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Os riscos do culto ao corpo
Suplementos alimentares e anabolizantes atraem estudantes com pouco tempo para malhar. Para incentivar a moderação, universidades levam o assunto para provas
Juliana Cézar Nunes
Da equipe do Correio
| Ricardo Bobra |
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Natação no início da tarde. Judô no meio. Musculação para finalizar. Era a rotina de exercícios diários do estudante Fernando Augusto Mota, 19 anos. Era. Depois de completar o ensino médio, a malhação ficou em segundo plano. Mas a preocupação com o corpo, não. As horas de estudo no cursinho e em casa eram interrompidas duas vezes por semana para uma rápida ida à academia: no máximo duas horas. ‘‘Mesmo assim, como tenho facilidade para emagrecer, comecei a perder massa e disposição’’, lembra Fernando. Chateado, pediu conselho ao orientador da academia, na Asa Sul. Saiu de lá com nomes de suplementos alimentares para ganhar um ‘‘gás’’ extra e manter os músculos.
Na tentativa de manter a forma sem diminuir o tempo de estudo, o rapaz acabou no hospital com tonturas e dores no peito. ‘‘Joguei tudo fora’’, garante Fernando. O corpo do futuro engenheiro deu o alerta em apenas um mês. Os médicos consideram a reação rápida do organismo, até certo ponto, uma vantagem. O acúmulo de substâncias artificiais que estimulam o organismo pode causar problemas ainda mais graves, inclusive em órgãos como rins e fígado. Outra preocupação dos especialistas é com o uso dos anabolizantes. Existem estudos científicos que apontam reações adversas, como câncer e impotência sexual.
Preocupadas com os jovens, as universidades têm levado para o vestibular questões sobre as ‘‘bombas’’, legais ou não. Na sala de aula, os professores começam a abrir espaço para dúvidas e esclarecimentos. Alan Alves é um deles. Professor de Química do MC2 e do Colégio Rogacionista, ele faz questão de repassar para os alunos artigos sobre suplementos alimentares e anabolizantes. ‘‘Tive estudantes que iam para a academia desafogar as tensões e acabaram atraídos pelas substâncias por pura falta de informação’’, conta Alves.
A prova de Biologia da Universidade de Brasília de 2001 trouxe uma questão sobre anabolizantes (leia na página ao lado). São as substâncias mais combatidas pelos médicos e nutricionistas. Também conhecidos como esteróides, aceleram a formação de músculos. Em contrapartida, enfraquecem o sistema imunológico. Com isso, podem causar câncer, depressão e impedir o crescimento ósseo. Os suplementos alimentares não são tão malvistos por alguns especialistas. Mas eles costumam recomendá-los apenas para quem faz exercícios intensos, como triatletas profissionais.
Pessoas com deficiência alimentar também podem recorrer aos suplementos, desde que acompanhadas por médicos. É a recomendação do médico brasiliense Francisco Sérgio dos Santos, do Comitê Olímpico Internacional (COI). Segundo ele, o uso irregular de suplementos energéticos causa problema renais, câncer no fígado, insuficiência hepática e até mesmo dependência química. ‘‘Já encontrei até cocaína ao analisar aceleradores de metabolismo’’, garante Francisco dos Santos.
Um dos suplementos mais disponíveis nas farmácias e lojas especializadas é a creatina, uma substância produzida naturalmente pelo organismo e sintetizada em laboratórios. Ela ajuda a aumentar a massa muscular. Outro suplemento muito usado é o aminoácido, formado por proteínas pré-digeridas, provenientes de peito de frango, ovos ou lactoalbumina (proteína do soro do leite). Eles auxilia na construção e recuperação de músculos, além de aumentar a resistência física.
Existem ainda os termogênicos, compostos à base de ervas usadas para acelerar o metabolismo do corpo humano (ma-huang, efedrina, ginseng, guaraná, sinefrina). Podem propiciar maior resistência física, queima de gordura e redução de peso. O uso excessivo leva a ataque cardíaco, convulsões e até à morte. Reações adversas mais brandas, como retenção exagerada de líquidos e excesso de sódio no organismo, são causadas pelos isotônicos. Isso mesmo. Aquelas inocentes garrafinhas, com líquidos coloridos, usadas para repor as substâncias que vão embora com o suor. O problema é que a reposição costuma ser desnecessária para quem faz pouco exercício físico. Aprendeu a lição? Agora, é só colocar em prática. Boa sorte!
Colaborou Everton Venâncio
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