Brasília, sexta-feira, 09 de agosto de 2002
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Fruto de arte

A cabaça pode ser usada simplesmente para carregar água, mas é também uma desejada e criativa peça de artesanato

Christiana Suppa
Da equipe do Correio

  Diz a cultura popular que todo caboclo de Minas Gerais tinha sua cabaça para levar água para a roça. No início do século passado, a cabaça era um típico aparato dos nordestinos. Até os portugueses quando chegaram ao Brasil encontraram as índias carregando cabaças com tintas, água e sementes. Hoje em dia não é diferente. Do Pará ao Rio Grande do Sul o fruto da cabaceira é usado para as mais diversas utilidades. Da música à decoração, passando pelos utensílios domésticos, vários artistas escolhem a cabaça como matéria-prima para um artesanato criativo e original.

  Não se sabe ao certo a origem da planta. O fato é que há mais de 500 anos os índios utilizam a cabaça para os mais diversos fins. No fruto ainda verde, cada tribo desenhava traços específicos, representando sua etnia, e transformava as cabaças em moringas, bolsas, chocalhos e até brinquedos para as crianças. Algumas tribos untavam seu interior com uma substância enegrecida que evitava o ataque dos vermes. Outras cobriam seu exterior com desenhos geométricos, muitas vezes recorrendo à pirogravura (gravação com fogo).

  Na música, o berimbau e o maracá — herança dos negros e dos indígenas — utilizam o fruto enfeitado com penas ou pinturas para solenidades religiosas ou rodas de capoeira. Pelo formato bojudo e a boa madeira, as cabaças funcionam como caixas de ressonância nos berimbaus, dando volume ao som do toque da vareta no arame esticado. As cuias de chimarrão também utilizam a parte superior do fruto.

  Luiza Galina, artista plástica de Brasília, conheceu a cabaça por acaso, na fazenda de um amigo goiano. Logo se encantou e trocou as telas pelo fruto. Hoje, ela mesma planta, limpa, seca e trata os exemplares que utiliza em suas criações. Entre as peças de Luiza destacam-se os personagens que ela faz em três tamanhos. São noivos, fotógrafos, mães, boêmios e o que mais vier à cabeça. ‘‘As cabaças parecem ter vida própria. A forma do fruto já me diz o que fazer com ele. Acaba se transformando num processo interativo’’, conta Luiza, que pintou a primeira cabaça há quatro anos e não parou mais. O trabalho faz tanto sucesso que ela abandonou a profissão de pedagoga, que exerceu por quase 20 anos, para dedicar-se exclusivamente à sua arte.

  Em São Paulo, a artista Delba Marcolini, que trabalha com arte têxtil há mais de 25 anos, descobriu a cabaça há cerca de dois anos, por causa de um concurso do Centro Gaúcho de Tapeçaria Contemporânea (CGTC). O concurso iria premiar o melhor trabalho feito com porongo (nome dado à cabaça no sul do país). ‘‘Eu não sabia nem o que era o tal porongo. Foi uma amiga que me mandou pelo correio duas unidades. Quando vi o fruto tive a idéia de fazer os oratórios’’, revela Delba, que pegou as sementes e plantou em sua fazenda no sul de Minas Gerais.

  Desde o primeiro oratório, criado para a participação no concurso, Delba aprimorou a técnica e hoje utiliza, além dos santinhos de resina, espelhos, medalhinhas, contas e escapulário. Tudo para enfeitar ainda mais as peças que são sucesso de vendas em duas lojas de São Paulo.


Utensílio doméstico

Cortado ao meio, o fruto é usado para servir alimentos e bebidas

 

  • Nome científico: Lagenaria vulgaris

  • Família: cucurbitáceas

  • Origem: não se sabe ao certo. Há quem considere a cabaça original da Ásia e África. Porém, quando os portugueses descobriram o Brasil, os índios daqui já conheciam o fruto

  • Características: erva trepadeira ou rastejante que apresenta gavinhas (órgão de fixação das trepadeiras). As flores são, em geral, amarelas, e as folhas, grandes. Os frutos, de várias cores e feitios, atingem em média 40 centímetros de diâmetro

  • Plantio: o melhor período para plantar a cabaça é entre agosto e outubro. As flores aparecem em novembro e, entre fevereiro e março, os frutos já devem estar maduros

  • Colheita: se o fruto for colhido verde, murcha. A dica para saber se ele já está maduro é bater com força na casca, utilizando uma faca, depois que a cabaça ficar amarelada. Se a faca não se prender ao fruto, a cabaça já pode ser colhida

  • Como secar: para secar o fruto, basta deixá-lo por alguns dias na sombra. Outra alternativa é deixá-lo secar no próprio pé, até o cabo ressecar e a cabaça adquirir sua cor tradicional. Depois, é só retirar a casca do fruto com a ajuda de água e de uma escova de aço

  • Durabilidade das sementes: se guardadas em local fresco, duram até um ano

    Agradecimentos: Etno Brasil — Gilberto Salomão

  • Presépio
    Fotos: Edilson Rodrigues

     

    No artesanato gaúcho, a cabaça serve de abrigo para a santa família

    Personagens

     

    A artista Luiza Galina dá vida às cabaças transformando-as em divertidos personagens

    Rituais indígenas

     

    O maracá enfeitado com penas é usado pelos índios em solenidades religiosas

    Pintado a mão

     

    Retirada a parte superior do fruto, ele vira um delicado cachepô. Trabalho de Luiza Galina

    Bolsa de sementes

     

    No Amazonas, as índias enfeitam as cabaças usadas para carregar sementes
     
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