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Livro
O fantasma das bancas
A polêmica história, quase romance, do jornal Notícias Populares, criado para enfrentar a ‘‘ameaça comunista da Última Hora’’, é contada por jornalistas sem medo da verdade
Celso de Campos Jr.
Especial para o Correio
Brás, São Paulo, 1963; os personagens, o poderoso Herbert Levy, então presidente da UDN, e Jean Mellé, jornalista romeno que permanecera preso por uma década nas minas de carvão da Sibéria a mando de Stalin. Assunto: o financiamento de um jornal popular anticomunista, que tinha como objetivo tirar a população paulistana da esfera de influência do Última Hora, marcadamente favorável a Jango. Não demorou para a dupla chegar a um acerto, ainda mais com o alerta feito por Mellé para o experiente político: ‘‘Se você não abraçar esse projeto, os comunistas invadem o Brasil e nos despacham para a Sibéria’’. Desse improvável encontro, realizado na sede da Gazeta Mercantil, nasceu o Notícias Populares.
O jornal que virou sinônimo de sensacionalismo, publicando aberrações como o Bebê-Diabo? Sim. O Notícias Populares, o NP, como era chamado pelos leitores. Financiado em seu princípio pelo deputado Levy, dono da Gazeta Mercantil. E comandado por um romeno que mal falava português.
Quase ficcional, esse enredo foi apenas o primeiro da longa lista de roteiros inacreditáveis que o NP protagonizou ao longo de seus quase 38 anos de história. Fechado em janeiro de 2001 pelo Grupo Folha da Manhã, que o adquirira de Levy em outubro de 1965, o NP permanece, solitário, como o mais folclórico periódico da história do país. O preconceito mascara a verdadeira dimensão que o NP representou para seus leitores e as inovações que ajudou a introduzir no jornalismo.
A começar pelos métodos pouco ortodoxos de Jean Mellé, que deixava a decisão final sobre a manchete do dia na mão dos contínuos, o Notícias Populares foi revolucionário. Foi de Mellé a idéia de cobrir a vida dos artistas. Também é do jornal a primazia de abrir suas páginas às minorias — a publicação foi uma das primeiras a reservar espaço para o público GLS. Sem falar nas seções dedicadas às manifestações culturais populares; afinal, podemos contar nos dedos os periódicos que se davam o luxo de possuir colunistas do quilate de Tonico e Tinoco.
Além disso, o NP foi o cão de guarda dos leitores na fase da remarcação doentia de preços, na segunda metade dos anos 80. Deu a mão aos aposentados e traduziu do economês os planos elaborados por messias engravatados que diziam salvar a economia brasileira. Foi a voz dos trabalhadores empurrados para a periferia na década de 90; sua cobertura de crimes proporcionava estatísticas mais precisas que as repassadas pelas autoridades.
Muitas vezes, o jornal, na tentativa de atingir esse público que está à margem da notícia, escorregava. Contudo, sem demora, levantava, sacudia a poeira e dava a volta por cima. Foi assim desde a década de 70, quando os boatos de que o NP iria acabar começaram a aparecer. O fantasma do fechamento rondou vários editores, mas finalmente virou realidade com o lançamento do Agora, em 1999, jornal popular inspirado no Extra, da Globo. Ao canalizar recursos para o Agora, a Folha colocou para escanteio o combalido ‘‘jornal do trabalhador’’.
Sem fôlego, perdido entre promoções de panelas, Bíblias e aparelhos de jantar, o NP foi sucumbindo. Com ele, toda a história de Mellé, de Ebrahim Ramadan e outros que se entregaram à elaboração quase artesanal de um periódico que caiu nos braços do povo e na mira dos paladinos da falsa moralidade. Esses finalmente alcançaram seu objetivo quando a empresa decidiu matar o NP. Mas o NP não saiu de cena. Ao contrário, o jornal parece ter deixado as bancas para entrar nas páginas da história. Uma história que, na maioria das vezes, não acaba mesmo com final feliz.
Celso Campos Jr. é jornalista, co-autor do livro Nada Mais que a Verdade — A extraordinária história do jornal Notícias Populares (Carrenho Editorial, 280 págs., R$ 32). Pedidos pelo site www.carrenho.com.br ou pelo telefone (11) 5539-3378
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