Brasília, sexta-feira, 02 de agosto de 2002
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Morto pelo serviço

Estresse que leva ao alcoolismo, desentendimentos com colegas e falta de apoio psicológico fazem policiais cometer o dobro de suicídios que a média da população

Eduardo Junqueira
Especial para o Correio


 
A cena é comum nos filmes — e também na vida real. É só caminhar pelas ruas de uma cidade norte-americana na hora do almoço para ver pequenos grupos de policiais saboreando um hambúrguer com fritas em uma lanchonete. Parecem ser nada mais que cidadãos comuns. Eles também são vistos ajudando velhinhas a trocar o pneu do carro ou mamães que não sabem muito bem como ajustar a cadeirinha do bebê no assento traseiro do carro. Cenas de uma vida pacata? Nem tanto. Os policiais americanos vivem dias difíceis, e isso não pode ser creditado apenas às ameaças terroristas.

  O grito de alerta ecoou há alguns meses, quando divulgou-se o número de suicídios de policiais americanos em 2000. Foram 418 a tirarem a própria vida — e a maioria utilizou a arma de trabalho. Os números são levantados com dificuldade pela National Police Suicide Foundation (NPSF), porque em muitos casos os departamentos de polícia tentam acobertar os casos por razões as mais diversas: proteção à família do policial morto, segurança da corporação, problemas com a companhia de seguros.

  Pelo dados da NPSF, a média desse tipo de morte entre os policiais é duas vezes maior do que o percentual registrado entre a população em geral. É também maior do que o saldo dos mortos em combate. No ano passado, 150 policiais morreram em ação. ‘‘Pelo menos 20% dos casos de suicídio aparecem como não-identificados ou acidentes’’, disse ao Correio o professor John Violanti, da Universidade de Búfalo, em Nova York.

  Autor do livro Police Suicide: Epidemic in Blue (Suicídio de Policiais: a Epidemia Azul), Violanti estuda o assunto há mais de uma década e até já fez estágio no Departamento de Polícia do Estado de Nova York para conhecer mais de perto a realidade, que muitos tentam ocultar. ‘‘Nos Estados Unidos os policiais têm uma imagem pública negativa e sentem-se isolados da sociedade. Nossas pesquisas mostram que os policiais têm dificuldades no relacionamento em casa e no trabalho, o alcoolismo é comum e o estresse é elevado. Além disso, eles têm fácil acesso a uma arma de fogo.’’

  Pragmáticas, as autoridades tentam cortar o mal pela raiz alardeando que os policiais eles devem investir em treinamento e procurar ajuda ao primeiro sinal de uma crise depressiva. Mas a saída não parece ser tão simples. ‘‘Ninguém aprende na escola como lidar com a violência, a miséria humana, crianças violentadas, morte e conflitos dos mais diversos tipos’’, analisa Violanti.

  James Francis Schabenland cometeu suicídio em 9 de fevereiro de 1999 com a própria pistola. Tinha 50 anos e era um policial gabaritado, que se preparava para ir à academia do FBI, a Polícia Federal americana. Faria um curso especial de desarmamento de bombas. James tinha mestrado em criminologia por uma pequena universidade da Califórnia e era um dos seis únicos especialistas em comparação de impressões digitais e balística da região de Fresno. Tinha, enfim, uma carreira de sucesso. Deixou mulher e filho.

  A causa da morte foi uma série de desentendimentos com superiores. James vinha denunciando procedimentos controversos no laboratório de criminalística em que trabalhava. A utilização de químicos de alta periculosidade e a falta de equipamentos adequados colocava em risco a saúde dos peritos. Dois de seus colegas contraíram câncer supostamente em decorrência desses problemas.

  Ao denunciar as irregularidades, James tornou-se alvo de pressões de seus superiores e caiu em depressão. ‘‘Mas ele nunca procurou o serviço médico porque sabia que isso acabaria chegando até a polícia e tal fato seria usado contra ele para prejudicar sua carreira’’, contou Jacquelyn Cayford, mulher do policial.

