento das necessárias à segurança nacional.


 
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