Cadê o Made in Brazil?
Fabricio Rocha
etudo@correioweb.com.br
Como não começar a fazer planos apocalípticos quando se vê o dólar subir, em uma semana, mais do que o salário de 99% dos brasileiros em oito anos? O tobogã financeiro dos últimos dias, causado pelas ‘‘forças ocultas e estranhas’’, ‘‘motivos de força maior’’ e outras entidades sobrenaturais que explicam tudo nesse país, faz pensar o quanto é frágil e perigosa a tal economia globalizada. Pensei: não, em caso de colapso o Brasil não fica como a Argentina. Mas provavelmente a economia tomará uma pancada tão forte que vai precisar ser completamente remodelada.
Grandes economias se refizeram após a Segunda Guerra Mundial, com indústrias apostando nos mais baixos preços possíveis, nas vendas para o mercado interno, no desenvolvimento de tecnologias próprias. Instituída a hecatombe, imaginei, importar equipamentos de informática com o dólar lá no quarto andar fica caro demais e se o país não der um jeito de se virar por aqui mesmo, vai ficar difícil se reerguer e se manter no mundo digital de hoje. Talvez se desse muito bem o sujeito que fabricasse e vendesse computadores muito baratos. É uma idéia fixa minha: por que não existe um micro realmente barato, como os de antigamente, simples porém suficiente para o que a maioria das pessoas faz em casa? Aliás, por que isso não é feito já antes de um possível colapso?
Resposta simplista: é a mania brasileira de ‘‘querer ser gringo’’ aliada à gatunagem de alguns elementos de nossa sociedade. O modelo de reserva de mercado da informática, praticado no país até 1992, de fato deu origem a várias fábricas nacionais. Mas delas pouco se exigia, nelas pouco se criava e o Brasil foi ficando muito para trás em tecnologia. A abertura do mercado varreu os picaretas que apenas copiavam o que havia no exterior cinco anos antes. As empresas mais sérias sobreviveram — porém, pouco se preocuparam em desenvolver tecnologias próprias no país. Na época, o Windows 3.0 foi lançado com grande sucesso e logo os PCs montados com peças estrangeiras invadiram o mercado. Pela mesma porta entraram as principais empresas de informática do mundo, por conta própria ou aliando-se com as outrora gigantes da informática brasileira.
Tecnologia própria
Outro dia estive com o pessoal do Grupo TBA conversando sobre isso. ‘‘O Brasil poderia se destacar com software’’, diz Mário Oswaldo Gomes, diretor da Efatec, escola de informática do grupo. ‘‘Mas quase todas as universidades formam péssimos programadores, não há investimento em pesquisa e os caras bons vão para o exterior’’, analisa. Nada de mau na chegada das empresas estrangeiras, mas a indústria nacional simplesmente se limitou a trazer tudo de fora. Agora, o mercado de informática brasileiro está totalmente à mercê das flutuações da economia exterior.
A falta de uma política de desenvolvimento tecnológico nesses dez anos se torna, no mundo de hoje, uma deficiência grave em relação aos outros países que buscam passar de ‘‘nações em desenvolvimento’’ para ‘‘nações desenvolvidas’’ — como Índia e China, que exploram as suas precárias condições sociais para fornecer mão-de-obra barata para a fabricação de equipamentos. Dificilmente veremos nos próximos debates algum candidato à presidência propôr alguma ação sobre o assunto, então fica a dica. O que é preciso não é uma reserva de mercado, como a de outrora, mas incentivo à pesquisa e, sim, vantagens para a indústria nacional. Afinal, o Tio Sam não cobra um monte de impostos sobre o que importa?
Ainda acredito que, graças à extrema criatividade dos engenheiros, técnicos e estudantes brasileiros, é possível desenvolver toda uma plataforma tecnológica barata, fácil de construir por aqui mesmo, que pode realmente manter a população ligada ao mundo digital mesmo que o dólar entre em órbita. Há exemplos — como o mago dos MSX, Ademir Carchano, que vez por outra inventa e cosntrói um computador completamente fora do normal. Com software apropriado, é possível fazer qualquer coisa, como entrar na Internet, jogar, escrever textos, trocar e-mails. Se isso ‘‘não é o que o mercado usa’’, como dizem alguns, não importa — antes é preciso levar a tecnologia aos cidadãos.
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