  Jacquelyn conta que o suicídio ocorreu logo após James ter tido uma discussão com uma colega de trabalho. A perita teria cometido um erro que inutilizou provas de um caso complicado em que James vinha trabalhando. O atrito da manhã teria sido a gota d’água para o desfecho trágico da vida de James, 31 anos após ter ingressado na corporação.

  Depois do suicídio, Jacquelyn conta que se viu diante de uma realidade que jamais poderia imaginar. ‘‘Durante todos aqueles anos a corporação nos fez crer que éramos parte de uma grande família. Mas tudo isso ruiu após a morte do meu marido.’’ Jacquelyn sofreu pressões para assinar documentos que atestavam o suicídio do marido antes mesmo que ela tivesse certeza do que havia ocorrido, e viu colegas de longa data do marido lhe darem as costas no momento mais frágil da sua vida. ‘‘Tentaram até espalhar que meu marido havia se suicidado por problemas na vida conjugal. Mas nós fomos casados por quase 30 anos’’, argumenta.

  Desde então, ela trava uma batalha legal com o departamento de polícia para ter acesso aos arquivos da morte do marido, fato negado por superiores. A ação judicial está em andamento.

  Robert Douglas, um policial aposentado de Maryland que já pensou em se matar durante os anos em que perseguia criminosos nas ruas, tenta trazer os problemas à tona na esperança de reduzir o número de vítimas. Neste caso, o silêncio parece ser o mal maior. Ele criou uma associação para pressionar o governo a dar mais apoio à causa, escreveu um livro de auto-ajuda para policiais em situação de risco e percorre o país ministrando palestras para correligionários.

  ‘‘Eles têm muita dificuldade em buscar ajuda porque aprenderam que têm que ser durões’’, disse Douglas. ‘‘Para um policial, admitir suas fraquezas significa menores chances de progredir na carreira.’’ Don Sheehan, diretor do programa anti-estresse do FBI, também acha que as peculiaridades da profissão alimentam o fenômeno. ‘‘Se você é um carpinteiro e o martelo cai no chão, você se abaixa, apanha a ferramenta e segue em frente’’, raciocina. ‘‘Mas o que acontece com um policial que perde o controle de sua arma durante o roubo de um banco?’’

  No ano passado, só em Los Angeles 22 policiais se mataram. O Departamento de Polícia de San Diego, na Califórnia, sofreu duas perdas numa única semana. Os dois policiais eram jovens, estimados entre os colegas e aparentemente não houve relação entre os casos. Na coletiva de imprensa em que anunciou a tragédia, Jerry Sanders, o chefe de polícia local, chorou. Ambos vinham recebendo aconselhamento médico.

  A capitã Lesli Lord, 45 anos, matou-se em casa. Era uma das cinco melhores oficiais de sua unidade. Estava na polícia há 20 anos. Na noite seguinte, o corpo de Anthony Castellini foi encontrado pela namorada. Ele havia se separado da mulher há um ano e meio e em seu currículo constava o resgate de um homem de dentro de um carro em chamas.

  O fato é que ser policial nos Estados Unidos tem se tornado uma tarefa cada vez mais espinhosa. Um policial de uma cidade como Nova York ou Los Angeles recebe um salário médio de US$ 3 mil, mais benefícios. Mas nas cidades pequenas esse valor cai pela metade. Como a prática de recorrer à Justiça nos Estados Unidos é muito comum, os policiais vivem com os nervos à flor da pele. ‘‘Hoje um bom policial tem que ser praticamente um advogado para não cometer erros quando está em ação’’, explica Douglas. ‘‘E depois dos ataques terroristas, o nível de estresse nunca esteve tão alto.’’

  Não é de surpreender, portanto, que boa parte dos departamentos de polícia tem tido muito trabalho para recrutar novos agentes. ‘‘A maioria das pessoas escolhe essa carreira em busca de reconhecimento público, mas isso é um bem cada vez mais raro hoje em dia’’, frisa o ex-policial.

 
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