Brasília, domingo, 18 de agosto de 2002
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  Márcio Cotrim

O caminho das águas

cotrim@correioweb.com.br

 Não sou técnico no assunto, não vou meter o bedelho onde não fui chamado nem dar uma de fogueteiro. Mas, ora bolas, sou brasileiro e me preocupo com o presente sobretudo com o futuro do país e de meus cinco netos.

  São essas razões cívicas e domésticas que me trazem hoje a você para tratar de um assunto que já devia, há muito tempo, ter chamado a atenção de nossos pífios governantes e que, neste momento pré-eleitoral, tinha que estar na pauta dos candidatos mas do qual, incrivelmente, nem se ouve falar.

  • Números vergonhosos desabam sobre a cabeça do eleitor. Um dos mais tristemente verdadeiros é que este ano o Brasil investe 14 bilhões em educação e — pasme! — gasta quase 100 bilhões para pagar apenas os juros de nossas dívidas urbi et orbi. Ficam os lorpas a festejar o aumento de 30 bilhões em nossa dependência, como se corda mais longa fosse a solução para o enforcado.

      Falemos, pois, de coisa positiva, índole constante desta coluna. Pelo menos, da perspectiva de algo bem positivo: o uso de nossos rios como hidrovias.

      O Brasil possui a maior malha hidroviária do planeta. Nenhuma outra nação tem tantos rios, tão grandes e navegáveis. Abra um mapa físico do país e você ficará perplexo e orgulhoso com a quantidade de rios que correm por todos os cantos de nosso território, estradas líquidas que fluem de Norte a Sul, muitas ainda virgens!

  • Descem dos confins da Amazônia aos pampas, cortam planaltos e planícies, mata fechada e campo cerrado. Milhares de quilômetros nunca aproveitados para o transporte das riquezas produzidas pelos brasileiros. Chega a doer no coração a secular incompetência dos governos deste lindo Pindorama.

      Jamais se pensou com seriedade nessa óbvia alternativa viária. Nem o grande Juscelino deu-lhe a devida importância, embora tenha levado o progresso a lugares jamais pisados pelo homem. Washington Luís adotou como lema o mote ‘‘Governar é abrir estradas’’, esquecido de que os rios brasileiros já são estradas abertas, gigantesca fonte de receita e sem trauma ecológico, dádivas de nossa exuberante natureza.

      Caso típico de vontade política. Como se sabe, o transporte fluvial é muitíssimo mais barato que o rodoviário e até o ferroviário, e muito mais seguro. De contrapeso, fantástico potencial turístico a explorar com o advento de uma nova e lucrativa rede ribeirinha de hotéis, sem falar num possível e formidável impulso na indústria da pesca.

  • Outra coisa: a manutenção da hidrovia praticamente não custa nada. Sua sinalização também é simples. São mínimos os riscos de acidentes, pesadelo que todo ano mata milhões de brasileiros em nossas rodovias.

    Mais ainda: forte estímulo ao resgate do otimismo nacional — que hoje se contenta com um caneco de futebol. Quantas atrações à disposição de patrícios e forasteiros, novos roteiros de viagens deliciosas — que tal descer o Paraíba do Sul conhecendo, em suas margens, encantadoras cidades atualmente desmotivadas como Porto Novo do Cunha, Valença, Barra Mansa e Lorena?

      Quem já viajou pelo Reno e se deslumbrou com a paisagem sabe do que estou falando. E o Reno, um dos mais belos rios do mundo, não deixa de ser uma hidrovia.

      Se para o turismo ela é uma mina, imagine o que vai significar, para a economia do país, a formulação e implantação de uma estimulante política hidroviária. Opção que facilitará e barateará o transporte de minérios, grãos, manufaturados e de gente feliz pagando preço baixo para ir daqui para ali, de lá para acolá.

  • Um projeto de transporte que promova a integração nacional através dos rios é perfeito complemento a qualquer plataforma presidencial que se preze.

      Fica a sugestão aos concorrentes na caça ao voto. Não custa refletir sobre ela, até porque sua execução é relativamente rápida e barata e, cá entre nós, poderosa alavanca para atrair investimentos nacionais e internacionais nos campos da hotelaria, lazer e geração de emprego.

      Tanto benefício para um povo sofrido e desiludido como o nosso, senhores candidatos!

      Por todos os motivos, vale a pena percorrer o caminho das águas.

  • Perigo não é um cavalo na pista, é um burro na direção’’ (Da sabedoria utilitária).
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