Brasília, sexta-feira, 02 de agosto de 2002
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Casta decisão

O apego à religião inspira cada vez mais jovens a preservarem a virgindade e só começarem a vida sexual depois do casamento

Flávia Duarte
Da equipe do Correio

A estudante Bárbara jã perdeu dois namorados, mas mesmo assim mantém a decisão de ficar virgem até o casamento
 
Desde criança, a orientação religiosa foi determinante na decisão do rapaz: seria virgem até o dia em que encontrasse a mulher que levaria para o altar. ‘‘A vida da pureza e da castidade valoriza mais o ser humano’’, considera o bancário Pedro Henrique Miranda, 21 anos. Baseado nos ensinamentos da Igreja Católica, ele confirma a escolha com tranqüilidade e já não fica com as bochechas ardendo em fogo quando o assunto é ficar, namorar ou transar. Na adolescência, com suas típicas provas de masculinidade, não podia evitar o constrangimento diante da turma de amigos, sempre dispostos a enumerar as investidas amorosas.

  ‘‘Ser virgem é a maior prova de que amamos a Deus acima de nossas próprias paixões’’, acrescenta a estudante de pedagogia Thaís Soares, 24 anos, namorada desse jovem cristão. Juntos há quase um ano e meio, os dois praticam diariamente o acordo tácito da castidade. ‘‘Têm dias em que você está mais sensível ou mais carente, então a gente combina de não se encontrar. Quando bate aquele calooor, nós paramos e vamos dar uma volta ou tomar um sorvete’’, ensina Thaís.

  Para deixar claro que os valores pregados são cumpridos à risca, os namorados vestiram, literalmente, a camisa da causa. Desenhada em letras garrafais de tons dourados, eles desfilam na rua, no ônibus, na universidade a paixão pelos ensinamentos da Igreja. CASTIDADE! DEUS QUER. VOCÊ CONSEGUE são os dizeres que levam, assim como outros jovens católicos na camiseta confeccionada por um grupo religioso da cidade. ‘‘Quando fui para a UnB com a camisa, os caras olhavam, riam e até diziam que estava perdendo tempo. Mas já me acostumei com os comentários’’, conta Pedro.

  Aliás, ser virgem entre os filhos da geração que pregou o sexo livre em anos já idos nem sempre é fácil. Muitas vezes são alvos de pilhérias e olhares curiosos que parecem perguntar: ‘‘Como você agüenta?’’. A estudante de Arquitetura Bárbara Barros, 21 anos, já sentiu na pele o peso da decisão. Nos tempos de escola, sempre ficava fora dos assuntos das meninas que não se cansavam em contar as peripécias amorosas. Há pouco tempo, viu dois de seus namoros chegarem ao fim. A razão? Incompatibilidade de intenções. ‘‘O fato de eu ter escolhido permanecer virgem é importante. Você aprende a não banalizar o relacionamento’’, conclui Bárbara, que tem na religião Católica a base da inspiração de sua escolha.

  Feitas de carne, ossos e hormônios, essas pessoas também são cheias de desejos. Encontram no divino a força para não seguir em frente. Sonham como o dia do casamento e planejam a noite de núpcias. ‘‘A virgindade não é algo que deva ser considerado certo ou errado. Deve acontecer quando e com quem a pessoa sentir-se bem’’, avalia Iara Nárdia, terapeuta sexual e professora de Artes Sensuais, que dá cursos, entre outros, para jovens evangélicos que, enquanto não partem para a prática, procuram aprender pelo menos na teoria as artimanhas da arte da sedução.

  Adiar o início da vida sexual apenas para depois do casamento é, em geral resultado de uma orientação religiosa. Sem receios de castigos divinos, esses jovens interpretam as Escrituras Sagradas e compreendem o desejo divino da preservação da castidade, mesmo que já não sejam mais virgens. É o caso do dentista Rodrigo Lira. Aos 29 anos, ele descobriu há pouco mais de oito a religião evangélica e desde então deixou para o passado as noitadas e relacionamentos fortuitos. ‘‘A Bíblia nos ensina que somos templos do Espírito Santo e que o sexo não é só um prazer momentâneo’’, explica Rodrigo.

  Se antes o dentista saciava o desejo sem maiores cerimônias, agora segura o instinto quando está de chamego com a atual namorada e futura mulher. Há oito meses juntos, Rodrigo afirma que os carinhos não extrapolam os beijos e abraços. Na hora em que o desejo fala mais alto, ele garante que a força espiritual é a parceira para não avançar o sinal — que, por opção, o rapaz decidiu ligar no vermelho até a noite de núpcias. ‘‘A virgindade é uma aliança. É uma prova de amor e dedicação à pessoa que você escolheu como esposa’’, explica o evangélico.

  O que antes era obrigação agora pode ser tido como algo inusitado. ‘‘Manter-se virgem, hoje, não deixa de ser um reação a essa escravidão que valoriza a sexualidade em demasia e ganha o nome de liberdade’’, avalia a historiadora e pesquisadora de assuntos feministas Tânia Navarro, professora do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB).

  Aliás, até o Código Civil deixou de nadar contra a maré. Vai entrar em vigor no ano que vem o fim da a determinação que concede ao marido o direito de anular o casamento se descobrir que a mulher não é mais virgem. Apesar dessa mudança de mentalidade, ainda resistem homens e mulheres que podem escolher entre seguir a trilha dos prazeres mundanos ou do resguardo espiritual. No final das contas, alguns preferem mesmo ficar com a segunda opção.

 
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